Esta crónica, pessoal e intransmissível, encerra uma confissão: tenho paixão antiga pelo Salgueiros (1). Pelo velho “Salgueiral”, que sempre foi vermelho – mesmo no tempo da ditadura!
Agora que o mais popular clube da cidade do Porto acaba de comemorar 104 anos de vida, recupera o seu bom nome, o seu emblema e a sua sede regressa à sua “Paranhos” natal, regozijo-me e só posso dizer alto e bom som:
Salgueiros sempre!
Foi no velho campo de “Vidal Pinheiro” que vi os primeiros jogos de futebol e foi ali, também, que, mais tarde, conheci alguns dos homens que ajudaram a escrever a singular história de um clube que nasceu a 8 de Dezembro de 1911. Foi ali também que meu pai me falou pela primeira vez no engenheiro Vidal Pinheiro (2) e em Norton de Matos (3) – ambos declarados e públicos opositores a Salazar.
Também no seu nascimento, o Salgueiros foi diferente de todos os outros. Nasceu na rua e teve como testemunha o candeeiro número 1047, entre a Rua da Constituição e a Rua Particular de Salgueiros.
Conto: três amigos, João da Silva Almeida, conhecido por “Joaninha”, Aníbal Jacinto e Antenor, depois de terem assistido a um Porto/Benfica, no velho Campo da Rainha, resolveram criar um clube. Um clube com camisolas vermelhas e com uma águia no seu emblema. Por isso José Guimarães diz no hino do clube:
“… O meu Salgueiros/é irmão do meu Benfica”.
O Salgueiros começou por ser o Sport Grupo Salgueiros, depois Sport Porto e Salgueiros e em 1920, por via da fusão com o Sport Comércio, passou a designar-se Sport Comércio e Salgueiros, nome que perdeu quando faliu e que agora recupera.
Membro Honorário da Ordem do Infante D. Henrique e possuidor da Medalha de Mérito Desportivo e Medalha de Ouro da Cidade do Porto, o Salgueiros foi sempre um clube do “reviralho”.
E pagou por isso: Salazar não perdoou a Vidal Pinheiro ter consentido que Norton de Matos fizesse no velho “pelado” de “Paranhos” o comício da campanha eleitoral que protagonizou contra o ditador, em 1948; e tão-pouco esqueceu que, nas manifestações de regozijo pelo fim da Segunda Grande Guerra Mundial (4), três anos antes, em 1945, muitos populares do Porto, impedidos por razões óbvias de desfilar com a bandeira da então União Soviética – um dos países Aliados – tivessem optado por dar azo à sua alegria fazendo-o com as bandeiras vermelhas do popular “Salgueiral”.
Apesar de todas as contrariedades e perseguições, mesmo depois do 25 de Abril, o Salgueiros sobreviveu. E sobreviveu até ao dia em que a sua “alma” foi ocupada por gente que o transformou em centro de negociatas e trocou o velho “Vidal Pinheiro” por uma estação do Metro, que ainda hoje exibe um terreno baldio à sua superfície.
O dinheiro recebido na negociata nunca chegou aos cofres do clube e ao do “bingo”, que ocupou a velha sala do Cinema Trindade, também se lhe perdeu o rasto… Resultado: o clube endividou-se, abriu falência, passou a designar-se “Salgueiros 08” e só com muita luta resistiu à morte anunciada.
Volta agora, aos 104 anos, a ser o velho Salgueiros. Pela mão da equipa directiva liderada por Silvestre Pereira e a ter casa própria em Paranhos, cedida pela Câmara Municipal do Porto.
A engenheira Virgínia Moura (5), que foi uma das suas mais notáveis sócias, há-de acolher tão boa nova com o seu largo sorriso…
(1)Para memória futura, aqui ficam os nomes de alguns jogadores e treinadores com presença certa na história do clube portuense: Chau (Marcelo Lopes da Graça), que o Salgueiros contratou ao caboverdiano Mindelense por dois contos de reis mensais, e que jogou no clube treze épocas; Germano, Iaúca e Santana, vindos do Benfica; Mário Reis, Jorginho; Casimiro, sobrinho da fadista Maria da Fé; José da Costa; Rui França; Pedro Reis, que orientou a equipa na descida ao “inferno” dos “distritais”; Deco; Panduru; Sá Pinto; João Ricardo; Miklós Féher; Marcelo Moretto; Madureira; Pedro Espinha; Marco Caneira; Edmilson; Abílio; Chico Fonseca e Tonanha, entre outros. Como treinadores, Joaquim Meirim, Henrique Calisto, Zoran Filipovic, Vítor Manuel e Carlos Manuel têm presença certa na galeria dos mais notáveis. Entre os presidentes destaco, além de Vidal Pinheiro naturalmente, Jorge Ferreira, Afonso Martins, Júlio Lima e Carlos Pereira de Abreu, que regressou para dirigir o “Salgueiros 08” e evitar, assim, o seu fim. |


O Salgueiros é um dos clubes mais emblemáticos que conheço. A sua história é fantástica!
Estranho a ausência do jogador com mais jogos na história do Salgueiros… NELITO (defesa esquerdo anos 70/80).