Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Memorando Tsipras II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

(conclusão)

A poucas horas do início da manhã (de madrugada), e na sequência de uma pirueta processual sugerida pelo nepotista Pasokiano Venizélos e aceite pelo governo, a questão das emendas foi julgada conforme à Constituição. Panagiótis Lafazánis, chefe da Plataforma de Esquerda (… SYRIZA) tomou imediatamente a palavra, por volta das 5 da madrugada visivelmente irritado porque muito desiludido:

“Não sei se devo dizer que estou desolado ou então que me sinto envergonhado. Assim, à maneira das monges que chamavam à carne… peixe, vocês modificaram um título de modo a que a vossa emenda possa parecer… constitucional. É efectivamente uma maneira de fazer do senhor Mardas o ministro do orçamento, [D.Mardas, Ministro do Orçamento] ? Os senhores aprovaram esta trucagem proposta pelo Sr. Venizelos e pensam que isso vos dá a solução? É uma vergonha, é uma aberração constitucional. Estão a agir intencionalmente e a violar a Constituição. Fazem da nossa Constituição um bocado de papel amarrotado. Então, a democracia na Grécia é abolida, vivemos sob a ditadura da zona euro e vivemos na sua neo-colónia. Salvo que iremos quebrar esta ditadura, a alternativa existe, isto não é uma via única”.

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Atenas, vazia. Agosto de 2015

 

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Tempo presente. Atenas, Agosto de 2015

O voto foi assim marcado pela resistência de muito numerosos deputados da Plataforma de Esquerda e não somente destes. Alexis Tsipras conseguiu a sua aprovação com cerca de 120 votos trazidos pelo conhecido bloco memorandista histórico (Nova Democracia, PASOK, Potami) e pelo seu aliado, o partido de direita… falsamente soberanista ANEL.
Foram 43 deputados SYRIZA em 149 deputados que não seguiram os Tsipriotas neste suicídio ético e político: 32 votaram contra, e 11 abstiveram-se. Sublinhemos que os deputados não tiveram tempo para ler os textos (à parte um resumo) – declaração de uma deputada SYRIZA na tarde de 14 de Agosto na rádio 105,5 (de SYRIZA), então isto não passa de uma palhaçada, de uma traição, de uma profunda desolação. Para o meu amigo Georges que me acaba de telefonar da sua ilha, Chios, “Tsipras permanecerá na história como o maior vigarista político da Grécia contemporânea, bem pior mesmo que Papandréou”. Os slogans e os cartazes do momento em Atenas, às vezes bem vulgares e sempre explícitos… progridem no mesmo sentido: “Tsiprandréou traidor” ou, “Tsipras, collabo podes rebentar”, seguidamente, “Papandréou – Mitsotakis – Tsipras… merda”, por fim, “a Liberdade ou o euro”, o que sugere uma certa tomada de consciência quanto ao papel central, reservado ao euro pelo totalitarismo europeísta.

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“Tsiprandréou traidor – Tsipras, colabo, podes rebentar”, Atenas, Agosto de 2015

 

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“Papandréou – Mitsotakis – Tsipras… merda”, Atenas, Agosto de 2015

 

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“A liberdade ou o euro ” e… “Somente o amor ” (acrescentado ), Atenas, Agosto 2015

O meu amigo Yannis, membro de SYRIZA, está aflito: “Estes antigos camaradas, por vezes tornados deputados tinham sido meus companheiros durante tantas acções e tantas manifestações. Tínhamos conhecido juntos a repressão policial… dos outros governos do memorando, e sinto que mais cedo ou mais tarde, farão uso dos mesmos polícias para nos reprimir, é horripilante. Sei no entanto que nós, os de esquerda, não votaremos mais SYRIZA, sobretudo depois da cisão (Lafazánis). Contudo, no trabalho, todos os colegas de direita me dizem “que entre a Nova democracia completamente desconsiderada , preferirão Tsipras, “porque este tipo, pelo menos terá tentado algo e sobretudo ele abriu-nos os nossos olhos sobre a perfídia que é esta Europa e tudo isto, por agora, apesar da antropofagia anunciada pelo memorando III”.

Compreende-se melhor assim a aceleração do calendário político imposto pela junta europeísta, eleições antecipadas próximas aqui incluídas. Como por azar, Prokópis Pavlópoulos (ex-ministro da Nova Democracia) e infelizmente uma pobre “marionete presidencial”… instalada por SYRIZA/ANEL (contra o parecer da Plataforma de Esquerda) contactou nestes últimos dias Jean- Claude Junker, François Hollande, Draghi, notícia minimizada pela imprensa grega e ignorada pela imprensa internacional. Sabe-se que, oficialmente, o procedimento a seguir se encontra nas mãos (muito heterónomas) do Chefe do Estado (oficial).

Em todo o caso, Alexis Tsípras solicitará a confiança “do Parlamento”, “uma vez que a Grécia terá reembolsado um pagamento de 3,2 mil milhões de euros ao Banco central europeu (BCE) a 20 de Agosto, declarou, na sexta-feira, um responsável governamental. Neste clima, a perspectiva de eleições antecipadas para o Outono, enquanto é ainda muito popular, toma cada vez mais corpo”, nota uma certa imprensa económica do mainstream. Jornada por conseguinte muito sombria para a Grécia e para a Esquerda esta sexta-feira dia 14 de Agosto. Memorando adoptado, o governo Tsipriota deve pedir um voto de confiança, 118 dos eleitos da maioria foram-lhe garantidos (menos que 120, dimensão crítica de modo a que um governo possa permanecer em exercício ), 32 deputados SYRIZA votaram não, 11 abstiveram-se e um eleito estava ausente.
Panagiótis Lafazánis e a Plataforma de Esquerda anunciam a criação próxima de um novo polo político contra o memorando enquanto Zoé Konstantopoúlou (Presidente da Assembleia) que não a preside neste momento, se opôs resolutamente ao memorando, e ela qualificou o ministro do orçamento Mardas, de quase “colabo”. Rupturas ainda.

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Atenas, Agosto de 2015

Sejamos sintéticos, por agora. Sem estar a pretender estar perante algum conspiracionismo e apenas, de acordo com os elementos dos quais dispomos (declarações e acções dos atores políticos da Grécia e de outros lugares) o … Plano B da Troika chama-se SYRIZA. Homens políticos Syrizistas de primeira fila (Stathákis e Dragasákis por exemplo) encarnam este papel de resto desde há já muito tempo. A chantagem bem real (conhecida e desconhecida) em contrapartida, o que os mestres-loucos do Eurogrupo exerceram sobre Tsipras terá dado forma a esta sequência. Desde há já algum tempo, toda gente, todo o mundo, repara bem que o olhar bem como a linguagem do corpo de Alexis não são mais as mesmas que antes. Mutação?

Não nos devemos contudo esquecer que a cegueira europeísta de Alexis Tsipras, reiterada nestes últimos tempos e em cada ocasião, é este mesmo europeísmo inspirador… do nada político aos defensores e aos tenores visíveis da triste “ Esquerda” na Europa. Apenas, Alexis Tsipras (contra a sua vontade?) assim… como a impostura SYRIZA, terão para os historiadores este enorme mérito, o de se ter acelerado a história e também, as consciências. À maneira de um catalisador… forçosamente consumido.

Estes historiadores do futuro (bem próximo), terão no entanto a dizer e a debater… desta fraude política, então a mais curta na história da meta-democracia europeísta e mundializante. Reter-se-á apenas que a batota social-democrata, quanto a ela dura há já décadas e… que uma certa vigarice de outrora e de Alcibíades, terá ocupado os Atenienses durante praticamente toda a Guerra do Peloponeso .

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Sabão de Miteleno. Atenas, Agosto de 2015

Alcibíades quanto à … pequena história, tinha frequentemente mudado de campo e conseguiu mesmo exercer um verdadeiro ascendente sobre o Persa Tissaferno, convencendo-o a adoptar uma política entre-duas não favorecer nem Esparta nem Atenas, e assim utilizar os Gregos contra eles mesmos, de acordo com o que nos conta Thucydides. Tempos certamente antigos não se prestam forçamento aos anacronismos, salvo que o memorando III tem também como objectivo… utilizar os Gregos contra eles próprios.

O quotidiano ateniense não se altera, e não se alterará amanhã de manhã. O tempo avança e as lembranças às vezes insistem. O nosso lugar de memória 1941-1944, uma prisão sob um grande edifício ateniense, utilizado pelo Exército alemão outrora, permanecerá fechada até ao dia 24 de agosto, férias obrigam

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Nosso lugar de memória 1941-1944. Atenas, Agosto de 2015

 

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Nosso lugar de memória 1941-1944. Atenas, Agosto de 2015

 

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Dois tanques do exército britânico . Atenas, Decemebro de 1944

 

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O mesmo imóvel, cafés e restaurantes. Agosto de 2015

 

Ironia… tão frequente na história, este mesmo edifício, protegeu durante um curto momento, a sede do EAM, Frente Nacional de Libertação do país (grande organização da Resistência e da Esquerda), assim, em Dezembro de 1944, aquando da batalha de Atenas (episódio da Guerra civil), dois tanques do Exército britânico penetraram… gentilmente na nossa história contemporânea do momento. Sob a Troika… actual as necessidades evoluem, o edifício em questão abriga designadamente, cafés e restaurantes, vida ateniense então pretensamente calma e memorando III sem tanques que se tem tornado (de momento?) obsoletos.

Futuro sem dúvida prometedor, tudo mudará inevitavelmente porque a mutação histórica do nosso pobre século XXI está já constituída. Tudo mudará, excepto os nossos animais adéspotas e à parte, talvez, este velho sabão da ilha Metileno que se encontra no mercado de Atenas.

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Animal adéspota. Grécia, Agosto de 2015
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Memorando Tsipras I

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