O GRITO DO COIOTE/1

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Passam hoje oito anos sobre a morte de Luiz Pacheco. Homenageamo-lo dando início a esta rubrica, a primeira do dia. Não é uma secção humorística embora alguns textos possam ser classificados nessa categoria. Também não tem periodicidade, embora saia com frequência. Com direcção gráfica de Dorindo Carvalho, terá textos escritos ou escolhidos Carlos Loures, Sérgio Madeira, João  Machado, pelo Dorindo e por todos que queiram colaborar.

O nosso primeiro texto será um excerto da biografia de Luiz Pacheco que Carlos Loures escreveu para VIDAS LUSÓFONAS. Chama-se O caso da gravata escocesa logo seguido pelo O caso da quadrilha dos selos. Segue-se um curioso projecto de vida de Woody  Allen.

Pacheco trabalhava na Inspecção-Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo partido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde estava instalado também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951 morre o marechal Carmona, presidente da República, é decretado o regulamentar luto nacional. Aos funcionários públicos é exigido que usem gravata preta e roupas de tons escuros. Pois Luiz Pacheco apresenta-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade é objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso é mesmo enviado ao ministro da Presidência!

 O caso da quadrilha dos selos.

Em Fevereiro de 1959 dá-se o caso do sobretudo – usa, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção-Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos. Porém, antes disso há uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»

E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebe-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo irá desabar com a Judiciária a entrar ali de roldão… É então que chega um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz:

«Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: – “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreve por alto o que se passa. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começa a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Luiz Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

A MINHA PRÓXIMA VIDA – por Woody Allen

A minha próxima vida quero vivê-la de trás para diante.
Começar morto para despachar esse assunto de uma vez por todas.

Depois acordar num lar da terceira Idade e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso por estar demasiadamente saudável, passar à reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar durante 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser suficientemente  jovem para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente, ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o ensino secundário e para a escola primária, antes de ser criança, só brincar, sem quaisquer responsabilidades.

Ser um bebé inocente até nascer.

Finalmente, passar nove meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e um espaço cada dia mais amplo, e depois…

Voilá! – desaparecer num orgasmo!

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In my next life I want to live my life backwards. You start out dead and get that out of the way. Then you wake up in an old people’s home feeling better every day. You get kicked out for being too healthy, go collect your pension, and then when you start work, you get a gold watch and a party on your first day. You work for 40 years until you’re young enough to enjoy your retirement. You party, drink alcohol, and are generally promiscuous, then you are ready for high school. You then go to primary school, you become a kid, you play. You have no responsibilities, you become a baby until you are born. And then you spend your last 9 months floating in luxurious spa-like conditions with central heating and room service on tap, larger quarters every day and then Voila! You finish off as an orgasm!”

 

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