43. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mecânica Anónima I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão  Maria Cardigos 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia ; uma análise social diária da crise grega

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Atenas. 24 de Setembro de 2015

 

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou

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Quinta-feira, 24 de Setembro

43. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mecânica Anónima

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O novo governo, essencialmente a renovação da equipa dos precedentes Tsipriotas, os … desaparecidos da Plataforma de esquerda a menos. Trovoadas violentas e abertas frequentes alternam com o humor dos humanos. Lassitude e relativa benevolência no que diz respeito ao governo daqui. Cerimónia de investidura, juramento e sorrisos. “ O menor dos grandes males, excepto as trovoadas que já provocaram duas mortes mas é uma questão da meteorologia” de acordo com um vizinho.
Grécia sequência e fim?

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Tempos chuvosos. Atenas, 23 de Setembro

Desde as ondas da rádio 105,5 (SYRIZA) que a alegria é evidente, sem, no entanto, extravasar como no tempo da primeira vitória de SYRIZA em Janeiro de 2015. SYRIZA, a exemplo dos outros partidos, perdeu algumas centenas de milhares de boletins, não obstante, é a imagem do sucesso que domina.

“Em parte enganei-me na minha análise. Pensava que o PC (KKE) se reforçaria, finalmente não foi assim, eles devem ter de reflectir. Mas o que devo dizer tem a ver com a análise social deste voto. As classes que sofrem nos bairros populares fortemente em todo caso deram claramente esta segunda possibilidade a Alexis Tsipras. Os que precisamente não sabem como vão poder sair-se da falta crónica do pão do dia-a-dia, os que doravante esperam se assim não é não esperam senão um pequeno gesto, uma ajuda. Nos locais de gente em bem melhor situação, onde a sobrevivência não é o problema essencial, o voto de protesto, de outra maneira-dizer, este luxo do voto frentista de esquerda foi possível porque as existências não estão em perigo”, considerava Costas Arvanítis a partir da sua emissão de rádio

Os jornalistas da estação felicitavam-se tanto na parte da manhã (de 23 de Setembro) do juramento laico de Alexis Tsipras muito sorridente, a exemplo da maioria entre os membros do seu governo, somente os ministros do seu aliado ANEL (partido de Panos Kamménos dos gregos independentes) bem como alguns Syrizistas (frequentemente antigos do PASOK) optaram pela manutenção da tradição do juramento ortodoxo e cristão. “É um detalhe mas de qualquer do mesmo modo, isto marca um pequeno progresso”, sublinhou um jornalista.

 

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Alexis Tsipras e Prokópis Pavlópoulos, Atenas, 23 Setembro

 

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Juramento católico de certos ministros. Atenas, 23 Setembro

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Visão.. lunar. Atenas, 22 Setembro

Os Gregos estão mesmo assim todos convencidos… da visão bem lunar do seu país, salvo que não haveria nada mais a fazer do que apenas ter de votar a favor dos práticos que aparecem como novos, contrariamente a tantos outros. O futuro será… apaixonante.
Tempo de espera, de dores e de novidades, tal foi a aposta ganhadora de Alexis Tsipras, o homem que deixou de colocar a tónica à esquerda, como se diz e como se sabe. O memorando III e sobretudo a sua governança… institutocrata (ditada pelas instituições que se sucederam à Troika), passaram por lá, passam ainda e continuarão a passar. Por detrás dos sorrisos e das declarações dos ministros “que reconhecem que a situação é grave e que as dificuldades muito grandes estão sem dúvida já à nossa frente”, a aplicação exigida do memorando III (56% do seu … arsenal regulamentar deveria ser adoptado “pelo Parlamento” antes do fim deste ano 2015, o qual permanecerá em todas as nossas memórias como a do segundo grande choque (primeiro o grande choque, foi o da vinda da Troika para a Grécia pelo governo Papandréou em 2010).

Rostos de um país obscurecido e ajoelhado, olhares abatidos de uma dignidade suspensa fora da linha de demarcação do futuro previsível que já não existe. Estes resultados eleitorais são assim pouco comentados pelos interessados do povo suposto soberano, circulemos, não se tem mais nada a ver, nada de comparável com a paixão animadora de Janeiro e Julho últimos, eleições legislativas precedentes e referendo “de NÃO”.

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Região de Vancouver – Canada, Setembro 2015

 

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Região de Ática, Setembro de 2015

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Região … de Atenas, Setembro 2015

Nos cafés, nas estações e nos comboios às vezes, os Gregos, reformados discutem falando primeiro das suas recordações de um passado socio-professional, forçosamente melhor mas já passado. Os episódios contados são em aparência insignificantes e contudo preciosos, tal como uma viagem turística em Turquia, uma saída para ir à pesca, ou ainda, estes detalhes estaladiços aquando de um casamento sumptuoso onde “a carne era assim tão boa e tão tenra”. Passado então necessariamente agarrador.

Entre um casal de reformados da função pública por exemplo, a constatação da aporia é de actualidade porque este passado nunca mais se inventará: “Tínhamos tido a possibilidade de ter pedido a passagem à reforma em 2010. Os nossos amigos que passavam à reforma neste momento, não receberão já o prémio de partida. Mas pensas tu que as nossas reformas voltarão ainda a reduzirem-se mais ? Não… acredito, é sobretudo inverosímil…” E no entanto!

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A espetada de… souvlaki. Atenas, Setembro de 2015

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Eufemismo. Atenas, Setembro de 2015

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Rua de Atenas e turismo. Setembro de 2015

Recebemos igualmente mensagens dos nossos, dos que definitivamente partiram, fotografias a reforçá-lo. Gregos, agora de Vancouver e de outros lugares, amigos às vezes que regressam para votar “porque os desafios são fortes”. Mais de uma milhão de Gregos deixou o país desde 2010, o número é importante. É assim que o meu amigo Makis veio da sua cidade, de Paris, para votar (SYRIZA), e certamente, para ver e para sentir o país do seu Peloponeso como na sua infância.

(continua)

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Maria Cardigos
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

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