A GALIZA COMO TAREFA – batalhas perdidas – Ernesto V. Souza

O natal e o verão marcam os grandes ciclos dos migrantes. Muito trânsito, nos comboios e aeroportos, de gente ainda nova, com as suas malas e sonhos de retorno, amores e saudades; e, nas estradas, carros cheios de famílias feitas nômades que transportam de parte a parte de Europa mercadorias, ofertas, poupanças, pequenos prazeres e vontades.

Passam os anos e passam anos nos rostos dos iguais, dos achegados e dos conhecidos. Os prédios, as ruas, os locais, a cidade foi mudando no decurso dos meses e dos anos.

Quantas mudanças nos rostos conhecidos, na vida dos amigos: sucessos, acontecimentos, decisões, oportunidades… a vida, enfim com as suas cousas belas, espantosas, admiráveis, miseráveis.

As marcas de classe são de novo evidentes em lojas e barzinhos com certo chique que se baliza na fronteira impensável há pouco do “um pouco mais” em Euros no custe da consumição ou o produto.

Neste dia de compras e pequenos mandados, observo fascinado  que na cidade foi morrendo mais o galego. Nas lojas velhas, do meu bairro, na procura de queijos e produtos artesãos, nos mercados; nem mesmo o procurando com os produtos que chamam; diria-se nem mesmo querendo pagar por ele.

Quando foi que morreu a derradeira geração de monolingues galegos urbanos? aos poucos, mas deveu ser neste início de século XXI, provocando uma concatenação de desequilíbrios: os bilíngues naturais, filhos ou simbiontes destes passaram a se relacionar com os seus filhos e a simbiose foi em Castelhano. E, hoje os monolingues castelhanos com lembranças e avós ainda na consciência, esqueceram ou já não acham rendível a ocasional mudança ou deferência, ainda há não tanto frequente?

O feito tristeiro é que um homem de 46 anos quer comprar em galego na sua cidade natal e apenas nos barzinhos e nos espaços com um compromisso nacional militante, o seu sorriso amável, palavras e transações possíveis devolvem-se em galego.

De menos em menos e com esforço, onde era natural, e de menos em menos, ainda que o cliente pague, emigrante, esse desejo de matar saudades. Não compensa, nem já é normal o esforço de respostar em galego, naturalizou-se como há décadas era visto, o castelhano.

Só ficam refúgios. O que escreve faz parada, com as suas sacolas cheias de presentes. A cerveja no bar moderno sabe bem, a moça tirou com cuidado e resposta num galego jeitoso.

Entretido olho a linda carpintaria e os cartazes anunciantes de lutas populares, atos feministas, ecológicos, culturais e compromissos vários, numa estética que acalma o espírito. Infelizmente a mulher que entra, com pucha armada de estreleira, pede em alta voz e estranha fonética alheia um chá, acarão, dizendo:

  • me posss una infusón de roibos…

Enfim… largo de dous grolos o que resta de cerveja e continuo, afora chove e venta frio.

2 Comments

Leave a Reply