ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER – PORTUGAL – POR FAVOR, QUANDO SAIR DESLIGUE AS LUZES! – por EDWARD HUGH – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Edward Hugh (1948 – 2015)

Portugal – Por favor, quando sair desligue as luzes!

Edward Hugh, 14 de Julho de 2012

(continuação)

Algumas características que são unicamente portuguesas

O curioso sobre Portugal é a forma como a sua trajectória primeiramente em  direcção à União Europeia e, depois, como  membro da UEM mostra muito mais   semelhança com o caminho que mais tarde foi trilhado por alguns países do Leste Europeu do que o caminho que tomaram os seus parceiros do sul da Europa.

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No que estaria  para ser um prenúncio de eventos a acontecer algures e durante uma década  ou mais tarde, o país perdeu sistematicamente população durante os anos de preparação para a entrada na zona euro, com  os trabalhadores a deixarem em massa o país em busca de salários mais altos noutros lugares. O fenómeno deixou uma cicatriz duradoura na economia e na sociedade. Pequena surpresa que o país que outrora foi o protótipo de uma “sociedade de emigração” tenha de novo e  tão rapidamente voltado a sê-lo  outra  vez, agora  sob o impacto da crise actual.

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Naturalmente Portugal, como todas as sociedades europeias, está a envelhecer muito rapidamente, um processo que não vai ser nada ajudado pelo elevado número  de jovens  que agora estão a sair.

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E a principal razão para este processo de envelhecimento da sociedade assim seja  é, naturalmente, o facto de a fertilidade a longo prazo ser muito baixa. Eu já o afirmei anteriormente e volto a afirmá-lo de novo, não faz absolutamente nenhum sentido económico para uma sociedade com uma fertilidade a longo prazo bem abaixo da taxa de substituição que esta se venha  a tornar um exportador líquido de mão-de-obra. No longo prazo a economia de um tal país não pode ser sustentável, e fico espantado que o FMI não se tenha ainda apercebido disso.

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Sob a tutela da Troika

Portugal foi o terceiro país do espaço da zona a sucumbir às pressões dos mercados financeiros, e a proteger-se em  porto seguro na forma de um programa de resgate da UE / FMI. Como resultado, o país já recebeu uma ajuda inicial de 78.000 milhões de euros em troca de que é obrigado a aplicar um programa rigoroso de correcção do défice. Mesmo que se possa e queira discutir alguns dos seus detalhes, o certo é que o país aplicou a maioria do que foi lhe foi exigido.

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E como resultado, a Troika tem constantemente considerado  que Portugal só pode ser chamado de país de “relatórios brilhantes” – quando  comparados com  o que são certamente aqueles  que recebe da Grécia.

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E conjuntamente com o défice até os rendimentos dos títulos estão a descer. Os rendimentos atingiram um pico em Fevereiro quando os mercados estavam preocupados com o segundo resgate grego e  com a sua componente de reestruturação da dívida, e levantavam eles próprios  a questão – será Portugal  o próximo?

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Então, onde estão os problemas?

Bem, já é bastante para que haja boas notícias. Apesar do alto nível de desempenho do programa, o país ainda enfrenta graves “desafios”  uma vez que  implementar  as reformas e aplicar as políticas de austeridade é uma coisa e alcançar o crescimento e a redução da dívida é bem uma outra coisa . Não sem surpresa, a economia está em profunda recessão. O FMI espera que a economia se contraia em 3,3% em 2012, e que volte ao crescimento mas de forma tímida em 2013 (0,3%). Mas, como o próprio Fundo reconhece, há fortes riscos de deterioração relativamente às previsões para 2013, e não é improvável que a economia venha mais uma vez a contrair-se.

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Igualmente preocupante, o desemprego já começou a subir acentuadamente, levantando algumas questões sobre a possibilidade de uma “viragem à grega” em termos de protestos e de manifestações. Além do sofrimento social causado, este aumento do desemprego está a ter duas consequências graves. Os objectivos iniciais quanto ao défice não vão agora ser cumpridos mesmo com estes cortes salariais do sector público e a juventude de elevada formação está a deixar o barco  nacional em números crescentes.

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Como diz o FMI na sua revisão do programa de Abril, o país está a realizar um grande ajuste macro económico com apenas uma “restrita caixa de ferramentas” disponível (um eufemismo presumo, para se referir à impossibilidade de desvalorizar).

O relatório do FMI, aliás, foi bastante franco e realista sobre os problemas que o país enfrenta, o que não é habitual, e foi muito mais explícito sobre as questões do que no seu relatório com a Roménia que eu li na semana passada.

Por um lado, eles afirmam que “os indicadores de competitividade estão a mostrar  alguns sinais de melhoria com a queda dos salários em alguns sectores e uma melhoria considerável no défice da sua  conta corrente em 2011” …. ainda …. “Apesar deste progresso, permanecem desafios formidáveis.. o exercício simultâneo da austeridade orçamental, das  reformas estruturais e da desalavancagem  da economia –  objectivos que podem trabalhar  de forma cruzada-  aumenta o risco de que os objectivos do programa em querer  reduzir rapidamente os desequilíbrios macroeconómicos continuem,  no curto prazo, a  não serem possíveis de alcançar.  “.

Mas em termos macroeconómicos estamos aqui a falar de quê?

Bem, em primeiro lugar e apesar das melhorias acima mencionadas, o país ainda continua a ter a sua balança comercial deficitária.

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E enquanto o défice em conta corrente foi substancialmente reduzido, o FMI ainda estima uma contracção de 4% do PIB para 2012. Mais revelador ainda, eles vêem o país como estando a ser incapaz de reduzir o défice abaixo dos 3% do PIB antes de 2018. Para realmente começar a ter um crescimento sustentável baseado nas exportações e continuando a redução da dívida em curso (o que o FMI chama de  “estabilidade externa”) teremos de ter, lembremo-nos,  o movimento da conta corrente a alcançar a posição de superavit, e de assim permanecer. Desde modo  será que  estamos agora  frente a um  caso de árvores de fruto muito pequenas e baixas  que foram já apanhadas? De toda a maneira,  e tendo em conta os avisos do FMI, não parece irrealista supor que Portugal vai precisar de algum tipo de apoio para a sua correcção em todo o resto da década.  Isso é o que significa ter uma ” restrita caixa de ferramentas “, pensamos nós.

A retoma das exportações  portuguesas  pós 2009 foi forte.

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Mas da mesma forma que a maioria das outras economias da periferia, a desaceleração do  crescimento no mercado europeu e dos países emergentes está a tornar cada vez mais difícil sustentar esta melhoria  relativamente ao  desempenho das exportações. De facto, a taxa de crescimento das exportações tem estado a diminuir  e agora caiu já no território negativo  assumindo uma base inter-anual.

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Obviamente, as exportações portuguesas subirão uma vez mais quando o crescimento global começar a recuperar, mas de quanto é eles poderão aumentar sem uma mudança muito maior ainda nos preços relativos? Como parte da sua terceira revisão do programa o FMI realizou um estudo quanto à competitividade e como resultado o Fundo estimou que a diferença de competitividade será de cerca de “13-14 por cento a partir de 2010”, notando de passagem, que “a diferença actual tem até agora sido apenas marginalmente reduzida (por cerca de 1 ponto percentual) “.

Usando uma abordagem na análise da estabilidade externa que se centra na redução da posição líquida do investimento internacional também se verifica que para “reduzir em  metade a posição líquida do investimento internacional em Portugal, que é altamente negativa, (cerca de -52 por cento do PIB), seria necessário uma depreciação da taxa de câmbio real de cerca de 13 por cento “.

Ambas as formas de olhar a questão parecem dar um resultado semelhante – que é necessário  a melhoria da  competitividade em cerca  de 13%  – e dado que  também se verifica  que “desde o pico em 2009, o ajustamento  nos custos unitários do trabalho tem sido bastante limitado. Em particular, a partir do terceiro trimestre de 2011, a taxa de câmbio efectiva real baseada nos custos unitários terá variado apenas 2-3 por cento abaixo do seu valor de pico de 2009 ” e mostra bem claramente que há ainda um longo caminho a percorrer.

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(continua)

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Ver o original no blogue de Edward Hugh acedendo a:

http://edwardhughtoo.blogspot.pt/2012/07/portugal-please-switch-lights-off-when.html

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