EDITORIAL –  O DINHEIRO NÃO ESCORRE, E OS PRIVILÉGIOS TAMBÉM NÃO

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Terá sido o actor e humorista norte-americano Roy Rogers (1879 – 1935) quem lançou a expressão trickle down, aplicando-a à concentração do dinheiro nas mãos dos ricos. Parece que o terá feito, por achar que assim poderia haver mais esperanças de que escorreria dos bolsos destes para os mais pobres (money was all appropriated for the top in hopes that it would trickle down to the needy). Posteriormente, os críticos das políticas que privilegiam os cortes nos impostos dos mais ricos, como foi o caso durante a época Reagan/Thatcher, que marcou o arranque do neoliberalismo como ideologia dominante, generalizaram o uso desta expressão, com uma conotação crítica, o que não terá sido o caso de Rogers.

Os defensores das políticas trickle down procuram fazer-nos crer que a sua aplicação levará ao crescimento económico, pois acham (?) que os ricos (que assim ficam ainda mais ricos) não falharão em investir o dinheiro em moldes benéficos ao resto da sociedade, incluindo os mais desfavorecidos. A prática traz violentos desmentidos a esta ideia, e constata-se que o efeito claro do trickle down é, nomeadamente, o agravamento das desigualdades. Entretanto, há que referir que os cortes nos impostos de modo favorável aos mais ricos não são a única maneira de concentrar o dinheiro e o poder nas mãos dos mais privilegiados. Assim justifica-se a extensão do conceito a outras situações, como, por exemplo, as que dizem respeito à defesa do ambiente.

George Monbiot, a propósito das inundações que têm afligido o Reino Unido, escreveu um artigo, que saiu em The Guardian sob o título Liz Truss is choosing to protect farmers over flood victim, em que procura mostrar como a protecção das explorações agrícolas, no que respeita ao fluxo das águas, feita de modo inconsiderado, afecta gravemente a vida das populações que vivem em zonas mais urbanizadas, situadas a jusante daquelas. E como o governo britânico, de que faz parte Liz Truss, que ocupa a pasta do ambiente, ao ceder aos interesses dos proprietários das explorações agrícolas, não tomou as precauções indispensáveis para evitar graves perturbações a um grande número de pessoas.

Isto não acontece apenas no Reino Unido, quase que seria escusado dizer. No nosso país, está a cair no esquecimento o caso da legionela, que custou a vida a várias pessoas, e deixou marcas noutras, num número considerável. O grau em que terá ocorrido terá sido possível por ter sido anulada a legislação que obrigava estabelecimentos fabris a controlar e filtrar os fumos e outros produtos resultantes da sua actividade que expelem para o ambiente circundante.  É preciso ter presente que não é só no campo dos impostos que o trickle down tem efeitos.

Propomos que acedam aos links seguintes:

http://www.theguardian.com/environment/georgemonbiot/2016/jan/07/liz-truss-is-choosing-to-protect-farmers-over-flood-victims

https://aviagemdosargonautas.net/2014/12/25/o-efeito-trickle-down-por-tejvan-pettinger/

https://en.wikipedia.org/wiki/Trickle-down_economics

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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