43. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mecânica Anónima II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão  Maria Cardigos 

(conclusão)

Para certos Gregos expatriados algures entre Paris e Berlim, os desafios parecem bastante claros; não compreendem nada como é que não se pode não dar uma segunda possibilidade a SYRIZA. E nos bairros de Atenas e de Salónica esta segunda possibilidade acaba certamente de ser dada mas não é, no entanto, uma escolha de coração como se diz agora.
Para além dos sentimentos, esta nova fase na submissão memorandista anuncia-se muito dura. Já, na quarta-feira 23 de Setembro, dia da investidura do novo governo SYRIZA/ANEL, as forças da ordem em Atenas, prenderam Panagiótis Kalfagiánnis, presidente do sindicato dos assalariados ERT (PROSPERT). Esta detenção … foi motivada “pela utilização ilegal, feita pela rádio Ertopen da frequência 106,7 que pertence ao ERT”

Desde o tempo do encerramento de ERT pelo governo Samaras e também durante o funcionamento (tardio) da sua nova versão nomeada NERIT, a frequência 106,7 FM tinha constituído um polo de resistência e sobretudo, uma rádio autónoma contra o memorando Samaras, contra qualquer memorando. Salvo que o memorando III é implacável, e que a paródia democrática actuará também sem dúvida (e isto muito rapidamente), na repressão dos insubmissos e… às vezes mesmo dos manifestantes.

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A ditadura dos Coronéis. Exposição do Parlamento. Atenas, Setembro de 2015

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A ditadura dos Coronéis. Exposição. Atenas, Setembro de 2015

Por um certo… azar do momento, a exposição sobre o período da ditadura dos Coronéis (1967-1974) iniciada pelo Parlamento, acaba de ser prolongada até ao próximo Novembro. A entrada é livre, o conteúdo é extremamente didáctico… e na sequência desta visita, diz-se … que vai ser necessário, enfim, seriamente meditar sobre… o fim das ditaduras!

Enquanto esperam, os Unionistas populares meditam já sobre a sua pesada derrota eleitoral. O seu chefe, Panagiótis Lafazánis, anuncia que um recurso acaba de ser depositado junto dos órgãos jurisdicionais competentes de modo que o cálculo dos resultados do voto possa ser refeito, no que respeita a certos distritos, essencialmente nos bairros populares de Atenas. É verdadeiro que 2,86% dos sufrágios (moderadamente) expressos, não é 3%, o limiar como se diz aqui, permitindo a uma formação política estar representada no Parlamento.

Salvo que o essencial está algures ( mas não no terreno dos tribunais). No seu texto publicado terça-feira 22 de Setembro, Dimítris Belandís, antigo do Comité central SYRIZA e candidato sobre a lista da União popular, não mastiga as suas palavras:

“estou desolado em dizê-lo assim, mas a nossa derrota política é concreta, e é profunda. Este SYRIZA do memorando, finalmente conseguiu ter êxito em desviar o grande movimento da recusa e do protesto popular numa ampla corrente de consensos empresariais… da submissão, e com uma falsa esperança além do mais. SYRIZA assim conduziu a sociedade da derrota à desintegração, e a nós, para o nada. É um mau serviço feito às capacidades supostas resistentes dos movimentos das gentes menos favorecidas no próximo período, e de passagem, estes factos novos discordam dos argumentos daqueles que consideram que SYRIZA já não está mais legitimado no plano político”.

 

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Étrangetés. Athènes, septembre 2015

“Este 35% (sufrágios expressos ) não está manipulado, ou não simplesmente nem somente manipulado, mas exprime esta verdadeira disposição do povo à não resistência, como… à concessão da gestão somente a SYRIZA, esperando que os próximos choques serão, se possível, ligeiramente atenuados. Este resultado, exprime por último, o grau zero da confiança e da credibilidade que os cidadãos atribuíram ao nosso plano alternativo”.

“Porque a materialidade concreta, é não somente o dinheiro, mas também, a confiança política atribuída a um projecto, confiança provada ou então ausente. A realidade da aposta posta em prática com o memorando III não será suficiente, por si-mesma, para inverter radicalmente esta imagem, sem a intervenção subjectiva e conseguida da nossa parte não se alterará, não haverá mais automatismos nem facilidades… E de resto, a nossa pobre gestão da ruptura, certamente justificada quanto à linha do euro, não se explica somente pelo calendário imposto como dispúnhamos efectivamente apenas de 25 dias apenas para agir. Partimos certamente demasiado atrasados, não explicámos em detalhe o nosso programa, e ainda menos o seu conteúdo, nós não explorámos todos os parâmetros da estratificação social implícita, quanto à ruptura com a zona euro. O nosso plano técnico e político foi por último muito tímido e permaneceu mesmo quase secreto durante vários meses (do tempo onde fazíamos parte de SYRIZA), isto, porque éramos muito tímidos e… burocratas”.

“Assim, a única linha correcta, a da ruptura com o euro, expressa com hesitação e com este “se necessário” – conduziu-nos em linha recta para fora de qualquer representação parlamentar. É então uma derrota política que se inscreve no longo prazo. Quem negue esta realidade como para se defender psicologicamente, ficará extremamente incapaz de a ultrapassar no futuro e isso de maneira politicamente eficaz. Além disso, o sucesso relativo do Partido comunista deve também ser tomado em consideração. E é então insignificante o facto que o PC, apesar da sua atitude prática pouco radical, fala claramente da actualidade do socialismo, ainda que, esta última seja apresentada como o Apocalipse? Então teríamos integrado a tal ponto, a cultura política ambígua e moderada de SYRIZA?”

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Terraço do Hotel Hilton no dia da ditadura dos Coronéis, 21 Abril de 1967. Exposição, Atenas, Setembro de 2015

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Abril 1968. Visita do ministro dos Coronéis Holevas a Mykonos. Exposição.Atenas, Setembro de 2015

“Duas soluções são-nos agora possíveis. Seja criar as condições propícias a um processo de refundação, ao mesmo tempo político e ideológico bem claros, para além, e ultrapassando os mecanismos de aparelho, herdados das nossas pertenças aos partidos existentes. Ou se não, (de) considerar que o ciclo político inaugurado em 2004 (SYRIZA encontra as suas origens numa coligação de partidos e movimentos de esquerda e extrema esquerda fundada em 2004) está já fechado. Da resposta a este penoso e difícil dilema, dependerá, (se) a Unidade popular tem ainda um presente… ou um futuro. Estou desolado por estas palavras amargas, mas a ilusão deve decididamente parar aqui mesmo. ”.

Grandes e então pequenas ilusões… antiquadas. Já tive esta mesma discussão há três semanas atrás com Dimítris Belandís, mas isto era antes das eleições. Mais do que sobre as ilusões de esquerda e sem estar a contestar a sua análise (a menos que se adopte outro prisma), insisti sobretudo na obsolescência do homem, tema central da filosofia de Günther Anders, sobre este como e porque é que tudo, actualmente, se encontra atingido de uma caducidade essencial. Inegavelmente tudo: o trabalho assim como os produtos, as máquinas como as ideologias, a esfera privada como a seriedade, a animosidade mesmo…

Günther Anders, primo de Walter Benjamin, foi um grande pensador e ensaísta austríaco judeu de origem alemã (1902-1992). Ele é sobretudo conhecido por ter criticado a modernidade técnica, nomeadamente para com o desenvolvimento da indústria nuclear. Anders interessou-se pelos desafios técnicos e éticos contemporâneos. O seu tema principal foi a destruição da humanidade. Sabe-se que a radicalidade das suas críticas a todos os quadrantes da actual modernidade junta este conjunto de pontos de vista para assim elaborar uma verdadeira filosofia da técnica. O seu fio condutor é que nós não dominamos mais nada: o mundo auto-suficiente da técnica decide doravante de todas as facetas do que nos resta de existência. Günther Anders tinha desde muito cedo posto em evidência esta des-realização do mundo, a desumanização do quotidiano, a mercantilização geral. É exactamente onde estamos agora.

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Quartos individuais, habitados por pobres do século passado . Atenas, Setembro 2015

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Pequeno restaurante. Atenas, Setembro de 2015

É, do meu ponto de vista, esta dimensão (designadamente) que as esquerdas (elas não são as únicas ), deveriam bem querer integrar nas suas análises e acções sobre o terreno. As elites financiocratas parecem já o terem feito, em detrimento naturalmente de todos os outros humanos e também do planeta. Contudo, e muito provavelmente, estas mesmas elites, atreladas como elas estão atrás dos seus … cavalos de corrida e de outros autómatos algorítmicos bolsistas, também não (se) propõem uma grande visão do futuro, excepto esta restauração (em sucedâneos) doravante globalizada do século XIX… mais o numérico e o sempre eterno numerário!

A liberdade ou a morte, o… numérico e a morte. A Grécia já não possui agora nem o espírito nem o tempo para meditar. Sem dúvida, o tempo do 21 de Abril de 1967, dia de uma outra ditadura, a dos Coronéis, os utentes do terraço do hotel Hilton de Atenas ou,… talvez melhor, os utentes das salas da Polícia militar onde eram conduzidos os cidadãos democratas para ser interrogados, ou seja torturados, a reflexão era o melhor possível. Provavelmente.

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Livro aberto . Atenas, Setembro 2015

O inútil reina, o insultante assiste-o. Um milhão e meio de eleitores… foram perdidos, entre as eleições legislativas de 2009 e as de Setembro de 2015 (- 25%). E apenas formado, o novo governo Tsipriota conheceu a sua primeira demissão na quinta-feira 24 de Setembro, a de Dimítris Kamménos (secretário de Estado para as Infra-estruturas, procedente do partido ANEL dos gregos independentes, homónimo do seu chefe Panos Kamménos), posto em causa por derrapagens anti-semitas e homófobas sobre as suas contas das redes ditas sociais e forçosamente numéricas. Defende-se, “não sou o autor destes tweets, mais de uma quinzena de colaboradores ocupavam-se deles e, além disso, alguns hackers terão invadido as minhas comunicações ”… (meios de comunicação social gregos de 23 de Setembro).

Do seu pobre tempo, os nazis pretenderam que não foram os autores do Shoah, “é a mecânica então anónima das ordens que foi a única responsável”. O mundo auto-suficiente da técnica decide doravante de todas as facetas do que subsiste da nossa existência, mais os colaboradores e os hackers… pobres Kamménos!

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17 anos, suicidio. Atenas, Setembro 2015

Nos bares e nos cafés a Grécia remói os seus males e engole a sua saliva. Em volta da lua, forçosamente nunca nova, os fenómenos e os meteoros anunciam um tempo incerto.

Novo governo, recondução da equipa dos precedentes Tsipriotas, os… desaparecidos da Plataforma de esquerda a menos. Trovoadas violentas e abertas contudo frequentes.

Longe deste o mundo auto-suficiente da técnica, os nossos animais adéspotas (animais sem dono) disputam-se… ainda muito terra-a-terra. Velho mundo.

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Os nossos animais adéspotas (sem dono) disputam-se. Atenas, Setembro 2015

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Maria Cardigos
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mecânica Anónima I

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