Hoje, em Portugal, decorreram eleições para o presidente da república. Venceu, com maioria absoluta, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma vitória esperada, dado o candidato ser uma figura muito conhecida por todo o país, e gozar de simpatias em sectores muito diversos, mesmo em sectores que não são do seu quadrante político. Não vamos insistir no facto de o novo presidente da república portuguesa ter um currículo ímpar como comentador televisivo. Diremos que apenas que isso sem dúvida pesou a favor dele na campanha eleitoral, mas que no exercício do seu mandato (ele quererá com certeza repeti-lo) poderá ter influência em sentido contrário.
As ideias de Marcelo Rebelo de Sousa sobre assuntos delicados, com grande importância na vida das pessoas e do país, são conhecidas. Durante a campanha eleitoral isso ficou perfeitamente claro para quem esteve minimamente atento, mesmo que anteriormente não tivesse observado a sua carreira. Desde a despenalização do aborto à ligação à NATO, as suas ideias situam-se à direita do espectro político, melhor dito, muito à direita do espectro político. Ninguém vê o novo presidente a bater o pé às instituições europeias, a querer uma reestruturação bancária, nem a apoiar abertamente a promoção de medidas fortes contra a corrupção. Não por o acharem pouco patriota ou propenso a ceder a situações corruptivas. Simplesmente, ele nunca mostrou inclinação a enfrentar problemas como estes. Num país como Portugal que, neste momento (estamos a pensar no curto prazo, claro), não tem a temer grandes ameaças externas, como, por exemplo, a Grécia, invadida por centenas de milhar de refugiados dos conflitos que arrasam países seus vizinhos, ou os países da Europa de Leste, sujeitos ao eterno conflito leste-oeste, as questões (continuamos no curto e médio prazo) levantam-se sobretudo à volta da vida económica. Aqui as maiores ameaças levantam-se a partir das instituições europeias, e do sistema financeiro internacional, que controla aquelas de maneira bastante clara. O bem-estar dos portugueses assenta muito na capacidade de resistência a estas ameaças. Não será Marcelo Rebelo de Sousa o presidente que vai respaldar um governo que, eventualmente, queira resistir a estas ameaças.
A eleição que hoje decorreu levanta várias outras questões, que não as resultantes da maneira de ser do novo presidente. Desde a enorme abstenção, agravada, é certo, pela má manutenção dos cadernos eleitorais, até a sucessos e fracassos de alguns projectos (importantes, sem dúvida) que se mostraram claramente nestas eleições, há assuntos que merecem a maior atenção. É preciso olhá-los e acompanhá-los constantemente.