Um ataque, um atentado ou um golpe de estado pós-moderno – por Michel Lhomme

Falareconomia1

Selecção, tradução e Notas de Júlio Marques Mota

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Um ataque, um atentado ou um golpe de estado pós-moderno


Michel Lhomme, Revista Metamag  

Notas de Júlio Marques Mota


Os meios de comunicação social franceses estão desorientados ao ponto de passarem directamente nos seus títulos a palavra attack em inglês, palavra que significa “atentado” face à pouca amigo termo ataque “attaque” em francês. Utilizar o termo francês “attaque” é deliberadamente optar pelo vocabulário de guerra mas de que guerra? Charles Martel no tempo das orações de ruas em Paris? A guerra de civilização? Enquanto que os Identitários se manifestavam nas ruas com bandeirolas que reclamam a expulsão dos muçulmanos e que se fazem gozar pelos “humanistas pró-imigrantes” sob a expressão insultuosa de “fora com os fachos” , o Primeiro ministro Manuel Valls afirmou que era necessário “expulsar todos os imãs radicalizados” e “ privar de nacionalidade os que escarnecessem do que é a alma francesa”. Resultado destas corridas: ninguém reclama a demissão do governo nem lhe levantam questões sobre a sua política estrangeira, a única verdadeira atitude política razoável se houve que optar pelo que é razoável.

Agora, a relação dos atentados de Paris está perfeitamente estabelecida como estando ligada à guerra no Médio Oriente e com o compromisso marcial da França, com os seus aliados, numa guerra humanitária, não declarada, ilegítima, não debatida na frente da representação nacional contra “terroristas” orientados e seleccionados, guerra cujo Laurent Fabius, o Ministro dos Negócios estrangeiros não cessou de dizer que o objectivo era apenas antes de mais nada o da demissão de Bachar-el-Assad. Nesta guerra, a França trabalha lado a lado com Israel, a Arábia Saudita, o seu grande aliado do momento, o Catar, a Turquia, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, é o que se chama de coligação ocidental. Esta coligação ocidental, ainda hoje, é anti-russa e apoia secretamente os grupos terroristas filiados na Al-Qaïda na Síria e o Iraque, entre os quais a Frente al-Nosra e o grupo Estado islâmico

 O governo deixa, portanto, a opinião trabalhar, fornece os fertilizantes a todo este terreno fértil na França de hoje, anti-muçulmano e anti-subúrbio, um terreno fértil que ele próprio instiga e fabrica. Na verdade, o governo não está paralisado, ele simplesmente incita os franceses a virarem-se uns contra os outros. Faz já alguns anos que indirectamente lhes serviu a sopa ao levar a que franceses se pusessem contra franceses através de tácticas eleitorais suicidas (a política dita dos triangulares, a recusa de representação proporcional) revigorada por uma estratégia de caos pré-eleitoral (a diabolização da FN).

Sabe-se também que o governo tinha sido posto ao corrente de se estar correr um risco elevado de atentados no princípio de Outubro uma vez que disso o Paris Match se tinha feito eco na sua edição de 2 de Outubro de 20151. Pouco antes da meia-noite (hora local) a 13 de Novembro, o presidente anunciou medidas draconianas contra uma rede terrorista activa à escala do país. É evidente que François Hollande não terá tomado esta decisão espontaneamente na noite do 13 de Novembro mas que esta decisão, a decretar o estado de emergência, tinha sido encarada antes mesmo do atentado em relação com um cenário de ataque terrorista de envergadura potencial. O discurso também estava pronto e faz lembrar nalguns dos seus aspectos os discursos de George W. Bush do 11 de Setembro.

Desde o início da revolta síria em Março de 2011, a NATO e o alto-comando turco começaram a recrutar mercenários do Exército Islâmico e da frente al-Nosra. De acordo com fontes de informação israelitas tratava-se de uma campanha para mobilizar milhares de voluntários muçulmanos nos países do Médio Oriente e no mundo muçulmano para combater ao lado dos rebeldes sírios. O exército turco alojaria2 estes voluntários, treiná-los-ia e asseguraria a sua passagem para a Síria.

Nós revelamos num artigo em 2011 o nome da operação israelita: : “ninhos de vespões”. Esta manobra tinha vários objectivos: o controlo dos poços de petróleo iraquianos e o saque ao ouro do país, um desvio ofensivo para a Síria e uma armadilha para os muçulmanos radicais da Europa que seriam atraídos ao vespeiro do califado para seguidamente os “eliminarem” de uma maneira ou de outra. Escrevíamos isso em 2011. É apenas mais um segredo de polichinelo: havia forças especiais e agentes secretos do Ocidente nas fileiras do grupo Estado islâmico. Para nos situarmos apenas em França e dado que por vezes nos exigem as nossas fontes, um artigo de Washington Postd datado de 2011 intitulado a de França France sent arms to Libyan rebels3 confirma o papel do governo francês no apoio concedido ao Grupo islâmico que combate na Líbia (LIFG), filiado na Al-Qaïda.

 Actualmente, ao mesmo tempo que a Rússia visa os bastiões de Daesh na Síria, a aliança militar ocidental continua ainda a apoiar os terroristas islamitas anti-Assad . Esta contradição deve ser colocada sobre o plano político e é aqui que a colocamos: o que é “exactamente a guerra mundial contra o terrorismo”? Excitar a islamofobia ou levar a opinião pública a defender o paradigma falso da guerra de civilizações , uma teoria tão criminosa quanto o sionismo e que serve realmente para esconder outros interesses em jogo entre os quais a segurança de Israel.

As perguntas que levantamos são por conseguinte as seguintes:

Apesar do reforço do plano Vigipirate, apesar das escutas do NSA, como é que acontece que o Estado francês, os seus serviços secretos não puderam evitar desta vez estes atentados? A data, a coordenação dos ataques supõe um plano militar maduramente pensado ? Quem são estes comanditários muito ao corrente dos factos do calendário internacional francês (o COP 21) e do seu calendário eleitoral? Estes comanditários desempenham um duplo jogo pretendendo querer combater os terroristas ao mesmo tempo que os apoiam, através de “canais secretos”, nomeadamente através dos países vassalos e dos credores das nossas finanças como a Arábia Saudita e o Catar

Em segundo lugar, se se declara o estado de emergência, é que as leis seriam – supõe-se – demasiado laxistas na França e encara-se por conseguinte que outras leis (fala-se já em retirar a nacionalidade) virão completar na França a recente lei de segurança militar no entanto bem vigorosa. Mas então estas leis são adaptadas para combater o terrorismo ou será que servem realmente outras interesses, os interesses na realidade da oligarquia política e financeira que se tratará de defender aquando da batalha final com a lógica da Euro-Àsia ?

Tudo o que se passou na Líbia, no Iraque, na Síria obedece à uma política claramente estabelecida e conceptualizada nos meios da Defesa: é a política “do caos controlado” (projecto de balkanização do Médio Oriente, projecto da partição da Ucrânia e do desmantelamento da Jugoslávia com o enclave kosovar, desmantelamento dos estados africanos como a Nigéria ou a República Centro Africana por guerras civis, suspensão dos direitos democráticos por atentados ou a divisão dos estados em etnias religiosas, em conflitos raciais que os enfraquecem radicalmente). A França entrou neste cenário. É o caos controlado do golpe de Estado

Isto não é pois nem um “ attack” à inglesa nem um atentado de civilização mas sim um golpe de Estado postmoderno, é disto que se trata. Desde Ben Laden e os Talibans, o Ocidente inventou o terrorismo islâmico globalizado e instrumentaliza-o em função dos seus objectivos geoestratégicos. No caso da França, vale melhor dominar ruínas do que não dominar o todo.

Michel Lhomme, Revista Metamag,   UNE” ATTACK”, UN ATTENTAT … OU UN COUP D’ÉTAT POST-MODERNE ?. Texto disponível em : http://metamag.fr/mobile-3377.html

1 Veja-se o que nos diz Paris Match reproduzindo uma entrevista com o principal responsável pela luta anti-terrorismo: Pendant dix ans, il a animé le Pôle judiciaire antiterroriste. Forcé de quitter ses fonctions en pleine tempête pour devenir vice-Président du tribunal de grande instance de Lille, Marc Trévidic nous avait longuement parlé, en septembre dernier. Son cri d’alarme a malheureusement trouvé un écho vendredi soir avec une série d’attentats sans précédent à Paris. Voici la version intégrale de cet entretien terriblement prémonitoire.

Paris Match. Pouvez-vous estimer aujourd’hui le niveau de risque que courent les Français ?

Marc Trévidic. La menace est à un niveau maximal, jamais atteint jusqu’alors. D’abord, nous sommes devenus pour l’Etat islamique [EI] l’ennemi numéro un. La France est la cible principale d’une armée de terroristes aux moyens illimités. Ensuite, il est clair que nous sommes particulièrement vulnérables du fait de notre position géographique, de la facilité d’entrer sur notre territoire pour tous les djihadistes d’origine européenne, ­Français ou non, et du fait de la volonté clairement et sans cesse exprimée par les hommes de l’EI de nous frapper. Et puis, il faut le dire : devant l’ampleur de la menace et la diversité des formes qu’elle peut prendre, notre dispositif de lutte antiterroriste est devenu perméable, faillible, et n’a plus l’efficacité qu’il avait auparavant. Enfin, j’ai acquis la conviction que les hommes de Daech [acronyme de l’Etat islamique] ont l’ambition et les moyens de nous atteindre beaucoup plus durement en organisant des actions d’ampleur, incomparables à celles menées jusqu’ici. Je le dis en tant que technicien : les jours les plus sombres sont devant nous. La vraie guerre que l’EI entend porter sur notre sol n’a pas encore commencé.

E a entrevista continua. Disponível no sitio Paris Match : http://www.parismatch.com/Actu/Societe/La-France-est-l-ennemi-numero-un-de-l-Etat-islamique-837513

2 Num artigo publicado por Michel Chossudovsky, Global Research, intitulado :NATO AND TURKEY SUPPORT ARMED REBELS IN SYRIA. CAMPAIGN TO RECRUIT MUSLIM “FREEDOM FIGHTERS”, pode-se ler:

NATO headquarters in Brussels and the Turkish high command are meanwhile drawing up plans for their first military step in Syria, which is to arm the rebels with weapons for combating the tanks and helicopters spearheading the Assad regime’s crackdown on dissent. Instead of repeating the Libyan model of air strikes, NATO strategists are thinking more in terms of pouring large quantities of anti-tank and anti-air rockets, mortars and heavy machine guns into the protest centers for beating back the government armored forces. (DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank weapons, August 14, 2011)

3 Disponível em : https://www.washingtonpost.com/world/france-sent-arms-to-libyan-rebels/2011/06/29/AGcBxkqH_story.html. Neste artigo pode-se ler:

French officials announced Wednesday that they had armed rebels in Libya, marking the first time a NATO country has said it was providing direct military aid to opponents of the government in a conflict that has lasted longer than many policymakers expected.

France dropped light armaments, including guns and rocket-propelled grenades, in the Nafusa Mountains in western Libya in early June to help rebel forces who were “in a very deteriorating situation” under threat from the Libyan military, a French military spokeswoman said.

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