EDITORIAL – Utopia não é o oposto de realismo

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Utopia não é o oposto de realismo. Num debate de há anos (no Fórum Social Mundial realizado na cidade brasileira de Porto Alegre) cujo tema central foi Quixote Hoje: Utopia e Política,  gerou-se um interessante  debate entre José Saramago e o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Participaram, entre outros, estes dois escritores e  Ignacio Ramonet, director do Le Monde Diplomatique.

Galeano disse «Quixote estava preso por dívidas, como nós na América Latina estamos». Para sugerir que um outro mundo está sendo gerado na barriga deste, contou a história de Vargas, um pintor analfabeto e talentosíssimo que conheceu na Venezuela. «Vivia num povoado contaminado, deformado pela exploração do petróleo[…] um lugar tão feio e fétido que ali o arco-íris era preto e branco e os abutres voavam de costas. Mesmo assim, ele pintava flores, árvores e aves enormes cujo colorido humilhava as paletas mais ricas.[…] Disse aos meus amigos que Vargas é um pintor realista, pois pinta a realidade que não existe, mas é aquela de que se necessita. O não-lugar (etimologia da palavra utopia),  pode ter lugar em olhos que ainda não veem esse lugar, mas adivinham a sua existência».

Para Saramago, «o único lugar que existe é o dia de  amanhã […] a nossa utopia é fazer alguma transformação já. Não há  tempo para gastar em discussões e movimentos de mobilização que resultarão em alguma melhoria na qualidade global de vida somente em 2043 ou, pior, daqui a 150 anos […]. Quem nos garante que no futuro as pessoas estarão interessadas naquilo em que agora  nós estamos?». E sugeriu menos retórica e uma revisão rigorosa nos conceitos da esquerda. “Para os cinco mil milhões de pessoas que vivem na miséria, utopia é nada”..

Ramonet, jornalista e semiólogo francês, pôs em causa a loucura de Quixote. «Aqui há quixotes e quixotas, mas não estamos loucos[…]. Quixote não era um fanático da sociedade ideal, e o seu desajustamento com a vida real consistia na disposição de não suportar injustiças. Pensava ser possível um mundo diferente, mas não tinha programa, nem manual de instruções.  como se encontram hoje, quatro séculos depois, milhares de altermundistas, os “batalhões de quixotes”.

Galeano destacou na personagem imortal da literatura um «talento persistente para o ridículo e a derrota» e Saramago sugeriu a tese de que Quixote usou um truque:« declarou ser louco, sem o ser […] No fundo ele era um pragmático» […] As palavras são umas desgraçadas, fazemos delas o que  queremos. Veja a política, por exemplo. Eu já disse que a política é a arte de não dizer a verdade, ela falseia, deturpa, condiciona e manipula».

Disse algo que temos defendido à saciedade – «a democracia representativa é uma farsa, pois nela, a escolha possível, por meio do voto, é muito limitada – retirar do poder alguém de que não se gosta e colocar em seu lugar alguém de que talvez se vá gostar». Nós acrescentamos que o sistema entre nós, retira do poder alguém que já não podemos suportar por alguém que começamos a demolir logo após a tomada de posse. A democracia representativa está no inverso da utopia. É o sistema distópico que nos leva a lutar por causas que nada têm a ver com o futuro, por salários que já eram exíguos há uma década. Como se diz em linguagem futebolística, «corremos atrás do prejuízo».

Não significa que não devamos lutar por pequenas conquistas. Desde que isso não nos impeça de sonhar com um mundo futuro em que prevaleça a justiça. Uma terra sem amos.

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