Tsipras em Davos- por Hadrien Desuin

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Tsipras em Davos

Hadrien Desuin, Revista Causeur

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“Muita água já correu por debaixo das pontes ” congratulou-se Alexis Tsipras na frente de uma plateia cheia de jornalistas e de dirigentes empresariais em Davos. Não se poderia ser mais claro, não se poderia dizer melhor. Um ano depois do seu jogo de póquer referendário, um ano depois do chefe de Syriza ter dito “a Troika morreu”, o Primeiro ministro grego passou quase despercebido no fórum de Davos.

A Grécia rebelde que fazia tremer o sistema monetário europeu e o crescimento mundial vergou-se. Resplandecente de alegria o líder que acenara aos jovens socialistas uma próxima grande noite europeia, entrou na linha da Europa e de Bruxelas. No ambiente de luxo da estação de turismo suíça, Alexis Tsipras pôde calmamente conversar com os grandes banqueiros e os grandes bancos mundiais. O tempo em que o Primeiro-ministro grego fazia figura de empestar a economia mundial não passa agora de uma má lembrança.

Christine Lagarde, directora do FMI, aproveitou para reatar as suas relações com o parceiro eleitoral de Jean-Luc Mélenchon e de Pierre Laurent. Depois da zanga do inverno passado, as coisas entraram na ordem: “éramos uma parte dos problemas, doravante queremos fazer partido da solução” resumiu Alexis Tsipras. Wolfgang Schaüble levou-o à letra e aproveitou a conferência comum para recordar os compromisso dos países como o seu. Porque apesar dos seus esforços, os gregos estão ainda muito longe dos seus objectivos em termos de défice público.

Em suma, Tsipras não estava perdido em Davos. Teve o prazer de reencontrar camaradas da Internacional socialista que ele já conhece e bem como o Comissário europeu Pierre Moscovici, o social-democrata alemão Sigmar Gabriel e seguramente Manuel Valls com quem trocou um caloroso aperto de mão. Pela primeira vez na França, um Primeiro-ministro foi ao World Economic Fórum com uma boa parte do seu governo. O primeiro Presidente da República a fazê-lo foi Nicolas Sarkozy em 2010 (este último de resto proferiu na altura um discurso quase altermundista). O socialista de Evry e o gaulista de Neuilly têm muitos pontos em comum, com a diferença que Manuel Valls nunca terá criticado o capitalismo mundial. Pelo contrário defendeu a sua linha social-liberal. Mas contrariamente a Tsipras, Manuel Valls nunca reivindicou a luta das classes. Já em 2015, o símbolo de Davos tinha feito sorrir os comentadores que tinham ainda na memória o discurso de Bourget: “O meu inimigo é o mundo da finança!” Noutros termos, o inimigo de François Hollande era Davos. E três anos depois estava em Davos. Hoje, mais ninguém liga a isso. Hoje, mais ninguém se choca com a participação de um Primeiro ministro. Ou quase ninguém…

Enquanto Tsipras e Valls discursavam sobre o estrado no meio da nata mundial dos negócios, vários milhares de pessoas desfilavam uma vez mais nas ruas de Atenas para protestar contra a política de austeridade praticada por Syriza. Mas não é apenas na Grécia que agricultores, pescadores e sindicalistas do sector público se manifestam. Na Bretanha também a contestação prossegue. E as entrevistas de Emmanuel Macron, convidado vedeta das cadeias de televisão americanas em Davos, não irão ajudar Stéphane Le Foll a apagar o incêndio.

 

Hadrien Desuin, Revista Causeur, Tsipras à Davos. Texto disponível em: http://www.causeur.fr/tsipras-valls-davos-36366.html

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