CARTA DO RIO 89 por Rachel Gutiérrez

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      Gramado, a cidade mágica com pouco mais de 35.000 habitantes, situa-se a 830 metros acima do nível do mar, na chamada Região das Hortênsias da Serra Gaúcha. É quase inacreditável: telhados alpinos ou bávaros sobre todas as casas e edifícios que jamais ultrapassam os 5 andares; esquinas sem semáforos, onde os carros desaceleram em respeito aos pedestres; em quase todas as calçadas, bancos de madeira sobre tapetes de relva e cercados por flores. Num deles, vimos senhoras carregadas de compras, descansando e literalmente “tirando a sesta depois do almoço”. Não há assaltos! Não há predadores de parques ou de monumentos. Em todo lugar reinam a ordem e a limpeza, tudo é beleza, luxe, calme et volupté, como no verso de Baudelaire.

      E há flores por toda parte. Os jardins e os canteiros das ruas são planejados e monitorados de tal modo que quando as hortênsias secam e aparentemente morrem, as azaleias, que foram plantadas no meio delas, logo florescem e as substituem, permanecendo floridas até o próximo renascer das hortênsias que, por sua vez, virão substituí-las num revezamento perfeito.

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      Originalmente lugar de repouso de tropeiros descendentes de açorianos, a partir da segunda década do século XX, Gramado foi povoada por descendentes de alemães, de italianos e, em menor número, de portugueses. E a única coisa que distinguia a construção das primitivas casas de madeira era o sentido das tábuas, que as alemãs usavam no sentido horizontal, e as italianas, no vertical. As duas casas mais antigas, tombadas pelo patrimônio histórico, datam de 1932 e de 1936.  E o grande responsável pelo planejamento da cidade foi um alemão, Leopold Rosenfeld, cujo sobrenome já parecia destiná-lo à criação de jardins: Rosen-feld – Campo de Rosas!

        Cercada por bosques de araucárias, eucaliptos, ciprestes, pinheiros europeus e também por uma vegetação abundante da mata atlântica que mantém puríssimo seu ar de montanha, a pequena cidade possui apenas uma linha de ônibus circular que a percorre de hora em hora. E uma de suas mais belas atrações é o Lago Negro, idealizado e criado artificialmente por Leopold Rosenfeld, que importou álamos, ciprestes e pinheiros alemães da Floresta Negra para ornamentar suas orlas. E para conseguir o escuro das águas, Rosenfeld forrou o leito do lago com musgo que, em contato com a água das chuvas escurece cada vez mais.

      Projetada para o turismo, Gramado só foi elevada à categoria de cidade em 1954 e hoje é responsável por 85% da economia da região serrana. Vinhedos fornecem bons vinhos e as fábricas de chocolate são famosas, como famosas são as festas natalinas, que se prolongam até meados de janeiro. O Festival de Cinema, realizado anualmente desde 1973, acontece no Palácio dos Festivais. Promovem-se também feiras de negócios, convenções, festivais de moda e publicidade.

       Há museus para todos os gostos e interesses: o de Cera, o Mini Mundo, que reproduz castelos e aldeias europeias, o das Pedras, o das Máquinas a Vapor, verdadeira aula de história sobre os primórdios da era industrial, o dos Super Carros, enfim, um paraíso principalmente para crianças e adolescentes.

      E o que dizer da gastronomia? Além das tradicionais comidas alemã e italiana, é possível degustar a francesa com suas maravilhosas fondues, os churrascos, o famoso café colonial etc., etc.

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      Toda a beleza e todo o amor às flores e à natureza que encontrei em Gramado me fizeram lembrar de uma senhora alemã, que conheci em Rivera há muitos anos. Como nós, a Sra. Haassis gostava muito de viajar e o fez até depois de ter completado 90 anos. Morava no lado uruguaio da nossa fronteira, numa casa que mandara construir no centro de um terreno em declive, que ela mesma se encarregou de ajardinar, acompanhando respeitosamente o sentido de um córrego que começava no alto. O arquiteto que desenhou a casa precisou recuá-la alguns metros para, numa estranha curva, respeitar uma frondosa árvore que a velha dama o proibira de cortar. Na parte mais alta do terreno, ela fez ainda construir, se bem me recordo em madeira e bambus, uma casinha em estilo japonês, uma espécie de saleta sobre pilotis, com o fim exclusivo de ali tomar o chá da tarde enquanto apreciava o pôr do sol. Acho que foi a primeira vez que estive em contato com alguém talvez extravagante, mas ao mesmo tempo tão próxima do respeito à natureza e da sustentabilidade que os ecologistas hoje defendem.

      E como uma coisa remete sempre a outra, lembro agora Hildegard de Bingen (1098-1179), a genial compositora e mística do século XII que, às margens do Reno, escreveu uma espécie de enciclopédia para descrever as propriedades dos elementos naturais, o curso dos rios e dos lagos, o ar e a terra, as pedras preciosas, as plantas os animais e os minerais, tudo na perspectiva de seu uso medicinal. E no final do século XX, algumas clínicas europeias puseram em prática os conhecimentos da monja alemã.

       Voltemos a Gramado. Pareceu-me que a pequena joia gaúcha é tradicional e predominantemente alemã em seus costumes e em sua morfologia. Há ali alguma coisa de contos de fadas e, por sua ênfase no turismo, é preciso dizer, um quê de Disneylândia menos interessante.

       De qualquer maneira, se cada prefeito do Brasil procurasse aprender um pouco com a gestão exemplar da bela cidade da Região das Hortênsias,  acredito que renovaríamos nossas esperanças de termos algum dia cidades mais limpas, sustentáveis  e  felizes.

1 Comment

  1. Adoro Hortênsias, ou novelos ou Hidrângeas, como por cá lhes chamam. No meu jardim, a minha mãe sempre as cultivou, brancas, azuis, cor de ferrugem… habituei-me a vê-las diariamente. O termo novelos usa-se mais na Madeira onde também há muitas, e nos Açores onde é a terra das hidrângeas, bordejando caminhos, estando presentes em todo o lado.
    Só por isso, já Gramado seria uma terra linda e bem arranjada. Mas por tudo o que nos conta, deve ser mesmo, como o diz, uma terra mágica, onde apetece viver.

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