PRECISAMOS DE UMA EDUCAÇÃO PARA OS MÉDIA? por clara castilho

O projecto Media e Literacia surgiu juntamente com o mestrado (2004) em Ciências da Comunicação realizado por Raquel Pacheco na Universidade Nova de Lisboa. A ideia inicial foi dar um sentido afirmativo e transformador aos fenómenos que relacionavam os jovens à violência, à pobreza e à miséria, utilizando a metodologia da pesquisa participativa e etnográfica. Este trabalho de campo durou seis meses e no final os jovens produziram e realizaram um filme todo feito por eles. Na altura a educação para os media era muito pouco divulgada e trabalhada em Portugal e não havia quase nenhuma produção deste tipo: dar voz aos jovens considerados “problemáticos” pelo sistema e desenvolver com estes jovens uma relação de educação participativa e possibilitar que fossem autores, produtores e realizadores de um filme cujo tema foi escolhido e desenvolvido por eles.

media e literacia blog

Desta experiência surgiu a ideia de criar a Rede Media e Literacia, que juntou-se a Mapa das Ideias e juntas realizaram trabalhos voltados para a educação para, com e sobre os media.

Atualmente a Rede trabalha para garantir uma educação sobre os media através de: Consciencialização e capacitação de pessoas, organizações e instituições sobre os media, riscos, visão crítica, prevenção, modos criativos e seguros de utilização; Formações; Projetos; Workshops; Palestras; Parcerias; Participação em Congressos e Eventos em geral; Consultorias; Mostras; Produção de conteúdos

Os media tem um enorme poder, ao mesmo tempo que o tememos, o execramos e o adoramos. Estudamos os media pela necessidade de compreender quão poderosos eles são em nossa vida quotidiana, na estruturação da experiência, tanto sobre a superfície como nas profundezas. E queremos utilizar este poder para o bem e não para o mal. O surgimento e o constante avanço das novas tecnologias por um lado deram ainda mais poder aos media, mas por outro possibilitou que crianças, jovens, adultos e idosos tivessem acesso a muito mais informações, tecnologias e consequentemente produtos tecnológicos. Possibilitou que todo o Planeta Terra estivesse conectado em questões de segundos.

Hoje em dia os media que chegam a mais pessoas estão concentrados nas mãos de poucos grupos, o que permite que esses actores tenham mais poder para fortalecerem seus valores e pontos de vista.

Mas o surgimento e a emergência de novos media, de certa forma, abala as estruturas de poder historicamente estabelecidas, pois qualquer pessoa não profissional pode ser produtora de conteúdos e atingir quaisquer e grandes audiências. O protagonismo já não está apenas do lado dos que possuem o poder, já que, através desta lógica, anónimos podem se tornar produtores de conteúdos mediáticos. Mas é preciso que os cidadãos sejam educados para aprender a exercer este poder. Neste cenário, a escola tem um papel importante e a área que chamamos de educação para os media pode oferecer as bases para um trabalho crítico e inovador com, sobre e através dos media.

Além de reconhecermos o enorme poder dos media, também podemos dizer que estes organizam, ou nos ajudam a organizar, a nossa ligação diária com o mundo. A agenda, a hierarquização das informações, selecionadas pelos media que exercem uma enorme influência sobre os juízos que fazemos relativamente a cada acontecimento por eles anunciado/retratado. Queiramos ou não, estruturamos nossa relação com o mundo em função das informações fornecidas pelos media. Politicamente, os media podem ser trabalhados em função dos interesses das classes dominantes (grandes corporações, políticas e políticos etc.). Estas representações do mundo nos levam a uma relação, até ao momento desconhecida, que se mistura com a relação que mantemos diariamente com o outro.

A educação para os media vem trabalhar exactamente esta relação entre os media (todos eles, ou apenas um media específico), e as pessoas independente da idade, classe social, crença ou género.

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