ATTENÇÃO! (in ULTIMATUM), de ÁLVARO DE CAMPOS

Imagem1

OBRIGADO AO PROJECTO GUTENBERG

pg-logo-002

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at http://www.gutenberg.org

 

cover - Ultimatum, de Álvaro de Campos

 

Álvaro de Campos, por Cristiano Sardinha. Obrigado à Wikipedia
Álvaro de Campos, por Cristiano Sardinha.
Obrigado à Wikipedia

ULTIMATUM

DE

Alvaro de Campos

SENSACIONISTA
(Separata do PORTUGAL FUTURISTA)
Editor:
Fernando Pessoa
1917

Tipografia P. MONTEIRO
R. do Mundo, 57 — LISBOA
Preço:
2 centavos

ATTENÇÃO!

Proclamo, em primeiro logar,

A Lei de Malthus da Sensibilidade

Os estimulos da sensibilidade augmentam em progressão geometrica; a propria sensibilidade apenas em progresão arithmetica.

Comprehende-se a importancia d’esta lei. A sensibilidade — tomada aqui no mais amplo dos seus sentidos possiveis — é a fonte de toda a creação civilizada. Mas essa creação só pode dar-se completamente quando essa sensibilidade esteja adaptada ao meio em que funcciona; na proporção da adaptação da sensibilidade ao meio está a grandeza e a fôrça da obra resultante.

Ora a sensibilidade, embora varie um pouco pela influencia insistente do meio actual, é, nas suas linhas geraes, constante, e determinada no mesmo individuo desde a sua nascença, funcção do temperamento que a hereditariedade lhe infixou. A sensibilidade, portanto, progride por gerações.

As creações da civilização, que constituem o “meio” da sensibilidade, são a cultura, o progresso scientifico, a alteração nas condições politicas (dando á expressão um sentido completo); ora estes — e sobretudo o progresso cultural e scientifico, uma vez começado — progridem não por obra de gerações, mas pela interacção e sobreposição da obra de individuos, e, embora lentamente a principio, breve progridem ao ponto de tomarem proporções em que, de geração a geração, centenas de alterações se dão nestes novos estimulos da sensibilidade, ao passo que a sensibilidade deu, ao mesmo tempo, só um avanço, que é o de uma geração, porque o pae não transmitte ao filho senão uma pequena parte das qualidades adquiridas.

Temos, pois, que a uma certa altura da civilização ha de haver uma desadaptação da sensibilidade ao meio, que consiste dos seus estimulos — uma fallencia portanto. Dá-se isso na nossa epocha, cuja incapacidade de crear grandes valores deriva dessa desadaptação.

A desadaptação não foi grande no primeiro periodo da nossa civilisação, da Renascença ao seculo XVIII, em que os estimulos da sensibilidade eram sobretudo de ordem cultural, porque esses estimulos, por sua propria natureza, eram de progresso lento, e attingiam a principio apenas as camadas superiores da sociedade. Accentuou-se a desadaptação no segundo periodo, que parte da Revolução para o seculo XIX, e em que os estimulos são já sobretudo politicos, onde a progressão é facilmente maior e o alcance do estimulo muito mais vasto. Cresceu a desadaptação vertiginosamente no periodo desde meados do seculo XIX á nossa epocha, em que o estimulo, sendo as creações da sciencia, produz já uma rapidez de desenvolvimento que deixa atraz os progressos da sensibilidade, e, nas applicações practicas da sciencia, attinge toda a sociedade. Assim se chega á enorme desproporção entre o termo presente da progressão geometrica dos estimulos da sensibilidade e o termo correspondente da progressão arithmetica da propria sensibilidade.

De ahi a desadaptação, a incapacidade creativa da nossa epocha. Temos, portanto, um dilemma: ou morte da civilização, ou adaptação artificial, visto que a natural, a instinctiva falliu.

Para que a civilização não morra, proclamo, portanto, em segundo logar,

A Necessidade da Adaptação Artificial

O que é a adaptação artificial?

É um acto de cirurgia sociologica. É a transformação violenta da sensibilidade de modo a tornar-se apta a acompanhar, pelo menos por algum tempo, a progressão dos seus estimulos.

A sensibilidade chegou a um estado morbido, porque se desadaptou. Não ha que pensar em cural-a. Não ha curas sociaes. Ha que pensar em operal-a para que ella possa continuar a viver. Isto é, temos que substituir a morbidez natural da desadaptação pela sanidade artificial feita pela intervenção cirurgica, embora envolva uma mutilação.

O que é que é preciso eliminar do psychismo contemporaneo?

Evidentemente que é aquillo que seja a acquisição fixa mais recente no espirito — isto é, aquella acquisição geral do espirito humano civilizado que seja anterior ao estabelecimento da nossa civilização, mas recentemente anterior; e isto por trez razões: (a) porque, por ser a mais recente das fixações psychicas, é a menos difficil de eliminar; (b) porque, visto que cada civilização se fórma por uma reacção contra a anterior, são os principios da anterior que são os mais antagonicos á actual e que mais impedem a sua adaptação ás condições especiaes que durante esta appareçam; (c) porque, sendo a acquisição fixa mais recente, a sua eliminação não ferirá tão fundo a sensibilidade geral como o faria a eliminação, ou a pretensão de eliminar, qualquer fundo deposito psychico.

Qual é a ultima acquisição fixa do espirito humano geral?

Deve ser composta de dogmas do christianismo, porque a Edade Media, vigencia plena d’aquelle systema religioso, precede immediatamente e duradouramente, a eclosão da nossa civilização, e os principios christãos são contradictados pelos firmes ensinamentos da sciencia moderna.

A adaptação artificial será portanto expontanente feita desde que se faça uma eliminação das acquisições fixas do espirito humano, que derivam da sua mergencia no christianismo.

Proclamo, por isso, em terceiro logar,

A intervenção cirurgica anti-christã

Resolve-se ella, como é de ver, na eliminação dos trez preconceitos, dogmas, ou attitudes, que o christianismo fez que se infiltrassem na propria substancia da psyche humana.

Explicação concreta:

1. — Abolição do dogma da personalidade — isto é, de que temos uma Personalidade “separada” das dos outros. É uma ficção theologica. A personalidade de cada um de nós é composta (como o sabe a psychologia moderna, sobretudo desde a maior attenção dada á sociologia) do cruzamento social com as “personalidades” dos outros, da immersão em correntes e direcções sociaes, e da fixação de vincos hereditarios, oriundos, em grande parte, de phenomenos de ordem collectiva. Isto é, no presente, no futuro, e no passado, somos parte dos outros, e elles parte de nós. Para o auto-sentimento christão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer “eu sou eu”; para a sciencia, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer “eu sou todos os outros”.

Devemos pois operar a alma, de modo a abril-a á consciencia da sua interpenetração com as almas alheias, obtendo assim uma approximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Synthese da Humanidade.

Resultados d’esta operação:

(a) Em politica: Abolição total do conceito de democracia, conforme a Revolução Franceza, pelo qual dois homens correm mais que um homem só, o que é falso, porque um homem que vale por dois é que corre mais que um homem só! Um mais um não são mais do que um, emquanto um e um não formam aquelle Um a que se chama Dois. — Substituição, portanto, á Democracia, da Dictadura do Completo, do Homem que seja, em si-proprio, o maior numero de Outros; que seja, portanto, A Maioria. Encontra-se assim o Grande Sentido da Democracia, contrario em absoluto ao da actual, que, aliás, nunca existiu.

(b) Em arte: Abolição total do conceito de que cada individuo tem o direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o individuo que sente por varios. Não confundir com “a expressão da Epocha”, que é buscada pelos individuos que nem sabem sentir por si-proprios. O que é preciso é o artista que sinta por um certo numero de Outros, todos differentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Synthese-Somma, e não uma Synthese-Subtracção dos outros de si, como a arte dos actuaes.

(c) Em philosophia: Abolição do conceito de verdade absoluta. Creação da Super-Philosophia. O philosopho passará a ser o interpretador de subjectivites entrecruzadas, sendo o maior philosopho o que maior numero de philosophias expontaneas alheias concentrar. Como tudo é subjectivo, cada opinião é verdadeira para cada homem: a maior verdade será a somma-synthese-interior do maior numero d’estas opiniões verdadeiras que se contradizem umas ás outras.

2. — Abolição do preconceito da individualidade. — É outra ficção theologica — a de que a alma de cada um é una e indivisivel. A sciencia ensina, ao contrario, que cada um de nós é um agrupamento de psychismos subsidiarios, uma synthese malfeita de almas cellulares. Para o auto-sentimento christão, o homem mais perfeito é o mais coherente comsigo proprio; para o homem de sciencia, o mais perfeito é o mais incoherente comsigo proprio,

Resultados:

a) Em politica: A abolição de toda a convicção que dure mais que um estado de espirito, o desapparecimento total de toda a fixidez de opiniões e de modos-de-ver; desapparecimento portanto de todas as instituições que se apoiem no facto de qualquer “opinião publica” poder durar mais de meia-hora. A solução, de um problema num dado momento historico será feita pela coordenação dictatorial (vide paragrapho anterior) dos impulsos do momento dos componentes humanos d’esse problema, que é uma cousa puramente subjectiva, é claro. Abolição total do passado e do futuro como elementos com que se conte, ou em que se pense, nas soluções politicas. Quebra inteira de todas as continuidades.

b) Em arte: Abolição do dogma da individualidade artistica. O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais generos com mais contradicções e dissimilhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter varias, organisando cada uma por reunião concretizada de estados de alma similhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisivel.

c) Em philosophia: Abolição total da Verdade como conceito philosophico, mesmo relativo ou subjectivo. Reduccão da philosophia á arte de ter theorias interessantes sobre o “Universo”. O maior philosopho aquelle artista do pensamento, ou antes da “arte abstracta” (nome futuro da philosophia) que mais theorias coordenadas, não relacionadas entre si, tiver sobre a “Existencia”.

3. — Abolição do dogma do objectivismo pessoal. — A objectividade é uma media grosseira entre as subjectividades parciaes. Se uma sociedade fôr composta, por ex., de cinco homens, a, b, c, d, e e, a “verdade” ou “objectividade” para essa sociedade será representada por

(a+b+c+d+e)/5

No futuro cada individuo deve tender para realisar em si esta media. Tendencia, portanto de cada individuo, ou, pelo menos, de cada individuo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias (das quaes a propria faz parte), para assim se approximar o mais possivel d’aquella Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a série numerica das verdades parciaes.

Resultado:

a) Em politica: O dominio apenas do individuo ou dos individuos que sejam os mais habeis Realizadores de Medias, desapparecendo por completo o conceito de que a qualquer individuo é licito ter opiniões sobre politica (como sobre qualquer outra cousa), pois que só pode ter opiniões o que fôr Media.

b) Em arte: Abolição do conceito de Expressão, substituido por o de Entre-Expressão. Só o que tiver a consciencia plena de estar exprimindo as opiniões de pessoa nenhuma (o que fôr Media portanto) pode ter alcance.

c) Em philosophia: Substituição do conceito de Philosophia por o de Sciencia, visto a Sciencia ser a Media concreta entre as opiniões philosophicas, verificando-se ser media pelo seu “caracter objectivo”, isto é, pela sua adaptação ao “universo exterior”, que é a Media das subjectividades. Desapparecimento portanto da Philosophia em proveito da Sciencia.

Resultados finaes, syntheticos:

a) Em politica: Monarchia Scientifica, anti-tradicionalista e anti-hereditaria, absolutamente expontanea pelo apparecimento sempre imprevisto do Rei-Media. Relegação do Povo ao seu papel scientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento.

b) Em arte: Substituição da expressão de uma epocha por trinta ou quarenta poetas, por a sua expressão por (por ex.), dois poetas cada um com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quaes seja uma Media entre correntes sociaes do momento.

c) Em philosophia: Integração da philosophia na arte e na sciencia; desapparecimento, portanto, da philosophia como metaphysica-sciencia. Desapparecimento de todas as fórmas do sentimento religioso (desde o christianismo ao humanitarismo revolucionario) por não representarem uma Media.


Mas qual o Methodo, o feitio da operação collectiva que ha de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Methodo operatorio inicial?

O Methodo sabe-o só a geração por quem grito, por quem o cio da Europa se roça contra as paredes!

Se eu soubesse o Methodo, seria eu-proprio toda essa geração!

Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde elle vae ter.

Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos Engenheiros!

Faço mais: garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros!

Proclamo, para um futuro proximo, a creação scientifica dos Superhomens!

Proclamo a vinda de uma Humanidade mathematica e perfeita!

Proclamo a sua Vinda em altos gritos!

Proclamo a sua Obra em altos gritos!

Proclamo-A, sem mais nada, em altos gritos!

E proclamo tambem: Primeiro:

O Superhomem será, não o mais forte, mas o mais completo!

E proclamo tambem: Segundo:

O Superhomem será, não o mais duro, mas o mais complexo!

E proclamo tambem: Terceiro:

O Superhomem será, não o mais livre, mas o mais harmonico!

Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando, abstractamente o Infinito!

Alvaro de Campos.

 

Project Gutenberg’s Ultimatum, by Álvaro de Campos and Fernando Pessoa

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at http://www.gutenberg.org

Title: Ultimatum

Author: Álvaro de Campos Fernando Pessoa

Editor: Fernando Pessoa

Release Date: April 23, 2014 [EBook #45461]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ULTIMATUM ***

Produced by Gonçalo Silva. This file was made using scans of public domain works from the National Library of Portugal (http://purl.pt).

Leave a Reply