Nota Introdutória ao texto de Guy Abeille “Porque é que o défice em 3% é uma invenção 100% francesa” – por Júlio Marques Mota

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Nota Introdutória ao texto de Guy Abeille “Porque é que o défice em 3% é uma invenção 100% francesa”. – por Júlio Marques Mota

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Carta aberta aos socialistas mais conservadores

Bruxelas aí está a usar as armas que o poder político e a teoria económica aparentemente lhe fornecem. Quanto ao poder político não há dúvidas que o exerce ditatorialmente e isso até um cego já o consegue ver. Quanto ao poder que a teoria económica lhe confere, pela minha parte estamos desde há muito tempo entendidos. Dois conceitos são utilizados como armas de destruição massiva: o de défice estrutural e o de défice público.

Quanto ao défice estrutural é um conceito que economicamente ainda está por explicar fora do quadro ideológico dominante, porque se trata de pura ideologia, até porque, entre muitos defeitos, tem por base “um conceito não conceptualizável” porque economicamente desprovido de sentido sequer: o da taxa NAIRU, taxa de desemprego não aceleradora de inflação ou ainda também dita taxa de desemprego compatível com uma taxa de inflação constante. De resto as tensões havidas entre Bruxelas e Paris ou Roma, quanto à formula de calcular o défice estrutural, são disso um bom exemplo. Quanto ao limite do défice público efectivo de três por cento de que tanto se tem falado, muitas expressões matemáticas se têm deduzido. No entanto, todas elas sempre a confirmar que tomar este valor como referência para a política económica, significa que se olha para o futuro da Europa pelo espelho retrovisor, para os 3% como sendo o produto da dívida média na Europa no tempo de Maastricht, 60%, a multiplicar pela diferença entre a taxa de juro nominal e a taxa de crescimento de então, ou seja de 5%. E o produto das duas taxas dá então o valor de 3%, valor este que, às taxas consideradas de então, garante a estabilidade da dívida pública. Mecânica pura, puramente, independente do espaço e do tempo, pelos vistos.

Mas quanto ao défice de 3% a verdade parece ser outra e transformar este valor em ciência económica não é apenas ideologia, é sobretudo uma mistificação, uma profunda desonestidade intelectual. Desse mistificação nos fala poderosamente o texto abaixo escrito por quem concebeu exactamente esta regra dos 3%. E as fórmulas nos cursos de Economia, licenciaturas ou mestrados, consoante o caso, continuarão a mostrar o valor da ciência com que se arma Bruxelas. Eis pois um texto que reputo de fundamental. Um texto difícil, por vezes, de tradução complicada e, talvez, muitas vezes errada. Desses erros as minhas desculpas, mas vejam então o texto original. Vale sempre a pena.

Tudo isto ajudará a compreender o braço de ferro que se está a criar entre o actual executivo português e a ditadura de Bruxelas. Desejamos muita resistência e boa sorte a António Costa, uma vez que a história também é feita de imponderáveis e talvez estes o possam favorecer na reconstrução democrática que o governo quer realizar em Portugal. E para isso é necessário o apoio de todos nós, mesmo dos socialistas mais conservadores.

Coimbra, 2 de Fevereiro de 2016.

Júlio Marques Mota

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Ver o original do artigo de Guy Abeille em:

http://www.latribune.fr/opinions/tribunes/20101001trib000554871/a-l-origine-du-deficit-a-3-du-pib-une-invention-100-francaise.html

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