CARTA DO RIO – 91 por Rachel Gutiérrez

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Desanimada com as más notícias sobre epidemias, refugiados, e os absurdos assassinatos de turistas, e também pela intensidade do calor que Marco Aurélio Matos costumava chamar de “desmoralizante”, eis que aparece, para uma visita muito curta, a menininha Esperança , que me olhou, como sempre,  com atenção e  bondade e apressou-se em dizer que há sempre uma “Pasárgada” à nossa espera: o mundo da poesia, da arte e da beleza.  Respondi-lhe que isso se chama eudemonismo estético. Ela torceu o nariz para palavra tão pedante, e eu tratei de me desculpar e de  explicar que essa é a forma erudita de se falar numa espécie de salvação pela arte, ou sobre a busca da felicidade na valorização da cultura e da beleza.

– Por que você não escreve, então, sobre poetas e poesia? perguntou com um sorriso  e, sem esperar pela resposta, foi-se embora quase correndo.

Isso me fez pensar no poeta russo Joseph Brodsky (1940-1996), cuja análise minuciosa que fez de um poema de W.H.Auden andei relendo recentemente. O poema, bastante conhecido, é September, 1, 1939, escrito um ano após a chegada do inglês a Nova York, e a data que lhe dá título é a da invasão da Polônia pelas tropas de Hitler e dos soviéticos, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial, na qual se engajaram França e Inglaterra três dias depois.

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Brodsky considerava Auden “uma das maiores mentes do século XX” e, tendo sido expulso da União Soviética em 1972, foi graças à ajuda inicial dele e de outros escritores ingleses que o russo pôde mudar-se para os Estados Unidos, naturalizar-se norte-americano, lecionar na Universidade de Yale e em várias outras,  e lá viver e escrever até sua morte prematura, aos 56 anos.

O ensaio que estive relendo é a mais completa análise que já li de um poema, do pensamento e da habilidade criativa de um poeta por outro poeta. Seu texto ocupa 52 páginas do livro  Less than one – selected essays ( Menos que Um, ensaios escolhidos), editado pela Penguin Books em 1986.

Minha intenção aqui é a de recomendar o ensaio, para quem nunca o leu, dando apenas uma ideia do que o conhecimento e o amor à criação poética, essa forma privilegiada da arte da palavra, inspiram e levam um poeta e estudioso a fazer, sendo ele tão excepcional quanto o poeta analisado. É como se assistíssemos ao milagre de alguém que soubesse despetalar uma flor, pétala por pétala, para depois reconstituí-la integralmente, tendo sido iluminada toda a sua beleza e revelado todo o seu significado. Não, não exagero. É isso o que Brodsky faz, verso por verso, no processo de análise desse poema de Auden, assim como no de muitos outros de outros poetas.

1º de setembro de 1939 é um poema bastante diferente: é formado por 9 estrofes, cada uma com 11 versos. Não vou me deter em descrevê-los ou repeti-los, nem importa se têm seis ou sete sílabas, o que quero dizer é que cada um dos 99 versos é examinado, por Brodsky, com o cuidado de um jardineiro que estivesse lavando folha por folha e pétala por pétala de cada planta e cada flor de um jardim. Não consigo evitar as metáforas florais porque afinal a flor, em particular a rosa, sempre esteve relacionada com a poesia. Ouvi dizer, ou li que na Idade Média, em festivais de poesia, o prêmio era uma rosa entregue ao melhor poeta pela mais bela donzela do vilarejo ou da cidade. Talvez seja uma lenda. Mas é inegável que ecos dessa lenda ressoam no misterioso autoepitáfio do poeta Rainer Maria Rilke:

        Rosa, ó pura contradição,

Volúpia de ser o sono de ninguém

      Sob tantas pálpebras.

Podemos imaginar que “o sono de ninguém” seja a própria morte do poeta; e as “pálpebras”, que lembram pétalas, possuem na língua alemã o mesmo som da palavra canção. ( Lidern – pálpebras e  Lied – canção). E canções e poemas não são irmãos?

Voltemos ao poeta Brodsky, de quem encontrei duas citações no Google que dão bastante o que pensar:

O homem é aquilo que lê.  E…

Existem crimes piores do que queimar livros. Um deles é não os ler.

Citações perfeitamente adequadas à nossa época, quando tão pouco se lê e tudo se reduz a poucas palavras, a laconismos internáuticos mais ou menos insignificantes, além de tantas “mensagens” nem sempre necessárias ou oportunas.

No meu livro Cantares, há um modesto e emocionado poema que escrevi para ele, quando soube de sua morte:

Joseph Brodsky

 mundo, acolhe a alma

do poeta Joseph Brodsky:

 

o menos que um,

o mais que todos

– da estepe a vasta voz –

que não coube em seu próprio coração;

 

crescente nítida se faz

sua palavra,aura

da terra

-um só consolo

no vazio;

 

morto o poeta,

gira

no invisível

 

e aqui é sol

Inextinguível!

 

 

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