HOMENAGEM AO PROFESSOR GERMANO SACARRÃO . «A realidade é uma invenção do nosso espírito» (ou o elogio da surdez)

SacarrãoAo longo dos tempos e consoante as civilizações, os surdos têm sido olhados de formas diferentes. Por exemplo, no Antigo Egipto eram pessoas importantes, adorados como deuses, servindo de mediadores entre as divindades e os Faraós. Eram temidos e, logo, muito respeitados pelo povo. Não era nada conveniente para um felá que um surdo embirrasse com ele. No outro extremo da escala fica a Alemanha nazi onde os bebés surdos eram, nos hospitais e maternidades, eliminados à nascença, por questões económicas, mas também para não virem com os seus genes defeituosos macular a pureza ariana da raça germânica. Os surdos adultos foram tratados como os judeus, os ciganos, os homossexuais e os comunistas – guetos, campos de concentração e, às vezes, câmara de gás, com eles. Sou um pouco surdo e adivinhem lá para onde é que eu iria com mais prazer na minha máquina do tempo – para o Egipto ou para a Alemanha nazi?

Germano da Fonseca Sacarrão, zoólogo e ecologista de renome, foi um grande professor catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa. As suas aulas eram tão vivas e participadas que muitos alunos de outras faculdades, de outros cursos, licenciados e pós-graduados, a elas assistiam. Dirigiu cientificamente alguns projectos editoriais a que eu estava ligado e criámos uma amizade sólida e que durou até ao dia em que, fazendo anos de casado, foi comprar um ramo de flores para oferecer à esposa, D. Maria Manuela Sacarrão, que estava de cama com gripe. A meio do caminho caiu fulminado por um ataque cardíaco. Era surdo, assumia-o sem qualquer problema, e usava um aparelho auditivo que tirava quando não queria ser incomodado. Muitas das coisa que aqui vou dizer sobre a surdez, e não só, são da lavra do Professor Germano Sacarrão.

Morava em Campo de Ourique, era, aliás, um entusiasta do bairro, o «quartier latin», com se diz entre os nativos. É um bairro charmoso, projectado nos anos 70 do século XIX, pelo grande engenheiro, Frederico Ressano Garcia (1847-1911), um discípulo da teorias urbanísticas do barão de Haussmann, o arquitecto da Paris imperial, com grandes vias cortadas perpendicularmente por ruas secundárias, como, aliás, já no século anterior, Eugénio dos Santos fizera com a Baixa. Campo de Ourique é uma cidade dentro da cidade, tem tudo, é auto-suficiente. Até tem lugares de culto – o mercado, a Livraria Ler,  no Jardim da Parada, o café centenário «A Tentadora», «Os Alunos de Apolo», onde desde 1872 milhares de lisboetas aprenderam a dançar, o CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique… Um mundo. Há um texto muito interessante de Miguel Sousa Tavares, que também ali mora: «Viva Campo de Ourique» para o qual vos remeto, pois não é do «quartier latin» que quero falar.

Pois era precisamente no café « A Tentadora», na Rua Ferreira Borges, com a sua linda fachada Arte Nova, que Sacarrão contava como uma manhã foi encontrar dois surdos célebres: António José Saraiva, um morador, e Óscar Lopes que, na altura de que Sacarrão falava, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha com frequência, creio que semanal, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva há muito que abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes  manteve-se militante até ao fim. As amistosas discussões de natureza ideológica eram prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutava interessadíssimo, comentava – «um verdadeiro diálogo de surdos!».

Contava também como muitas vezes chegava a casa ao fim da tarde, fatigado e ansiando por repouso. O neto, que vivia com os avós, estava no quarto com música rock em altos berros a criada, na cozinha, ouvia rádio. A esposa via também televisão na sala. Ou ambas viam a telenovela. Um barulho dos demónios, dizia. Então, Germano Sacarrão tirava o aparelho e entrava numa deliciosa ilha de silêncio, apenas habitada pelos seu pensamentos.*

A propósito de um poema que há dias aqui publiquei, referi o erro que se comete ao atribuir aos animais características próprias dos seres humanos. Sacarrão costumava dizer: – «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver». Como refere a escritora e investigadora Maria Estela Guedes num excelente trabalho seu sobre Sacarrão, este preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Esta metaforização é abusiva e acientífica, na sua opinião. As metáforas nascem do impulso de manipularmos a sensibilidade alheia, de moldarmos o ponto de vista dos outros pelo nosso. «A realidade é uma invenção do nosso espírito», costumava dizer; o cérebro tem barreiras de conhecimento, está adaptado a um dado mundo e não a outro. Embora também manipuladora, em poesia, a metáfora é aceitável; em ciência não.

Sou um pouco surdo, como já disse. Um audiograma recente registava alguma perda de audição no ouvido direito. Mas ouço muito bem do lado esquerdo (sempre a sinistra!). Tenho o cuidado de, nas reuniões, me sentar estrategicamente com a minha antena parabólica, o ouvido esquerdo, em condições de captar o que se diz. Porém, sempre que me falam em usar um aparelho auditivo, lembro-me do que dizia Germano Sacarrão: «Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais».

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