A doença de Emmanuel Macron – Uma extraordinária ausência de « decência normal” – por Régis de Castelnau

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A doença de Emmanuel Macron
Uma extraordinária ausência de « decência normal”

Régis de Castelnau, Revista Causeur

 

A propósito da perda de nacionalidade, o ministro da Economia de novo optou pelo contra-pé: é contra. Será que procuraria aparecer “como um homem de esquerda” ele, que, até agora, revelou sobretudo a sua ignorância do povo?

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Emmanuel Macron em Matignon, no início de Fevereiro (Photo : SIPA.00741404_000009)

A participação nos governos da presidência de François Hollande terá um carácter tóxico? Foi primeiramente Thomas Thévenoud que sofria “de uma fobia administrativa” que o impedia de declarar e pagar os seus impostos, em tempos e a horas. Hoje, é Emmanuel Macron que nós anuncia sofrer “de um incomodidade filosófica”. Que uma brutal mudança de casaca seja fisicamente incómoda, é certo, mas porque filosoficamente?

Pensando bem, é algo de muito simples. Emmanuel Macron está-se nas tintas para toda a gente e tendo em conta a realidade da armadilha em que François Hollande se meteu com a sua história de perda de nacionalidade, ele mediu todo o interesse que havia em mudar de postura. Além do mais ele está contra, sabendo que quando se quer fazer passar, contra a evidência, por um homem de esquerda, é provavelmente mais decorativo pretender ter estados de alma “filosóficos” para justificar a mudança.

É igualmente uma coqueterie para nos lembrar que é um filosófo, como de resto quase toda gente hoje em dia. Salvo que Macron tem títulos universitários para se justificar e que foi colaborador de um verdadeiro filósofo, esse sim, o grande Paul Ricoeur. Sabe-se bem que a proximidade dos grandes homens de nada protege e, finalmente, esta nova projecção leva-nos à operação mediática que o mainstream coloca à nossa frente desde há algumas semanas.

Juppé e Macron, os nossos salvadores?

A Europa está à beira da ruptura, a crise dos migrantes é não gerível, a situação internacional é muito inquietante, o desemprego e o terrorismo degradam fortemente a vida dos Franceses, e não é o pequeno gang que pretende estar no governo da França que será de natureza a tranquilizar-nos. E é que são capazes de fazer muita coisa errada, estúpida, os Franceses, como os Húngaros ou os Polacos de um lado, ou os Espanhóis e os Portugueses do outro. Então vai-se lhes preparar uma audição imparável que deveria permitir continuar como dantes, de permanecer nos grandes salões e guardar os seus belos sofás.

Primeiro, o político perdedor que apoiou todas as reformas, todos os abandonos que conduziram o nosso país ao impasse em que se encontra agora: Alain Juppé. Este efectivamente compreendeu muito bem a oportunidade, foi a toda a velocidade aos Estados Unidos para se fazer salientar e apresentou-se em Bilderberg para receber o roteiro a seguir. Mas digam pois, há mesmo assim um problema, todos os estudos demonstram que os Franceses desejam uma renovação. E Nestor não é mesmo assim uma perdiz do ano. Ideia luminosa, vai-se flanqueá-lo de um jovem, amável e de sorriso bem reproduzido no molde hoje obrigatório. Isto teria mesmo assim o aspecto de Juppé Presidente e Macron Primeiro-ministro! Em traje de grande coligação à alemã, para agradar a todos os que, de Franz-Olivier Giesbert à Laurent Joffrin, passando por Jean Quatremer e por Cohn-Bendit à Cambadélis, eventualmente passando por François Bayrou, têm medo dos Franceses e da democracia.

Um puro produto da ENA(rquia)

Então, para além da imagem complacente e utilitária que nos é servida, o que é que se pode dizer de Emmanuel Macron? “Encarna o elitismo republicano” responde Jean-Pierre Chevènement, que teria podido evitar renegar-se a este ponto. Certamente, puro produto da enarquia, pertencendo à casta dos inspectores das finanças, praticando idas e voltas lucrativas com a finança privada para valorizar a sua agenda de nomes. Uma pequena piscadela de olhos sobre a sua trajectória e a dos seus camaradas de promoção é deste ponto de vista tristemente edificante.

Até muito recentemente desconhecido no batalhão, acaba de ser lançado na esfera política. Especializou-se desde então e é ministro na agitação de bandeiras vermelhas mesmo debaixo do nariz desta esquerda órfã e desamparada pela catástrofe François Hollande. Esquerda para quem ele olha com ar de gozo e que está a tentar transformá-lo em cabeça de Turco. Seria fastidioso elaborar a lista destas provocações, ou de voltar à “ lei Macron” de que muito se diz que é apenas um decalque “do consenso de Washington”. Sublinhar-se-á simplesmente que também foi à procura de ser elogiado em Davos.

O verdadeiro Macron revelado

Vou simplesmente sublinhar quatro sequências que estabelecem para mim a realidade do personagem:

– Há primeiro o sorriso de Jean-Pierre Jouyet, o seu padrinho, pronunciando o seu nome outra vez ministro da Economia sobre a escadaria do Eliseu. Jouyet, encarnação concentrada da casta, radiante da boa partida feita aos Franceses.

– Há depois “a derrapagem” a propósito das operárias da empresa Gad. Pela sua primeira entrevista rádio na antena Europa 1, falando de um processo seguido pelo seu ministério, proferiu a frase seguinte: “Nos meus processos, há a sociedade Gad: há neste matadouro uma maioria de mulheres, há aí muitas que são iletradas! ” Nenhuma maldade, nenhum desprezo nesta frase, exactamente um inconsciência mortífera. Senhor Macron, ainda que este analfabetismo seja real e constitua uma dificuldade suplementar para reclassificar estas operárias prometidas ao desemprego, não se tem o direito de falar neste termos publicamente do que sempre é vivido como uma humilhação. A língua e a escrita são um terrível indicador social, e se se pode ainda estar orgulhoso de ser trabalhador, tem-se sempre vergonha de ser iletrado. Se o senhor tivesse um mínimo de experiência, e sensibilidade social, teria evitado, desqualificando-se, de fazer empalidecer estas mulheres já em situação de grande dificuldade. As vossas desculpas posteriores não mudarão nada .

– Na frente de Jean-Claude Bourdin sobre BFM seguidamente, tivemos esta pequena lição dirigida aos desempregados, estes preguiçosos, estes assistidos: “Se estivesse no desemprego, não esperaria muito dos outros”. Podia ele fazer prova de mais altivez, sabendo que nunca estará no desemprego? Emmanuel Macron, com o seu diploma de ENA, tem o seu passaporte para uma tranquilidade confortável, ou mesmo muito confortável, durante toda a sua vida. As alternâncias políticas não lhe porão nenhum problema, e com algumas idas e voltas do público-privado de que já tem muita prática, poderá, marchando sob as pegadas dos seus antecessores Naouri e Pigasse, juntar uma muito boa fortuna.

-Mais recentemente, o nosso reincidente virou a mesa : “A vida de um empresário é muito frequentemente mais dura que a de um assalariado. É necessário nunca o esquecer. Pode perder tudo, ele, e tem menos garantias”. Porque o assalariado, será então que este não pode perder tudo? Entre os de Goodyear, postos fora às vezes depois de trinta anos de casa, há lá catorze que na verdade perderam tudo. Até a sua vida, suicidaram-se, morreram de desespero. Quem pode contestar que a vida de um pequeno proprietário pode ser muito dura, difícil e arriscada, mas ela tem o primeiro mérito de ser uma escolha, e o segundo de permitir dirigir. Por ter feito os dois, sei bem o que isto quer dizer. Mas o senhor Macron que não fez nem uma coisa nem outra, não hesita em comparar o que não é comparável. Pretende-se filosófo, então nunca seria demais aconselhá-lo a lançar uma olhadela sobre os escritos de um outro filósofo, alemão, barbudo e de certo calibre esse. Aprenderia que se ser chefe de empresa é uma profissão, o salariado é uma relação. Uma relação de produção na qual o assalariado vende a sua força de trabalho que se torna uma mercadoria, o trabalho assalariado é então uma desapropriação e uma alienação. Há quem possa estar confortável, para alguns protegidos, mas para a maioria, sobretudo hoje, é uma situação terrivelmente difícil.

Então, estas quatro sequências, caracterizam para mim, a enfermidade que atinge Emmanuel Macron, novo emblema que nos serve complacentemente o mainstream para tentar salvar a mobília. A ausência total nele do que Orwell, retomado por Michéa, chama “a decência comum”. Aculturação que se explica pela trajectória já tomada e pelas ambições já bem evidenciadas.. O serviço da oligarquia não tem nenhum interesse em se interessar pelo povo.

Régis de Castelnau, Revista Causeur, L’infirmité d’Emmanuel Macron-Une extraordinaire absence de «décence ordinaire». Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/macron-juppe-enarchie-oligarchie-36757.html

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