Sempre achei (ou fui achando, à medida que ia crescendo) que os óscares eram uma parvoíce, uma palhaçada e um folclore americanos, sempre iguais a si próprios, a espelhar uma certa maneira de viver, estar e pensar únicas no mundo ocidental. Um pouco como as ridículas eleições americanas, com as suas primárias, os seus delegados, a histérica gritaria nos sucessivos estados americanos, os seus dois únicos candidatos e partidos no final da corrida. Como nos filmes “B” de Hollywood, gran finale entre o Bom e o Mau – uma das obsessões americanas, esta do bom rapaz e do bandido. O primado do maniqueísmo daqueles labregos tecnológicos.
(A seu tempo e felizmente, o Sergio Leone inventou uma irónica e genial coboiada com um bom, um mau e um vilão, ah, ah, ah).
E tal como na política também há “as nomeações”. Mas quais nomeações? Quem é que se encarrega de “nomear” os filmes que acha que devem concorrer ao Óscar? E outros filmes bons que por ali haverá, por quem acha que não serão nomeados?
Para além de todo este folclore “onde o mundo inteiro tem os olhos postos”, existem naturalmente as campanhas de promoção, do custe o que custar – o povão acorrerá, desaustinado, às salas de Cinema a ver os heróis recém-condecorados, pois então. Há que recuperar o cacau, ganhar algum e pagar os impostos, mesmo naquelas super produções com orçamentos maiores que o de qualquer sub-desenvolto país africano.
Claro que há e que sempre houve bons filmes ao longo da História do Cinema, premiados com a tal estatueta. Serão ou não coincidências, mas será também algo que não interessará por aí além ao verdadeiro cinéfilo, ao que gosta mesmo de Cinema.
Claro também que uma data de filmes importantíssimos e belíssimos nunca viram a ponta de um corno do Óscar, nomeadamente filmes do lado de cá do Atlântico, coisa que muitos americanos possivelmente nunca souberam que existia. Os filmes e o lado de cá.
E até mesmo filmes americanos. O Orson Welles, por exemplo, jamais foi oscarizado. O que em nada o deve ter ralado.
A verdade é que muitos de nós, cinéfilos, temos nas respectivas memórias filmes que nos marcaram, que nos preencheram e ajudaram a formar – que não passaram, nem pouco mais ou menos, pela feira das vaidades da melhor roupa de baixo feminina, dos melhores penteados masculinos, do glamour fabricado e reinventado, não passaram pelos beijinhos e abraços aos vencedores, a fermentar de cólera e ódio concentrado ou pela preocupação de uma falsa e casta emoção, a “improvisar” umas também emocionantes palavras de agradecimento, repassadas de modéstia envergonhada e pestanejante.
Há ainda a considerar, faz-lhe parte, o Óscar da peninha, o oscarzinho do consolo lá finalmente fornecido a fulanos que por ele andam a penar há canos. Às vezes há decénios. Pronto, toma lá, fica sossegado, põe-te a andar, vai pra casa, vai prós netos, vai-te embora, não me chates.
Como se poderia levar a sério, digam-me, toda uma antiga palhaçada daquelas, quando este ano até foi ”nomeado” para o tal Óscar, aquela espécie de actor, musculado e mauzinho, chamado Sylvester Stallone, o contrário do homem das mil caras, o pior actor do mundo (esse, sim, seria um Óscar bem atribuído) o actor mais ausente de qualquer expressão facial que jamais se viu na vida?
Tirando, enfim, o Victor Mature, actor de outros tempos, estava a ser agora indecentemente injusto…