HOJE, A ITÁLIA. AMANHÃ SE VERÁ QUEM SE SEGUE – 14. OS BANCOS QUE METEM MEDO, OS BANCOS DO TERROR – 1ª PARTE – por VINCENZO COMITO

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

sem nome

Os bancos que metem medo, os bancos do  terror- 1ª Parte

Vincenzo Comito, Banche da paura

Sbilanciamoci.info, 25 de Janeiro de 2016

Os problemas postos pelo sistema bancário depois da crise de 2008, os recentes acontecimentos do sistema financeiros italiano e o arranque atormentada da união bancária europeia. Uma análise em 3 partes.


comito - I

Os problemas postos pelo sistema bancário depois da crise de 2008, os recentes acontecimentos do sistema financeiro italiano, a evolução tecnológica que arrisca perturbar os equilíbrios do sector, o arranque atormentado da união bancária europeia, são alguns dos factores que nos levaram a procurar fazer o ponto da situação sobre uma actividade que está sob os  fortes holofotes  da opinião pública.

Os artigos que se seguem procuram analisar em especial a situação e as perspectivas do sistema bancário ocidental e as hipóteses da sua radical reforma.

A morte dos bancos, 1?

Há já várias dezenas  de anos que um filão da teoria financeira e monetária (pensamos em particular nos trabalhos de John Grey Gurley e Edward Stone Shaw nos anos sessenta), considerava a intermediação  financeira dos bancos como um fenómeno transitório, uma característica dos países financeiramente atrasados.

O seu desaparecimento progressivo estaria ligado ao desenvolvimento das tecnologias da informação, o que teria permitido uma avaliação directa pela parte dos investidores das diversas realidades do mercado e por conseguinte o desenvolvimento de um recurso directo por parte dos tomadores de fundos, ou seja de capitais,  aos próprios investidores saltando assim a fase de intermediação.

A realidade não confirmou, pelo menos até aos tempos de agora, senão numa medida muito reduzida, estas convicções. Manifestaram-se, nas décadas seguintes à publicação das análises destes  dois autores, importantes fenómenos de desintermediação seja pelo lado dos activos seja pelo lado dos passivos, tudo isto ligado ao desenvolvimento das novas tecnologias, mas os bancos reagiram segundo muitas e diversas modalidades  inserindo-se no sector dos investidores institucionais, visando a inovação de produtos e de processos, desenvolvendo uma concorrência obstinada, baseando-se mesmo na força dada pelas suas ligações  com o poder político.

De qualquer modo, as hipóteses de Gurley e de Shaw adquiririam certa plausibilidade se olhássemos em especial para a realidade dos EUA; desde há muito tempo até agora as empresas deste país recorrem, para as suas necessidades de financiamento, em cerca de 75% ao mercado e apenas por 25% aos bancos, ainda que depois, diga-se a verdade, colaborem a ajudar os bancos de investimento a montarem as operações financeiras nesses mesmos mercados. Na Europa a relação é a oposta, com 75% dos recursos procurados junto dos bancos e os 25% restantes no mercado.

Pode parecer, por outro lado, paradoxal falar da morte dos bancos quando tínhamos recentemente assistido a uma crise que fez emergir, entre outras coisas, o exorbitante poder do sistema financeiro sobre a economia.

A morte dos bancos, 2?

Mas a crise fez mesmo aparecer à luz do dia o facto que o sistema bancário não somente ter aumentado a sua força política, mas que serve cada vez menos as necessidades do sistema económico, girando em suma sobretudo sobre si mesmo e dedicando-se aos jogos da especulação, de que foi recentemente salvo à custa do dinheiro dos contribuintes.

Assim, por um lado isso desestabilizou a economia e por outro mostrou, com o rebentamento de múltiplos escândalos que frequentemente envolviam em conjunto muitas instituições financeiras,  que o sistema financeiro se tornou, globalmente e para muita gente, o resultado de uma associação de criminosos em grande escala que funcionavam e coabitavam com os governos e os reguladores.

Ainda agora, soube-se muito recentemente  que nos Estados Unidos Goldman Sachs vai pagar uma multa de US $ 5,1 mil milhões, depois de outras instituições terem de pagar outros 37 mil milhões de multas, estando estas relacionadas com as transações fraudulentas no mercado de títulos ligados às hipotecas e no “âmbito de um conjunto de investigações que resultaram num total de penalizações ao longo do tempo que já atingiram mais de US $ 180 mil milhões de dólares.

Num tal clima, nos últimos anos, alguns estudiosos, com base por um lado no fato de que a evolução tecnológica tem feito grandes progressos desde os tempos de Gurley e Shaw e, por outro, em relação aos eventos da crise, apontam para a necessidade não de uma estabilização, mas de uma reformulação total do sector. De acordo com alguns autores também se levantou já a idéia do fim dos bancos tal  como os conhecemos hoje, desta vez como um objectivo desejável e urgente da política económica dos vários governos, não como resultado da evolução espontânea induzida pela tecnologia.

Assim, um texto recente, escrito em conjunto por um acadêmico e por um gestor do sector (J. McMillan, 2014), mostra como a revolução tecnológica tem, paradoxalmente, ajudado o sistema a crescer para fora de si mesmo, para fazer tarefas mais complexas, para assumir riscos não razoáveis e para evitar os reguladores ​​e as agências de rating. O volume inclui também, como veremos, a reformulação  total do sistema.

A situação actual

premissa

Em todo caso, hoje o setor, que regista no seu interior uma grande diversificação da actividade, de dimensão, de presença geográfica, de resultados de mercado e economicamente está-se a defrontar  com grandes problemas. Nos últimos meses, os meios de comunicação têm registado comunicados em que se informa que se está perante uma redução dos lucros, despedimentos em massa, aumentos de capital precipitados, os preços das ac ções em queda ; tudo isso mostra que as coisas não estão a ir de forma muito suave (Jenkins, Arnold, 2015). As dificuldades são também mais pronunciadas na Europa do que nos Estados Unidos.

O sector tem agora que enfrentar, além dos desafios das novas tecnologias e dos novos concorrentes que estas induzem, a entrada no mercado dos novos poderes asiáticos, e também das novas regulações, embora sejam insuficientes, pressionem à baixa os resultados enquanto os acionistas impacientes estão a pressionar para que haja maiores lucros.

A rentabilidade

No sector bancário a rentabilidade é medida  principalmente pelo índice ROE (Return on Equity), a relação entre os lucros gerados durante o ano e o nível de capital próprio. Ora, esse índice atingiu, no período pré-crise, um valor anormalmente elevado, que chegava até aos 25-30% (Jenkins, Arnold, 2015), o que indica que os bancos se tornaram verdadeiros antros de jogo e que eles estavam a tomar riscos exagerados. Entre outras coisas, eles deram origem a uma montanha de dívidas e geriam a situação  sobretudo numa óptica de curto prazo  enquanto que os seus gestores tinham uma remuneração intimamente ligada à Roe (Admati, Hellwig, 2013). Mas hoje o JPMorgan Chase, o banco de mais elevada rentabilidade  em Wall Street, obtém apenas uma taxa de 12%. O brilhante Goldman Sachs consegue apenas 7% (Jenkins, Arnold, 2015).

Os bancos têm, na verdade,  desde então  aumentado o seu capital e assim melhoraram a relação entre capital e dívida, e nisto indo ao encontro dos requisitos mais rigorosos estabelecidos pelos órgãos reguladores; em paralelo, têm até diminuído  a Roe. A teoria financeira diz que isso é correcto, porque, reduzindo o rácio dívidas /meios próprios significa que os títulos se tornam menos arriscados e, portanto, devem reduzir a rentabilidade que os investidores exigem. Mas os mesmos investidores, que continuam a exigir dos bancos um ROE de pelo menos 15%, não parecem entender essa regra. Pode concluir-se que o mercado não é racional (Davies, 2016).

O aparecimento das empresas internet

Hoje, os bancos tradicionais olham com preocupação para a concorrência dos gigantes da rede; estes últimos impuseram-se no sector dos pagamentos como no das moedas virtuais. Mas considera-se também a sua entrada em força em sectores mais importantes, desde a  oferta de serviços à recolha de depósitos, aos serviços ligados aos mercados cambiais,  a gestão de activos até a predisposição de um serviço completo. Os bancos temem que novos entrantes se concentrem  seguidamente sobre as atividades de mais rentabilidade  e deixem aos bancos tradicionais as suas elevadas bases de custo e de produtos menos rentáveis.

De facto, os novos entrantes podem ganhar mais e isto também quando estão a oferecer  taxas de juro mais baixas e serviços menos dispendiosos desde o momento em que têm os custos mais limitados.

Os bancos devem transformar-se profundamente para competirem com as empresas start-up   digitais e estas, de facto, procuram reagir entre outras coisas investindo nas novas tecnologias. Mas a digitalizzazione mostra-se complexa, acabando por comportar uma transformação profunda no modo de ser e de trabalhar da banca.

Ainda hoje a parte de mercado dos novos penetrantes é baixa; mas o segmento cresce a ritmos muito sustentados. Daqui a cinco anos, como indica um estudo de KPMG, por exemplo, o banco móvel deverá duplicar de dimensões e atingir cerca de 1.8 mil milhões de utilizadores, um quarto da população mundial.

A concorrência chinesa e Asiática

Uma grande fatia dos recursos financeiros mundiais é gerada na Ásia, ou seja através dos excedentes comerciais com o estrangeiro que atravessa a elevada poupança interna. Mas tais capitais são reciclados ainda hoje, para uma parte consistente, através do sistema bancário e financeiro ocidental.

Hoje os primeiros quatro bancos chineses são também os primeiros quatro bancos à  escala  mundial. Mas têm estado absorvidos sobretudo pelo mercado interno, que aparece ainda relativamente subdesenvolvido, ainda que em grande evolução; estão apenas a dar  os primeiros passos no estrangeiro.

Mas indubitavelmente a situação poderá  alterar-se muito rapidamente. De momento os chineses estão mais ocupados em  construir uma infraestrutura financeira para melhor controlar os mercados financeiros das matérias-primas assim como em gerir  um endividamento excessivo e uma tomada de risco demasiado elevada por parte dos bancos. Mas, em todo caso, mesmo no que diz respeito ao sector financeiros, o centro de gravidade mundial parece destinado à transferir-se no espaço de uma dezena de anos para o continente asiático.

(continua)

Textos citados neste artigo

-Admati A., Hellwig M., The bankers’ new clothes, Princeton University Press, Princeton, 2013

-Davies D., Banks should not fixate on double-digit returns, www.ft.com, 13 gennaio 2016

-Jenkins P., Arnold M., Beyond banking: under attack on all sides, www.ft.com, 10 novembre 2015

–McMillan J., The end of banking : money, credit and the digital revolution, Londra, 2014

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Ver o original em:

Banche da paura

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