A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 3. BANCOS E CRIAÇÃO MONETÁRIA: QUEM FAZ O QUÊ? – por AUDREY FOURNIER

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

criação monetária - I

A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

3. Bancos e Criação Monetária: quem faz o quê ?

Audrey Fournier, Banques et création monétaire: qui fait quoi?
Le Monde, 21 de Setembro de 2011

“Criação de moeda”: para o comum do mortais, o próprio conceito aparece como sendo um pouco de ficção científica. O que é que faz trabalhar a rotativa a imprimir notas, papel moeda como dizem os economistas? Sob que  condições? Em que é que  a política monetária, principal instrumento de política económica na zona euro, influencia a actividade?

Os créditos, principal fonte de criação de moeda

A moeda possui duas grandes qualidades: por um lado,  a qualidade de ser perfeitamente líquida – ou seja imediatamente disponível e sem custo –, por outro lado a qualidade  de   apresentar pouco risco no caso de estarmos na  ausência de uma inflação forte. Mas com o desenvolvimento dos mercados, a multiplicação dos activos financeiros tende  a tornar difusa a  distinção entre o que é moeda e o que não o é. Com efeito, se um activo financeiro puder ser rapidamente e com menor custo convertido em meio de pagamento, a sua liquidez aproxima-o fortemente do conceito de  moeda.

O mecanismo de criação de moeda encontra a sua origem nos créditos atribuídos pelos bancos. O princípio do crédito consiste em  transformar créditos sobre os agentes não bancários em meios de pagamento imediatamente utilizáveis. Concretamente, quando um banco concede  um crédito a um cliente X, este último dispõe de um depósito à vista, neste  mesmo  banco, igual ao montante M da soma que lhe é emprestada. Do seu lado, o banco adquire em contrapartida um crédito sobre o cliente X. Há pois  criação de moeda: o banco não utilizou as suas reservas para emprestar o montante M ao cliente X: inscreveu esse montante como  um crédito no seu balanço.

Mas quando o cliente X reembolsa o crédito M, o banco anula o crédito do seu balanço: há por conseguinte actualmente destruição de moeda. [Diremos que por esta via o banco destruiu moeda, exactamente a que criou]. A criação de moeda terá sido apenas provisória. Há por conseguinte “criação líquida ” de moeda unicamente quando os novos créditos concedidos são em valor superior aos créditos reembolsados.

Títulos do Tesouro e conversão de divisas

Os bancos podem criar da moeda de duas outras maneiras, mas com o mesmo mecanismo. Primeiramente, quando os bancos comerciais concedem  créditos ao Tesouro público, adquirem títulos  do Tesouro (créditos sobre o Tesouro). Em segundo lugar, os bancos podem creditar a conta de um agente em troca de divisas: por exemplo, um industrial francês pago em dólares vai pedir ao seu banco que credite a sua conta em euros; em contrapartida desta criação de moeda, o banco vai adquirir um crédito sobre os Estados Unidos. Esta criação de moeda é, de imediato,  definitiva.

O banco central cria igualmente da moeda por dois grandes tipos de operações. Por um lado, quando os bancos comerciais têm necessidade de moeda para satisfazer as retiradas dos seus clientes e para constituírem  as suas reservas, cedem títulos ao banco central, que em troca lhes credita   a sua conta. Por outro lado, quando a balança comercial de um país é excedentária, a entrada líquida  de divisas sobre o território provoca  criação de moeda, e contrariamente no caso de défice comercial.

Como é que  o banco central pode influenciar a criação monetária?

A procura  de crédito  e,  por conseguinte,  a criação monetária  acompanha de muito perto  a actividade económica. Em período de expansão, a massa monetária, dopada pelos investimentos e pelas despesas dos agentes económicas, vai aumentar, e contrariamente em período de recesso da actividade económica.

Durante a maior parte do século  XX, a política monetária serviu de alavanca para fazer arrancar  a economia no caso de estagnação, com o  risco de poder  agravar a inflação, ou de travão para restringir a massa monetária no caso de sobreaquecimento, com o risco desta vez de  retardar o crescimento.

Mas após os dois choques petroleiros dos anos 1970, um consenso se gerou  nos países ricos para concentrar a política monetária sobre a luta contra a inflação. Este consenso tem sempre estado, desde então, no centro do  mandato do Banco central europeu.

O principal instrumento do banco central é a modelação das taxas de juro. Aumentando ou reduzindo as suas taxas directoras, o banco influencia sobre o custo de refinanciamento dos bancos comerciais sobre o mercado monetário, no qual se  trocam títulos a curto prazo contra a moeda “banco central”.

O banco central pode igualmente actuar sobre a taxa de reserva obrigatória imposta aos bancos comerciais: mais esta é elevada, menos a massa de créditos atribuídos aos agentes económicos será importante.

Contudo, o impacto da política monetária sobre a actividade não é garantida. Por exemplo, actualmente, a procura  antecipada  dos industriais é fraca, por conseguinte uma baixa das taxas (e por conseguinte do custo do crédito) não tem efeito significativo sobre a retoma da actividade.

Inflação, deflação: qual é a influência da moeda sobre a economia?

A teoria quantitativa da moeda, formulada pelo economista inglês David Ricardo, põe em evidência a origem monetária da inflação: se os preços aumentarem, é devido à uma inflação da massa monetária superior à inflação da produção. Para Ricardo, a inflação é susceptível de se gerar  dado que existe uma moeda fiduciária, e que esta não é coberta integralmente pelo ouro. Dito isto, esta teoria não toma em conta o facto de  que uma parte da massa monetária suplementar possa ser poupada, e não gasta.

A curva de Philips põe do seu lado em evidência uma relação negativa entre o desemprego e a inflação: a curto prazo, mais o desemprego é elevado, menos a inflação é forte. Com efeito, em período de forte desemprego, os assalariados não podem fazer pressão para aumentar o nível dos salários. A longo prazo no entanto, de acordo com os defensores da escola monetarista, estas duas variáveis estão  totalmente não-correlacionadas . É por isso que, em inglês, se qualifica  de desemprego estrutural (ou seja o desemprego de longo prazo,  não ligado à conjuntura económica) de NAIRU: No accelerating inflation rate of unemployment (taxa de desemprego não inflacionista).

“Os bancos não se emprestam mais entre eles.” Esta é pois  tipicamente o tipo de frase que se  pode   ler todos os dias nos jornais económicos. Exatamente, do que é que se fala ? O mercado interbancário é o lugar privilegiado pelos bancos para procurarem obter  dinheiro. Esta rede é imaterial e funciona unicamente sobre linhas  informáticas, sem sala de mercado. Os prazos são aí muito curtos: não mais de vinte e quatro horas. O princípio é o seguinte: os bancos cujo balanço é excedentário  emprestam as suas “liquidezes” aos que  têm necessidade, mediante um juro.  Esta taxa de juro  varia em função da oferta e da procura. Quando os bancos não se emprestam mais entre eles, há risco de crédito crunch (escassez de crédito).

Em situação de mercado livre (é o caso na zona euro), o banco central pode intervir sobre este mercado a fim de facilitar a obtenção da liquidez pelos bancos ou, pelo contrário, para pôr-lhes travões no acesso  à liquidez: se injecta liquidez  o banco central faz  descer  as taxas de juro  e facilita as condições de crédito, e vice versa.

Audrey Fournier, Banques et création monétaire: qui fait quoi ? Texto disponível em:

http://www.lemonde.fr/economie/article/2011/09/21/banques-et-creation-monetaire-qui-fait-quoi_1575164_3234.html#JylzJsRKVHdGi6oE.99

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