Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota III

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho

júlio marques mota

Júlio Marques Mota

(continuação)

O mesmo problema visto pelo lado da Áustria

Os europeus estão a defender o seu direito de pagar as coisas com enormes maços de dinheiro

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Money, money, money… (EPA/Matthias Balk)

Aamna Mohdin

February 13, 2016

O dinheiro é rei na Áustria e na Alemanha, e eles estão a procurar que continue a ser assim.

Harald Mahrer, ministro da Economia da Áustria, está contra os planos da a UE para restringir a utilização do dinheiro. Ontem (12 de Fevereiro), de acordo com a Bloomberg, o ministro disse à estação austríaca de rádio pública Oe1:

Nós não queremos que alguém seja capaz de rastrear digitalmente o que compramos, o que comemos, o que bebemos, que livros nós lemos e que filmes vemos … Vamos lutar em todos os lugares contra as regras.

No início desta semana, o Ministério das Finanças alemão anunciou planos para restringir os pagamentos em dinheiro de mais de € 5.000. Não é novidade que, num país onde apenas 18% dos pagamentos são feitos com cartões, os alemães não estejam muito satisfeitos com a proposta. O deputado Konstantin von Notz do Partido dos Verdes relembrou a crítica de Mahrer, descrevendo os pagamentos em dinheiro como sendo a ” liberdade que tem de ser defendida.”

A Áustria e a Alemanha estão entre uma mão cheia de países na Europa que não colocam limites nos pagamentos em dinheiro líquido, cash:

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Onde os maços de dinheiro são bem-vindos. (European Consumer Centre France )

Ao mesmo tempo, outros ministros da UE estão em crescendo a manifestar-se sobre o uso da nota de 500 euros em cash, em particular, por criminosos e terroristas. “Há riscos de que as grandes notas e grandes quantidades de dinheiro possam ser facilmente utilizadas para o financiamento do terrorismo”, diz o ministro das Finanças holandês Jeroen Dijsselbloem aos jornalistas nesta semana, de acordo com a Reuters.

O número de EUR 500 notas em circulação tem aumentado desde a criação da zona do euro, enquanto a quantidade de notas de EUR 10 e EUR 20 tem-se mantido estável. Atualmente, as notas de EUR 500 notas representam um terço de todo dinheiro em circulação na zona do euro.

Ontem, os ministros pediram ao Banco Central Europeu que “explore a necessidade de restrições adequadas” sobre os pagamentos em dinheiro e sobre as notas de elevada denominação, estabelecendo o cenário para o potencial de introdução de um limite comum sobre os pagamentos em dinheiro em toda a Europa. O banco central irá apresentar um relatório até Maio, quando os líderes já terão entre si resolvido grande parte das suas divergências sobre o assunto.

 

Aqui está a verdadeira razão pela qual as autoridades desejam proibir notas de grande valor nominal

Tyler Durden

No mês passado, um dos desenvolvimentos mais alarmantes na Europa tem sido o movimento para eliminar as notas de mais elevado valor nominal, as notas de banco, como a EUR 500.

De facto, como relata Bank of America , tendo mudado de opinião sobre o assunto ao longo dos últimos anos, o BCE está agora a ponderar a abolição da nota de EUR 500. Numa entrevista recente, um membro do Conselho Executivo Benoit Coeuré disse que “o BCE está a avaliar o destino das notas de EUR 500, dadas as preocupações existentes sobre a crescente utilização nos mecanismos de lavagem de dinheiro e no crime levantando-se também a questão da sua utilidade para grandes pagamentos em cash”, acrescentando que ” as autoridades competentes suspeitam cada vez mais que estas notas estão a ser utilizadas ​​para fins ilegais, um argumento que não podemos mais ignorar. ” (Como em todos os outros assuntos do BCE, não parece haver aqui lutas internas sobre esta questão também, e, posteriormente, um outro membro do BCE, Yves Mersch, afirmou que o que ele gostaria de ver era a ” prova de que as notas de elevada denominação são utilizadas ​​por criminosos”).

Então, o que, grande coisa, eliminem-se estas notas. As pessoas ainda terão notas de 5, 10, 20, 50, 100 e 200 euros em circulação.

Bem, aqui está a coisa: a nota de EUR 500 é a segunda maior nota em termos de valor nominal no G10, logo a seguir à nota de CHF1.000. Mais importante ainda, o valor total de EUR 500 notas em circulação equivale a EUR 306.8 mil milhões e tem vindo a aumentar.

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Como uma parte do valor do total de euros em circulação, a nota de EUR 500 é a segunda maior, depois da nota de EUR 50.

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Por outras palavras, se do dia para a noite € 307 mil milhões em notas € 500 contas forem eliminadas, o valor nocional de toda a quantidade de moeda física europeia em circulação cairia em 30% para € 700 mil milhões!

E aqui está: embora não se possa interditar do pé para a mão todo o dinheiro europeu a título definitivo, mas estamos confiantes de que o BCE ficaria muito satisfeito se fosse já um terço dele, para começar, enquanto finge estar a lutar contra os crime financeiro, o terrorismo, a corrupção e a droga.

Claro, o que a Europa estaria realmente a querer fazer seria criar o cenário para um ambiente NIRP cada vez mais agressivo, ( NIRP- no interest rate policy ) eliminando as notas de banco central de mais elevado valor nominal, e assim faria com que a negativa evasão dos dinheiro nos bancos se tornasse muito mais difícil e cara (embora certamente favoreça a compra de ouro).

Aqui Bank of America salienta que, a abolição da nota de EUR 500 pode mesmo acabar por enfraquecer a moeda euro. Isto é o que é dito:

“Consideramos que a abolição da nota que representa quase 30% do total de Euros em circulação poderá ser negativo para a moeda, mantendo tudo o resto constante. A parcela das notas de € 500 no valor total de Euros em circulação tem vindo a descer desde 2009 e este facto coincidiu com um enfraquecimento do euro em termos efetivos reais. Este não evidencia uma relação de causalidade, mas não devemos ignorá-lo.

Se estivermos certos, o Euro vai enfraquecer, principalmente em relação ao dólar e ao CHF. O USD é a moeda mais líquida e seria de esperar que vá capturar uma grande parte da queda na procura de Euros como uma reserva de valor. No entanto, o CHF pode também beneficiar, tendo a maior de mais elevada denominação nominal nas economias do G10. Com efeito, a nota CHF 1000 já é muito popular, e representa mais de 60% das notas de CHF em circulação, a menos que o SNB siga o exemplo do BCE e também elimina a nota de CHF 1000.

Talvez não: o EUR certamente não irá descer em relação ao dólar se, ao mesmo tempo que a Europa está a eliminar a sua nota de mais elevada designação nominal, os EUA fizerem o mesmo eliminando também as suas próprias notas “de elevado valor nominal”. Este é o impulso dado pelo membro da Harvard School of Government Peter Sands, que recentemente foi demitido do banco britânico Standard Chartered prisioneiro de uma elevada exposição à China e que está entre as mais altas da Europa).

Sands apareceu na CNBC hoje de manhã cedo a defender a sua “modesta proposta” de que os EUA deveriam eliminar a sua nota de mais elevado valor nominal, os conhecidos Benjamins, porque isso poderia “impedir a evasão fiscal, o crime financeiro, o terrorismo e a corrupção.”

 Ok. Tudo bem, remova-se a nota de USD 100 : seguramente não vai modificar grande coisa.

Errado. Como os dados do tesouro mostram,  $1.08 milhão de milhões de um total de $1.38 milhão de milhões em moeda física dos Estados Unidos existe sob a forma de notas de $100 .

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Por outras palavras, existe agora um muito explícito “balão de ensaio” para incentivar a proibição da nota de banco que é responsável por um gritante 78% de toda a moeda norte-americana em circulação.

Portanto, aqui têm os leitores a verdadeira razão pela qual de repente as notas de banco de mais elevado valor nominal são o alvo: não é por causa dos “traficantes de drogas” e das pessoas que fogem aos impostos as utilizem mas porque entre a proibição da nota de € 500 na Europa e da nota de $ 100 nos Estados Unidos isto significa que 56% de toda a moeda física atualmente em circulação na Europa e nos EUA iria desaparecer.

E tudo em nome da “luta contra o crime”, quando a verdadeira razão é para proteger o cenário NIRP recentemente criado e avançar progressivamente na cadeia e proibir depois outras notas de menores denominações nominais.

Será que esta pressão para se iniciar a eliminação de dinheiro físico vai ter sucesso? Não sabemos, mas pela primeira vez os gregos estão muito à frente da curva. Como relata o jornal Kathimerini “, os cidadãos gregos que mantêm o dinheiro fora do sistema bancário estão a correr em massa para as agências bancárias a pedir detalhes e esclarecimentos sobre os relatos de que o Banco Central Europeu está a planear retirar as notas de 500 euros.”

Com o país já em sete anosa viver numa profunda e continuadas, muitas pessoas optaram por esconder o seu dinheiro em casa, em cofres, em colchões e noutros lugares. Fontes do sector bancário dizem que muitas pessoas optaram pelas notas de 500 euros, porque elas são mais práticas de transportar e de esconder – afinal de contas, apenas 20 dessas notas valem 10.000 euros.

Em 2015 somente na Grécia o volume de depósitos diminuiu em 40 mil milhões de euros, com os bancos a estimarem que pelo menos 20 mil milhões entraram para depósitos e colchões seguros.

Na sequência da difusão da ideia de que as autoridades europeias estavam a questionar se faz sentido ter notas de 500 euros em circulação, muitas pessoas na Grécia – especialmente as pessoas mais velhas – apressaram-se numa corrida aos seus depósitos. O membro do Conselho do BCE Benoit Coeuré falou ontem em favor da retirada das maiores notas, sublinhando que o BCE vai tomar uma decisão nesse sentido em breve.

 

Um novo estudo do Morgan Stanley sobre a Grécia mostrou que 80 por cento das pessoas que retiram os seus depósitos do sistema bancário nos últimos meses não voltaram a depositá-los, com 93 por cento deles a estarem determinados em não o fazer. A sondagem do Morgan Stanley também revela que a confiança no sistema bancário grego continua a ser baixa, com 62 por cento das pessoas a estarem desconfortáveis sobre a colocação de dinheiro numa conta bancária.

Naturalmente, removendo a nota de banco central de mais elevada denominação, toda a Europa estaria a fazer com que se torne muito mais difícil encontrar alternativas em deter nas mãos das pessoas grandes quantias de dinheiro em forma física e, portanto, fora do sistema bancário, onde o dinheiro está prestes a ser tributado com taxas negativas .

Há a questão de saber se esta manobra supostamente inteligente vai sair pela culatra e se, em vez de forçar as pessoas a ficarem sem dinheiro, vai antes levar a uma corrida ao dinheiro do banco, que irá depois ser convertido em mercados preciosos físicos. Os gregos já o descobriram; nós queremos saber quanto tempo vai levar até que a população dos EUA siga o mesmo exemplo.

(continua)

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota II

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