EDITORIAL – Portugal tem culpas na actual crise brasileira?

Embora em tom vincadamente irónico, já ouvimos culpar os portugueses, e a colonização por eles feita, pelo actual clima social e politico vivido pela sociedade brasileira. Falemos descontraidamente, sem crispações, sobre o tema. A crise brasileira tem a ver com o tipo de organização política e com a estrutura social do País. A riqueza dos recursos naturais, convida à corrupção e a pobreza dos logo editorialprincípios éticos que o sistema político permite. 

 A democracia, após a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial, foi-se impondo como sistema universal – democracias parlamentares, repesentivas,a Ocidente, democracias populares a Oriente. Apenas há a registar um pormenor – nem as democracias do «mundo livre», nem as «repúblicas populares» orientais, respeitavam a etimologia. Nem no «mundo livre» havia liberdade, nem no mundo anti-capitalista, o povo contava. Nepotismo, corrupção, repressão, com nomes diferentes já se vê (evangelização, por exemplo), imperavam – imperam de Levante a Poente. A matriz cultural, as expectativas sociais, são muito semelhantes Uma amiga do nosso blogue, indo ao Brasil no âmbito da preparação de uma tese de doutoramento, assistiu a uma aula de  Educação básica do Ensino fundamental, ficou surpreendida por ouvir a professora atribuir os males do país ao facto de a colonização  ter sido levada a cabo por portugueses e não pelos holandeses, por exemplo. Todas as colonizações foram más, cruéis, fazendo imperar a supremacia militar sobre os princípios morais. E as «libertações» foram igualmente más – os heróis que Neruda canta em versos maravilhosos, não foram mais do que crioulos invejosos que cortaram os elos com as metrópoles, continuando a escravizar os negros trazidos criminosamente de África, depois de ter destruído as civilizações autóctones. Um exemplo  – a escravatura foi extinta em Portugal  em 1854 e no Brasil, pela Lei Áurea decretada pela princesa Isabel, em 1888. Há historiadores que defendem a tese que Portugal foi a primeira potência da Cristandade que, em colónias suas, aboliu o tráfico da escravatura e a própria escravidão dos negros: o que foi decretado por El-Rei D. José, em 1773, em relação á Madeira e aos Açores. Porém o que o decreto do Marquês de Pombal fazia era  proibir a entrada de mais escravos na metrópole, procurando encaminhar o tráfico exclusivamente para o Brasil. Para aí tratou Pombal de o intensificar o mais possível e a isso se devem algumas medidas que tomou nesse sentido – as carências de mão-de-obra nas plantações brasileiras e em Minas Gerais assim o exigiam

 Logo na carta que, em 1de Maio de 1500, Pero Vaz de Caminha, o escrivão da Armada de Pedro Álvares Cabral, enviava ao Rei D. Manuel I, dando-lhe conta das impressões sobre a terra que, acabada de descobrir, viria a ser chamada Brasil, há sinais de equívocos que viriam a marcar o percurso histórico de um território que tinha donos e que, achada por portugueses, não tinha que se transformar no «imenso Portugal» em que se converteu. Na carta de Caminha, transparece a ideia de que as diferenças culturais entre europeus e indígenas indiciavam uma superioridade europeia. Porém, o desprezo pelo ouro, revelava uma elevação moral que, 500 anos depois, o mundo em geral não atingiu,

Não queremos com isto dizer que «achado» por castelhanos ou flamengos, o Brasil fosse hoje melhor do que é – o México e a Indonésia, igualmente ricos em recursos naturais, não são exemplos brilhantes. O sentimento generalizado de que a cruz tinha de ser imposta, pela espada, se necessário, pelo evangelho, se possível, era comum aos conquistadores e colonizadores europeus. A colonização do Brasil, longe de ser modelar, foi, no entanto menos má do que outras. Os portugueses mantiveram a sua colónia americana unida, enquanto os colonizadores castelhanos deixaram a sua parte dividir-se em vinte países. Isso parece-nos ser um facto favorável. Mas não houve colonizações boas.

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