A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – VII

Falareconomia1

A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

 4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise

(CONTINUAÇÃO)

7º Dia de diálogo

II.3.2. Uma análise comparada do multiplicador e do divisor de crédito

Lógica do multiplicador: o contributo inicial de 10000 € em notas Banco Central permite ao conjunto do sistema bancário conceder um total de 59880 € de créditos novos sem se estar a refinanciar.

Lógica do divisor: Pelo contrário, se o sistema bancário emitir 5988 de créditos novos aquando de um número N de vagas de créditos, o Banco Central “será levado” a emitir um refinanciamento (moeda central) de 10000, uma vez que k =5,988

Este multiplicador aumenta se as fugas (procura de notas Banco Central por parte do público e as reserva obrigatórios forem mais baixas )

O potencial de criação monetária do sistema bancário como um todo é largamente superior ao de um estabelecimento ou uma rede isolada.

Estes exemplos mostram-nos algo mais. Em situação de crise e por causa do big to fail, ao mínimo rumor os depósitos têm tendência a fugir dos bancos mais pequenos para os maiores, uma vez que o “investidor” se sente aí mais seguro. Mas isto significa que o mercado interbancário deixa de funcionar, e portanto que se introduz a segmentação de quotas de mercado, como no caso 10 e 90 com multiplicadores de crédito diferenciados e fortemente diferenciados. Em período de desalavancagem, de menos recurso ao crédito, este mesmo facto acelera o processo de fuga e portanto sem intervenção estatal de apoio aos pequenos bancos estes tendem a ser eliminados pelo poder dos mais fortes. Iremos pois assistir no quadro nacional a fugas dos bancos mais pequenos para os maiores, à procura de proteção: “to big to fail” é o slogan em vigor. Mas o mais grave será, e já há sinais disso, a fuga dos bancos nacionais, mesmo maiores, para os bancos internacionais e pela mesma razão. Por outras palavras, a situação de crise, o efeito dos rumores e das políticas de austeridade, irá também aqui trazer efeitos terríveis, remodelando a paisagem financeira, devastando o sistema financeiro dos pequenos países e gerando-se depois verdadeiros monstros que ninguém poderá, ou saberá controlar, alimentando-se e alimentando a “City” ao mesmo tempo que pauperizam tudo à sua volta[1].

 

 

Ao reler este texto, hoje 19 de Fevereiro de 2016 não fui capaz de resistir em manter todo o texto na versão de borrão e portanto publico aqui um texto lido hoje sobre o mesmo tema onde a fuga de capitais não é com o medo de que o euro rebente, é com o medo de que com o euro se vá aos seus bolsos, como agora na Itália:

 

União Bancária

A Europa teme os resgates bancários internos : as fugas de capital intensificam-se na Itália, França, Espanha; os bancos alemães são seguros?

Mike Shedlock | Jan 12, 2016

Medo!
O dinheiro depositado no BCE a uma taxa negativa de 0,3% atingiu uma nova alta no início de 2016.

Gráfico I) Montante de moeda mantido no Banco Central Europeu (BCE)

criação monetária - XI

Para incentivar mais níveis de empréstimos, o presidente do BCE, Mario Draghi voltou a cortar na taxa de depósito de dinheiro colocado junto do BCE passando de-0,2% a -0,3% em 3 de Dezembro.

Claramente isto que não funcionou.

Vejamos agora o que se passa quanto aos desequilíbrios no sistemaTarget2, que nos dá uma excelente medida de fuga de capitais de países da zona do euro para outros países da zona euro.

 

Tabela X

TARGET 2: Desequilíbrios em milhares de milhões de euros
País Símbolo Saldo Comentário
Espanha ES -241,8 O pior resultado negativo desde2012
Itália IT -229,6 O pior resultado negativo de sempre
Grécia GR -97,3 O resultado menos negativo desde 2015Q1
ECB ECB -73,8 O pior resultado negativo de sempre
França FR -73,5 -73.5    O pior resultado negativo desde 2011
Alemanha DE 592,5 O mais elevado valor desde 2012
Luxemburgo  LU 1140,4 O mais alto de sempre
Holanda NL 49.4 O mais alto desde Setembro de 2015
Finlândia FI 31,8 O mais alto desde Agosto 2015
Chipre CI 2,4 O segundo mais alto de sempre

Falta da confiança

Target2 representa uma medida da fuga de capitais entre países da zona euro. Por exemplo: um depositante na Grécia, Espanha ou de um banco italiano não confia no seu banco e assim abre uma nova conta e transfere a sua posição líquida para um banco na Alemanha, nos Países Baixos ou, vez disso, no Luxemburgo.
O banco que recebe este depósito coloca então o dinheiro no BCE com taxas de juro negativas em vez de estar a comprar obrigações gregas, espanholas ou italianas.

Os resgates bancários internos, os bail-in, na Europa

Recuemos um pouco e levantemos então uma questão-chave: o que é que faz com que os depositantes fujam em primeiro lugar dos seus bancos?

A resposta é o medo dos bail-ins, das confiscações, dos controlos de capital e das falências dos bancos nacionais como se viu na Grécia e em Chipre.

Os exemplos recentes incluem Portugal e a Itália
Não há procura por títulos italianos

Veja-se um artigo publicado por Reuters Worried Italians Seek to Sell Out of Bank Bonds
“No dia 11 de Dezembro os italianos correram a vender as suas obrigações de bancos italianos na sexta-feira depois do susto que apanharam com as perdas impostas aos acionistas de quatro pequenos bancos que tiveram que ser resgatados no mês passado.

.A Itália salvou Banca Marche, Banca Etruria, CariChieti e CariFe no final de Novembro sob as novas regras da União Europeia que impõe a deslocação dos prejuízos para os investidores quando um banco está a funcionar com graves problemas e retirando a carga do resgate aos contribuintes.

Cerca de 130.000 acionistas e detentores de cerca de790 milhões de euros colocados em dívida júnior viram o valor de seus investimentos saltar, esfumar-se. Foi a primeira vez primeira vez desde os anos 30 que os detentores de obrigações sofreram perdas numa crise bancária. O suicídio de um pensionista que perdeu as suas poupanças no resgate de um destes bancos veio aumentar ainda mais a contestação.

As “pessoas em Itália estão em corrida para vender as suas obrigações bancárias subordinadas” disse Giuseppe Sersale, um gestor de fundos de Anthilia Capital. “Os investidores de retalho assustados pelos protestos provocados pelo salvamento dos quatro bancos estão a tentar vender, mas não há nenhuma procura para estes títulos.”

Nuvens negras e grandes

Os medos crescem dia a dia. E porque não há de ser assim?

Pater Tenebrarum no blogue “Acting Man” escreve The EU Bail-In Directive: Dark Clouds are Gathering, sublinhando dois casos recentes, um em Portugal e outro na Áustria.

No caso de Portugal, obrigações foram retiradas do BES “bom banco” para o BES“ banco mau” eliminando da noite para o dia todo o valor daquelas obrigações quando o BCE descobriu de repente um buraco financeiro num banco que deveria ter sido resgatado em2014.

O Mecanismo bail-in não é o problema.

Tenebrarum escreve (e eu concordo)…

“Em princípio, a BRRD, ou diretiva bail-in ‘, como é também conhecida, é uma ideia muito boa. O facto de se emprestar dinheiro aos bancos de reserva fracionada (bancos de depósitos) ou de neles o depositar , envolve necessariamente riscos que devem ser firmemente estabelecidos . Não se pode pura e simplesmente esperar que os bancos e os seus credores sejam socorridos pelos contribuintes cada vez que estejam em situação de dificuldade. Por outro lado, impondo-se de forma arbitrária um tratamento desigual a classes semelhantes de credores está-se estão involuntariamente a acelerar este processo de reconhecimento

“.
Os bail-ins desencadeiam um grande nervosismo
Este resgate interno está a provocar grande nervosismo. Será que cada depositante espanhol pode confiar nos seus bancos? E os italianos? E os gregos?

Os depositantes dizem cada vez mais não. E os bancos destinatários na Alemanha, nos Países Baixos etc., não querem obrigações de risco naqueles países quando os depósitos são transferidos.

Os desequilíbrios no Target2 estão pois consequentemente a aumentar mês a mês
A escolha é de cada um
Tenebrarum conclui com algumas citações de Ludwig von Mises, que vão direitinhas ao centro da questão. E fá-lo melhor que eu.

“Lamento, mas meninos e meninas, terão que fazer as vossas escolhas. Podem escolher ou ter o capitalismo, a liberdade, a prosperidade e a responsabilidade pessoal, ou alternativamente podem ter o socialismo, a tirania, a pobreza e a “segurança”. Mas a escolha é em alternativa, não podem escolher os dois sistemas.”

São os bancos alemães seguros?

Está aqui uma pergunta importante que aqui vos deixo: está a pensar que os bancos alemães são seguros?

Em caso afirmativo, está claramente enganado. Pense sobre Target2 por uns segundos: Se a Espanha, Itália, Grécia, ou qualquer país sair da zona euro, alguém terá que comer com aqueles desequilíbrios Target2.

Como o BCE afetaria essas perdas?

Os contribuintes, os depositantes, ou os obrigacionistas serão sujeitos a resgates bancários internos diretamente. Alternativamente, o BCE violará o tratado de Maastricht e imprimirá o dinheiro para cobrir as perdas. Nesse caso, o euro será arrasado.

Nada é seguro na Europa.

Veja mais em: http://globaleconomicanalysis.blogspot.com/#T2G5b8

Fim do texto agora inserido.

Um ponto importante a sublinhar na análise que temos vindo a fazer é que na lógica do divisor do divisor de crédito são os bancos comerciais que tomam a iniciativa de uma criação suplementar de moeda. Esta decisão faz nascer uma procura de moeda central que o banco central é suposto satisfazer sem problema, com medo de provocar a crise. Nenhum banqueiro central desejaria ser acusado deste facto. É primeiramente a moeda criada pelos bancos que desencadeia, depois, o recurso à criação de moeda banco central. O divisor caracterizaria antes as economias de dívida onde o emprestador de última instância, o banco central, é forçado a fornecer a liquidez em moeda central que é necessária.

Na lógica do multiplicador, é o banco central que é a causa da criação de reservas excedentárias que vão servir de base à expansão dos créditos. O banco central, via o coeficiente de reservas obrigatórias, tem o poder de desencadear o processo de criação monetária e de modular a sua amplitude. O multiplicador aplicar-se-ia antes às economias de mercado financeiro onde o banco central pode efetuar uma política arbitrária, em que este ultimo banco está, pois, em condições de controlar a massa monetária.

Na prática, as situações são menos distintas do que aqui pode parecer. Ainda que o banco central ratifique as decisões dos bancos comerciais, pode fazê-lo de maneira mais ou menos dispendiosa para estes últimos fazendo variar a sua taxa de refinanciamento, o que pode conduzir os bancos à autolimitarem a expansão dos seus créditos (um aumento da taxa de refinanciamento diminui a margem bancária).

Bom, obrigado por esta lição, diz-nos o aluno. Depois daquilo que me explicaram só me resta dizer-vos que continuamos coladinhos ao texto da disciplina Economia Marxista. Ainda aqui vale a pena, penso eu, apresentar uma outra síntese de um outro excerto de “Le profit et les” crises, à explicação que acabam de me dar :

Entre um banco comercial único e um banco com um só cliente, há toda uma gama de situações intermediárias possíveis, isto é, um certo número de bancos comerciais em que cada um cobre uma parte maior ou menor do mercado, de modo que cada banco pode criar a sua própria moeda escritural ex-nihilo para todo e qualquer pagamento cujo sacador é um seu cliente mas de que o beneficiário não o é, [como se tratou acima com bancos de diferentes partes de mercado] e que não é compensado por um outro pagamento cujo beneficiário seja seu cliente enquanto o sacador o não é.

É desde então claro que quanto maior é o número de clientes mais pequena será a parte dos créditos concedidos para os quais precisa de dispor de moeda banco central proveniente dos seus próprios capitais ou dos seus depositantes ou, por outras palavras mais pequena será a parte por assim dizer onerosa dos seus créditos e maior será a parte gratuita [criação ex-nihilo]. Daí o interesse dos bancos comerciais de se apropriarem, como vulgarmente se diz, da maior parte dos clientes.

(…)

Contudo, qualquer que seja o número dos seus clientes de cada banco separadamente, o conjunto da rede possui automaticamente um potencial de criação de moeda escritural – logo também de moeda ex-nihilo – inversamente proporcional às reservas obrigatórias impostas pelo Banco Central ou pela prudência do próprio banqueiro.

De acordo, foi a nossa resposta.

(continua)

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[1] São conhecidas hoje histórias individuais de gente que coloca as suas poupanças ou em países fora do euro com o medo do euro desaparecer (Noruega ou Suíça, por exemplo) ou nos países centro do euro (a Alemanha, sobretudo) ao abrigo do seu sistema financeiro e até com a ideia de que se o euro rebentar, a moeda alemã subiria!

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Para ler a parte VI deste texto, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, cliquem no link:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – VI

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