A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – X

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A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

 4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise

(CONTINUAÇÃO)

 10ª Dia de diálogo

Os senhores chamaram-me já agora, e também por outras vezes mais, a atenção para um dado importante: Porque não então o Estado substituir-se ao sector privado, uma vez que este está completamente disfuncional, recriando-se assim o ambiente económico favorável à expansão da actividade económica? Porque não utilizar essa capacidade enorme de crédito para a economia real, provocando-se a retoma da economia, passando desta mesma moeda criação ex-nihilo, também dita de moeda negativa, para moeda positiva, moeda de contrapartida à negativa, materializada em bens e serviços que passariam assim a ser produzidos? Não foi assim com o New Deal de Roosevelt?

Grande questão. A resposta, porém, é bem simples. Foi mais ou menos assim como tu dizes com Roosevelt excepto em 1937 quando Morgentau o levou a aplicar politicas contraccionistas. Na Europa desde o rebentar da crise que a lógica do New Deal de Roosevelt tem sido sistematicamente recusada. Optou-se antes pela lógica de Heinrich Bruning ( Alemanha- 1930-32 ) de Pierre Laval (França-1935-1936) de Morgentau ( Estados Unidos –1937-1938), tendo-se assim feito um enorme recuo para os anos 30.. E a via de Roosevelt tem sido sistematicamente recusada porque os alemães não estão interessados, daí a atual arquitetura da União Europeia e da Zona Euro, daí que a terrível lógica dos Tratados esteja a constituir um verdadeiro garrote para os países da periferia que desta forma ficam prisioneiros das Instituições Europeias quando por outro lado se sabe que estas são dominadas pelo poder alemão. A lógica imperial dos alemães levou-os à fragmentação da Europa a Leste e a mesma lógica imperial levou-a a aprisionar os países a sul da Europa, uma lógica que lhe permite ultrapassar vários dos seus problemas: forçar a emigração destes países para a Alemanha, gente jovem capaz de refazer a sua vida e rejuvenescer a população alemã, forçar a criação de plataformas industriais a leste e a Ocidente, criar plataformas para assegurar uma velhice com bons cuidados de saúde e a baixo custo para os seus reformados a sul da Europa, claro está, e em que com a desigualdade na repartição criada na Europa se assegura também a procura dos bens de luxo por si produzidos. Isto significa dizer que a estrutura produtiva na Europa e sobretudo na Alemanha tem sido ela refeita para se adaptar aos dados da repartição do rendimento que o neoliberalismo tem vindo a impor. Mas já agora uma simples nota bem curiosa por referência aos alemães. Falaste do New Deal. Curiosamente na Alemanha, em final de 1932 foi desencadeado um projeto de crescimento e desenvolvimento na Alemanha conduzido pelo primeiro-ministro de então, o General Schleicher. A direita radical alemã de então, os nazis, percebeu os riscos que corria com a aplicação do plano do General: criada uma situação que levaria à saída da crise, então os nazis nunca alcançariam o poder. Viviam do descontentamento da população que era alimentado e ampliado com a crise que se vivia então.

Professor, que tem isso a ver com o nosso tema de agora? Ou será que pela porta do overtrading se entra com o Orçamento como instrumento de política económica? Estou-me de novo a lembra do que sobre o tema escreveu Emmanuel. Digam-me então se a minha pergunta tem sentido. Vejamos o que se escreveu em “Le profit et les crises”:

 “ O Estado crê nas suas receitas e pode legitimamente antecipá-las. É isso mesmo o sentido de orçamento. A este nível de totalização, as aleatoriedades microeconómicas desaparecem. O Estado comporta-se pois como se as despesas previstas fossem independentes das receitas. Abre créditos, faz encomendas, a fornecedores, sem esperar que um montante equivalente e receitas seja materializado. Sendo assim, intervém positivamente na realização da produção e consequentemente contribui ele próprio para assegurar as condições da materialização das suas próprias receitas. Para que este resultado seja alcançado é necessário que o peso específico do orçamento na economia nacional seja significativo e ultrapasse um dado limite. A quantidade transforma-se em qualidade. Mesmo equilibrado, um grande orçamento é ativo na sequência do seu próprio volume absoluto.”

Mas este resultado ainda seria mais significativo no caso de grandes orçamentos e deficitários, a mostrar que a União Europeia podia dispor, se quisesse, dos meios para sair da crise. Com efeito continua o autor:

“ O que importa, é saber se a despesa considerada é financiada por uma parte dos rendimentos criados pela produção corrente, a que se refere a despesa, ou se é financiada por rendimentos externos aos rendimentos gerados à partida por essa mesma produção, que a estes últimos são acrescentados. Uma barragem hidroelétrica ou estações de correios financiados por criação de moeda fiduciária são mais ou menos estimulantes ou mais ou menos inflacionistas para a atividade económica segundo a relação das grandezas em causa, enquanto que uma guerra financiada pelo imposto ou por empréstimos públicos o não é .

Pode-se ver ainda melhor o que acabamos de descrever, que o estímulo da economia por um orçamento em equilíbrio não é a mesma coisa que o estimulo que resulta de um orçamento deficitário. A diferença deixa de ser quantitativa para ser qualitativa. O primeiro, (o orçamento equilibrado) substitui um rendimento variável por um rendimento fixo, um rendimento ex-post por um rendimento ex-ante, um rendimento consecutivo à venda da produção a um rendimento que precede esta venda ajudando-a, estimulando a venda da produção. O segundo, o orçamento deficitário, cria um rendimento extrínseco à produção corrente que se vem adicionar a todos os outros rendimentos criados por esta mesma produção, sejam eles consecutivos à venda da produção sejam eles distribuídos antes da própria produção como rendimentos fixos. ” e assume pois um carácter que pode ser sustentado.

Estás-nos a falar quer antes quer agora com as duas últimas citações s que o Estado se pode substituir aos privados em tempo de crise? Estás-nos a falar da superação da disfuncionalidade dos mercados. Não foi disso que falaste ainda agora? Pois bem, o que acabámos de dizer tem pois muito a ver e muito mesmo com este problema da crise. E o que tu agora reproduzes leva-nos diretamente para o problema de saída da crise, caso contrário corremos o risco de estar a criar as condições de uma tragédia ainda bem maior. Sabes, a história repete-se, repete-se como farsa e depois tragédia, ou como tragédia e depois como farsa, ou ainda como uma dupla tragédia. Olhemos para a Alemanha de 1933 e olhemos para o que se passa agora. Como alguém dizia relativamente a este período:

“É necessário colocarmos-nos na situação de 1931-33. O desemprego atinge 6 milhões de assalariados na Alemanha em 1931 e esperava-se um aumento ainda na ordem de um milhão suplementar no ano em 1932. A esperança que a crise se reabsorveria por si mesma, sob o efeito dos mecanismos estabilizadores do capitalismo, desfazia-se. O mercado está incapaz de se corrigir a si-mesmo. O próprio Keynes deixou de ser “keynesiano”. “O problema número um, declara numa conferência proferida em Hamburgo, é o de evitar uma crise financeira de grande amplitude. Já não é possível atingir um nível normal de produção dentro de um prazo razoável. Os nossos esforços devem ser dirigidos para a realização de objetivos mais modestos. Pode-se prevenir um desmoronamento total da estrutura financeira do capitalismo moderno? Ninguém pode contestar que o problema mais urgente é então o de impedir o fracasso total do sistema financeiro e não o de estimular a atividade industrial. A recuperação da economia virá depois”.

Neste quadro económico e social realizou-se em Setembro de 1931 em Berlim uma conferência secreta para analisar as vias possíveis de saída da Grande Depressão que a Alemanha atravessava e analisar o « plan Lautenbach ». Wilhelm Lautenbach, director no Ministério da Economia alemã propunha um programa de grande trabalhos públicos cujo custo na época era de 1,5 mil milhões de Reichsmarks – deveria ser financiado pelo Banco Central alemão. Este plano opunha-se à politica deflacionista do chanceler Heinrich Brüning.

A intervenção do Estado parece ser indispensável. A pergunta é medir as suas possibilidades de ação, a sua margem de manobra e as suas capacidades de financiamento. “Outrora como hoje, escreveu Braunberger, não é apenas a economia que está em crise mas também a dominante teoria económica [neo]liberal”.

A ideia impõe-se gradualmente que para remediar às insuficiências do mercado, o Estado deve dar o impulso inicial que relançará a economia. É a proposta desenvolvida por Lautenbach na conferência secreta dada na Friedrich List Gesellschaft em Setembro de 1931.

Foi a partir deste plano que o General Kurt von Schleicher queria enfrentar a crise na Alemanha. Por esta via ameaçava fortemente as aspirações de tomada de poder pela direita, sobretudo a direita mais radical, a direita nazi, porque lhe retirava a base da apoio, a do descontentamento popular.

Por favor, professores, esperem, vão mais devagar. Não estarão a exagerar para depois poderem criticar as políticas de austeridade em vigor e impostas pelas Instituições?

Não me parece. Vejamos o que nos diz um dos mais autorizados autores sobre as grandes crises, Bradford Delong, no artigo The Economic Foundations of Peace, relativamente a este período:

“Um dos partidos que Quigley e Clark analizam – o Partido Nacional Socialista dos trabalhadores alemães — tinha apenas 2,6% dos votos nas eleições de 1928 para o Reichstag. Apenas 23 por cento do eleitorado votou quer à esquerda à direita, ou seja, para os partidos considerados marginais com plataformas eleitorais mais ou menos impraticáveis. Cerca de 77 % do eleitorado votou para os partidos entre os extremos de direita e de esquerda, estendendo-se desde a parte do espectro de esquerda, o partido social-democrata SPD, à parte direita do mesmo espectro, para o partido DNVP, partido beligerante e nacionalista da direita.

Quadro II) Eleição do Reichstag de 1928: votos de distribuição

criação monetária - XII

Agora devemos sublinhar que Quigley e Clark não eram nenhuns idiotas. Em 1928, os nazis constituíam uma parte insignificante no espectro político – equivalente a Lyndon LaRouche ou Harry Brown na América de hoje. Havia aqui todas as razões e mais alguma para esperar que o crescimento económico e a recuperação da Alemanha de Weimar iria marginalizar ainda mais a esquerda estalinista de Thaelmann e a extrema-direita de Hitler.

O crescimento económico da Alemanha de 1920 ou de 1924 a 1928 se tem continuado para lá da década de 1930, então nós teríamos tido um mundo bem diferente. Talvez o prefeito de Köln se tivesse tornado o líder do Partido do Centro católico e mantido a grande coligação do centro. E muito provavelmente o primeiro-ministro britânico Stanley Baldwin e Neville Chamberlain teriam respondido muito favoravelmente às solicitações vindas do governo democrático alemão quanto à revisão das condições do Tratado de Versalhes— que tinha deixado a Alemanha sozinha no quadro das Nações da Europa com uma parte muito substancial dos intervenientes a falarem na sua própria língua em territórios ocupados por outros países. Talvez Konrad Adenauer no final dos anos de 1930 tivesse obtido triunfos diplomáticos após triunfos diplomáticos sobre as questões das fronteiras da Alemanha, mostrando-se que a Alemanha poderia fazer amizades e vitórias diplomáticas, através do comércio e da ajuda, em vez de andar a fazer ocupações de espaços e países.

(continua)

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Para ler a parte IX deste texto, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, cliquem no link:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – IX

 

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