A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 5. A MOEDA CENTRAL (3/3) – OU PORQUE É QUE O BCE AINDA NÃO UTILIZOU “A MÁQUINA DE FABRICAR NOTAS” – por OLIVIER BERRUYER – IV

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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A Moeda Central (3/3)- Porque é que que o BCE ainda não utilizou “a máquina de imprimir notas?”

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Olivier Berruyer, 0340 La Monnaie Banque Centrale (3/3) – ou pourquoi la BCE n’a pas utilisé “la planche à billets”

Les-Crises.fr, 16 de Maio de 2012

(CONTINUAÇÃO)

Comentários a esta terceira parte:

(continuação)

8. fujisan

“Esta ligação não é” física “(no sentido de que poderíamos perfeitamente passar sem ela) é ” legal “; a lei e nada mais que ela, exige  aos bancos que concedem  novos créditos que fiquem a dispor de uma pequena percentagem  desse crédito em moeda de banco central.”

Esta ligação  (as reservas obrigatórias)  não é uma questão simplesmente  “legal”. É principalmente uma questão de tesouraria. Há também um aspeto “relação pública” em face dos outros bancos comerciais e dos principais credores. Por prova,  o Banco da Inglaterra não está a   impor requisitos de reservas, estas  são deixadas inteiramente ao critério dos bancos que, na prática, mantêm  3,1% (em 1998) Fonte: Wikipedia

 “MAS esta necessidade é muito limitada! Na Europa, é 1% que é necessário. Por conseguinte com 500 Md€ de moeda central em liquidez excedentária  poder-se-á abrir créditos no montante de  50 milhões de milhões !!!! ”

Ao Reino Unido, é 0% que é necessário. Por conseguinte com 0£ de moeda central, poder-se-á emprestar até ao infinito!!! Viva  o mundo de Mikey!

9. chris06

« Logo com  0£ de moeda central , poder-se-á emprestar até ao infinito!!!”

Não, e pela simples razão de que  os bancos britânicos são supostos respeitarem  os critérios de solvabilidade de Basileia II (de que são  co-signatários) o que faz com  que mesmo com 0£ de moeda central, a menos que se tenham fundos próprios até  infinito, não poderão emprestar até ao  infinito…

10. Moi

“já alguma vez  viu  um banco a recusar conceder  um empréstimo dizendo “lamento, já não tenho nenhum  dinheiro disponível… “?”

Sim, vi-o. Certamente, não o dizem dessa forma e sobretudo não aos clientes. Mas há envelopes para  a concessão de  empréstimos, ou seja um limite e quando este limite é próximo, o banco restringe  os seus créditos. Um banco não tem uma capacidade de empréstimo infinita. É realmente não se saber do que se está a falar quando se diz  isso  e denota pois  uma total ignorância do mundo bancário.

11. KOba

Confesso que efetivamente não compreendo  esta passagem.

Um banco, em geral, empresta o que tem em depósito dos outros clientes. Se o seu rácio crédito-depósitos for superior a 100, é obrigado a recorrer aos empréstimos de outros bancos. Aos ditos investidores institucionais, ditos zinzins,  aos particulares sob a forma de obrigações…)

Certamente que um banco pode ser levado a dizer não. Se já não puder refinanciar-se, fecha as suas portas, se não é a falência.

Ao lado de tudo isso,  há certamente os constrangimentos de moeda banco  central, mais os constrangimentos de solvabilidade  sobre fundos próprios (Basileia II).

Tenha-se presente  que um banco concede empréstimos  a longo prazo do dinheiro dos depositantes e de que dispõe em termos de  curto prazo. Tal como um Estado, faz renovar  a sua dívida de meses a meses, de dia a dia. Se não puder  fazer essa renovação  é o fim da história.

Posso assegurar-vos  que neste momento este é o problema que assusta os bancos. Porque quanto  mais confiança,  mais empréstimos  há dos outros  banco-instituições, caso contrário é, de um dia para o outro,  é a falência.

No Banco X onde trabalho, são obrigados a virarem-se  para os mercados asiáticos para terem  dinheiro fresco e, aí, uma grande pressão,  não  emprestam à três meses  mas apenas à três dias, isto é, se a confiança existe.

É por esta razão que os bancos põem o travão sobre os créditos, mas é verdade  também que as empresas e os particulares não estão demasiado enfartados  de endividamento  devido à crise e também aos prazos políticos.

12. chris06

“Um banco, em geral, empresta apenas o que tem em depósito dos outros clientes.”

Não, não em geral, basta apenas  olhar para os números:

(para a zona euro  – em geral)

Montante dos depósitos dos residentes: 9000 mil milhões

Montante dos créditos concedidos  junto dos residentes: 18.000 mil milhões

Um banco, em geral, empresta o duplo do que tem em depósito dos outros clientes. As outras fontes de financiamento (em geral a metade) são os fundos próprios , o mercado interbancário e os empréstimos a longo prazo (obrigacionistas e outros).

13. Moi

Na verdade, interrogamo-nos porque é que  os bancos continuam a financiar os  seus empréstimos por meio de empréstimos quando eles podem emprestar o que quiserem por uma verdadeira magia.

14. Jean-Baptiste B

« Na verdade, interrogamo-nos porque é que  os bancos continuam a financiar os  seus empréstimos por meio de empréstimos quando eles podem emprestar o que quiserem por uma verdadeira magia. »

Não,  não o pode fazer, esta é uma das principais confusões das teorias monetárias dominantes: o crédito não é  moeda, no máximo é  quase-moeda e, mais especificamente, é um  direito de sacar  sobre  a moeda de tesouraria   do banco que concede o crédito. Da mesma maneira que um cheque de 100 €  não é uma nota de  € 100,  coisa que o cheque sem cobertura prova bem,  o crédito  de  € 100 não é uma nota de  € 100. Se, para os empréstimos que o Banco concede, este  banco tiver de  desembolsar mais euros (notas ou moeda banco central ) do que tem na  sua tesouraria e não os puder obter  então é a falência . E, em seguida, boa sorte para se  recuperar as notas que se  tinham colocado nas nossas contas bancárias (créditos).

Os liberais não compreendem o que é a moeda e querem-na ver como troca directa, com o ouro.   Os  neoliberais também não entendem e querem  que a  quase-moeda que é o crédito bancário suplante a moeda soberana de que se tem necessidade para funcionar. Absurdo, mas progride-se, laboriosamente, para  um reconhecimento do que é a moeda : um ativo, um símbolo universal que é símbolo do valor.

15. P

JBB, o senhor  ainda não compreendeu que toda a moeda  é dívida e que toda a  dívida é moeda  sob a simples condição de ser trocável.  Uma nota não  é nada mais do que  um cheque de  valor pré-impresso e de montante normalizado, um cheque e uma nota são a  mesma coisa,  e só podem ser distinguidos por artifícios jurídicos (por exemplo curso legal ), ao contrário ao que p senhor escreveu.

E quem são os “liberais” e “neo-liberais” a quem o senhor pretende dar lições? Diz? Keynes (a suco puro “liberal”)? Friedman?

16. Jean-Baptiste B

@ P

A moeda bancária é apenas isso. Mas a moeda estatal é diferente: é um crédito sobre impostos futuros. Um cheque de 100 euros podem estar sem cobertura  no momento do pagamento contra a vontade do emitente do cheque. Uma nota de  100 euros não pode estar em incumprimento  junto do Tesouro contra a vontade deste último. A moeda soberana é muito mais estável do que a moeda  bancária. A moeda soberana  é mesmo  indispensável ao funcionamento da moeda bancária  enquanto que o inverso não é verdadeiro.

17. Argent

Muito obrigado por esse último texto que, infelizmente, torna um  pouco opaco o que eu julgava ter já entendido, o que me leva a fazer algumas  perguntas bem  ingénuas.

Eu tinha  entendido  que os 2 circuitos “moeda central ” e “moeda secundária” estão dissociados tendo como únicas passerelles as notas banco central  e os títulos do tesouro . Para usar a sua metáfora, o BCE armazena   maçãs (moeda de reserva) nos hangares dos bancos comerciais, o que não resolve o problema económico porque os hangares das peras  (moeda secundária) estão vazios porque os bancos estão insolventes em moeda secundária. É isso mesmo? Mas então para onde foi  a moeda secundária que  faz tanta falta quer às  empresas quer às  famílias ? Ela está acumulada algures ?

O senhor  escreveu que a moeda secundária (as peras) é criada  praticamente à vontade pelos bancos comerciais tanto quanto as contas dos bancos comerciais junto do BCE estão suficientemente guarnecidas  (as maçãs), o que é o caso com mais razão ainda depois da VLTRO.  Eu compreendo que a crise torna os bancos desconfiados  e eles não estão dispostos a fazer empréstimos (e, portanto, a criar moeda secundária), que pode não ser reembolsada  pelos clientes. Será então que estamos a  sofrer de uma crise de confiança no sistema, que é diretamente mensurável  pela ausência de empréstimos interbancários, ou o senhor acha que há razões estruturais mais profundas?

Por fim,  parece-me existirem  existem algumas frases sem sentido, como por exemplo esta, que eu não entendo: “e o risco do BCE de ter de continuar a emprestar grandes somas – e a prolongar a existência destas  taxas insensatas de  0%…”. ».

18. Chris06

“Um banco não tem  uma capacidade de empréstimo infinita.”

é verdade, mas não parece que seja isto que Olivier quer dizer.

Para um determinado banco (supondo que ele não está em uma situação crítica de insolvência, o que, de facto, tende a ser o caso de um número crescente de bancos que estão apinhados de ativos  tóxicos criados no  passado e se recusam a valorizá-los  a um outro nível que não seja fantasioso, desde que lhes deram essa possibilidade) o principal fator limitativo da sua  capacidade de empréstimo é a procura de empréstimos de clientes solváveis  e para projetos que considere poder  avaliar o risco e poder assumi-lo. .

Tendo em conta que esta procura  solvável  está longe de ser infinita (ao contrário da crença de alguns economistas “brilhantes” que acreditam que as sociedades ocidentais nunca pode ficar sobre endividadas) a capacidade de empréstimo dos bancos está longe de ser infinita e é muito provável que nós já tenhamos atingido este limite de endividamento (países da OCDE dívida pública+ privada dos países da OCDE é > 350%) para além do qual o crescimento da dívida não pode, na melhor das hipóteses, senão estar em torno do valor zero duradouramente  ou ser mesmo negativo.

19. alain21

2 extraits :

“Na verdade, a maioria dos bancos está , na verdade,  insolvente, e eles sabem-no. “

“Enfim, um último ponto  é que os governos exercem  pressão sobre os seus bancos para  que estes lhes  comprem as  suas novas emissões de dívida, como se faz atualmente na Itália ou na  Espanha. Agora, é exatamente o oposto que deve ser feito! Claro que disto  permitiu descer as taxas . Mas não é a função  de um banco agir deste modo  porque se vai assim colocar numa posição de grande risco, emprestando a estes Estados insolventes

Se eu resumir, ligando estes dois excertos, são os bancos   insolventes que emprestam aos  países insolventes.

Eu sinto que este mundo está errado.

Tranquilize-me, e olhe que não sou só eu a pensar assim.

20. Grosrené

Artigo claro (o que é raro) sobre a diferença de  natureza da moeda BCE e a moeda bancária , obrigado! No entanto, tenho algumas perguntas a colocar:

“De facto, a maioria dos bancos estão, na verdade insolventes, e eles sabem disso. (..) A VLTRO irá simplesmente permitir darem-se ao luxo de comprar um pouco de tempo, mas não se faz nada para resolver o problema da solvabilidade dos bancos! “

Como é que podem os bancos estar  insolvente, com a quantidade de dinheiro que lhes tem sido  emprestada? Porque é que a  VLTRO   não regula em nada o problema da  solvência dos bancos?

“Um perigo é que o BCE se encontre na posse de colateral de qualidade muito à volta da média, o que normalmente não é a regra.”

Porque é que é  perigoso (uma vez que o BCE não precisa de se financiar )?

21. chris06

.uma taxa baixa não significa que todos podem ter acesso  a ela .

isto é verdade para as taxa interbancárias, isso é verdade para todos os outros tipos de empréstimos.

Por exemplo, hoje as taxas sobre os empréstimos hipotecários ou dos  empréstimos às empresas  são particularmente baixas, mas se apresentar as garantias necessárias e não for uma empresa ou uma família híper solvente não vai encontrar um banco para o  financiar.

É a mesma coisa  com os empréstimos entre bancos, alguns bancos não têm nenhum problema em se  financiarem  no mercado interbancário, outros são forçados a ir bater aos guichets do BCE.

Não estamos, de  momento, na mesma situação que em 2008, quando nenhum banco, qualquer que fosse, tinha confiança nos restantes e quaisquer que fossem  e as taxas interbancárias subiram de repente para  níveis muito elevados.

22. Roger Raoul

Olivier insiste repetidas vezes que a moeda do banco central permanece em circuito fechado  (aqui fala como Ben Bernanke)

Passo a citar:

“Isto significa que  esta moeda de banco central  não pode ” escapar-se ” do circuito”

Mas, na verdade o senhor reconhece no final do texto  há algumas possibilidades de saída, mas pequenas:

– Os títulos do governo (uma simples palha, com certeza)

A especulação, e eu cito-vos de novo:

“um outro é que os bancos sejam  tentados a utilizar essa liquidez para financiar investimentos especulativos, colocando-se mesmo em situação de  maior perigo (como Jean Peyrelevade explicou )”

Claramente todo o dinheiro emprestado aos  bancos supostamente num  circuito fechado  pode sair  dele, e, além do risco de que o BCE se possa tornar num banco Ban Bank  ainda maior do que o FED.

Por fim, o senhor  diz que não há créatio monetária  mas os seus números mostram que os empréstimos aos bancos na zona do euro aumentou de 510 mil milhões de euros. Assim, um empréstimo não é uma forma de criação de moeda?

(continua)

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Ver o original em:

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Para ler a Parte III de A Moeda Central (3/3)- Porque é que que o BCE ainda não utilizou “a máquina de imprimir notas?”, publicada ontem em  A Viagem dos Argonautas, vá a:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 5. A MOEDA CENTRAL (3/3) – OU PORQUE É QUE O BCE AINDA NÃO UTILIZOU “A MÁQUINA DE FABRICAR NOTAS” – por OLIVIER BERRUYER – III

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