A OUTRA EQUAÇÃO – Por José Fernando Magalhães (11)

 

 

 

À CONVERSA COM A VIDA  8

 

O Admirável Mundo do Anúncio Inclusivo

 

Vivemos, sem dúvida, na era dourada da iluminação social. Que privilégio o nosso, o de podermos finalmente sintonizar a televisão ou abrir uma rede social e testemunhar a redenção da humanidade em blocos publicitários de trinta segundos. Os criadores e pensadores da publicidade actual parecem ter abandonado o velho e cinzento conceito de “vender um produto” para abraçarem uma missão muito mais nobre; a reeducação pedagógica de todos nós.

É um espectáculo fascinante. Longe vão os tempos em que a criatividade se media pela genialidade de um argumento ou pela subtileza de um diálogo. Hoje, a eficácia de uma campanha afere-se pela precisão de uma lista de verificação identitária, aplicada com a delicadeza de um martelo pilão. A diversidade converteu-se num imperativo tão estético quanto obrigatório. Descobrimos agora, maravilhados, que os clássicos da literatura infantil eram, afinal, preconceituosos por omissão. A Branca de Neve e a Pequena Sereia Ariel foram, assim, devidamente actualizadas para que o conto de fadas não perturbe as consciências mais despertas. Nada como o progresso para rectificar o folclore.

Nos filmes de hoje, o quotidiano é de uma harmonia exemplar. Todo o agregado familiar que se preze tem de reflectir, obrigatoriamente, a vanguarda demográfica das redes sociais, integrando casais que celebram a diversidade e a união inter-racial com sorrisos perfeitamente simétricos.

Neste novo éden, o humor também foi gentilmente reformado. O sarcasmo e a ironia, esses velhos e perigosos vícios das gerações mais antigas, foram arquivados no museu da insensibilidade. Compreende-se! A ironia exige o risco de se ser mal interpretado, e o risco é intrinsecamente ofensivo. A ignorância, essa sim, é acolhida com uma tolerância quase evangélica, desde que venha embrulhada nos termos correctos da linguagem inclusiva. O medo de errar na cartilha vigia cada adjectivo. Cada palavra é pesada numa balança de farmácia para garantir que o produto final seja perfeitamente asséptico, neutro e politicamente correcto.

Até a ciência cosmética parece ter-se aliado a esta revolução de costumes, embora por caminhos ligeiramente misteriosos. Os novos anúncios prometem milagres biológicos que desafiam a nossa rotina. Desodorizantes cuja eficácia resiste bravamente durante 96 horas e cremes que garantem 100 horas de hidratação contínua. Ficamos na dúvida se a publicidade nos considera seres superiores ou se, de forma muito progressista, decidiu decretar que a higiene diária passou a ser um acto opcional ou um luxo ecológico do passado. Para bem do olfacto comum, a realidade, teimosamente continuará a sugerir o bom e velho banho de vinte e quatro em vinte e quatro horas… ou conforme as exigências da meteorologia.

O mundo mudou, a linguagem evoluiu e o ecrã tornou-se um espelho de virtudes que nem sempre reconhecemos na padaria da esquina. Assisto a este festival de pureza com um fascínio quase hipnótico, enquanto procuro, discretamente, o botão do comando que diz “Sair”.

A publicidade conseguiu o impossível; convencer-nos de que um detergente pode lavar a roupa, a consciência e até a História, tudo na mesma máquina de lavar.

No meio de tanta virtude e de tanta hidratação garantida por quatro dias, resta-nos a consolação de saber que a sociedade nunca esteve tão limpa por fora… e com tanto medo de pensar por dentro.

 

 

 


ATÉ QUE ENFIM!
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