Entre os precursores do modernismo poético português, Cesário Verde e a sua pouco extensa obra desempenharam um papel a que talvez não se tenha feito a devida justiça. Três décadas após a sua morte, os poetas do «Orpheu» produziram uma poética que, inclusive no caso de Fernando Pessoa, algo deve ao jovem que com apenas um livro publicado teve uma influência marcada na literatura que em português se escreve. O nosso colaborador, o argonauta Álvaro José Ferreira, sempre atento às injustiças que, incompreensivelmente, a rádio – A NOSSA RÁDIO institucional comete, por desleixo ou por deliberada intenção, apresenta-nos este interessante trabalho que tri semanalmente, às terças, quintas e sábados, ocupará o nosso espaço das 19 horas – a sumptuosa poesia dita pelo inesquecível Mário Viegas.
Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»
José Saramago (in “Cadernos de Lanzarote: Diário – IV”, Lisboa: Editorial Caminho, 1997)
Naquele dia das mentiras de 1996, a notícia parecia falsa, mas veio a revelar-se verdadeira. Uma enorme e irremediável perda para o teatro e – não menos importante – para a poesia (na vertente recitada). O próprio Mário Viegas tinha a perfeita consciência de que era na recitação de poesia que residia o seu contributo mais significativo e duradouro para a cultura portuguesa, quando em 1991 analisou, retrospectivamente, o seu percurso artístico: «Se alguma coisa consegui profissionalmente nestes anos todos, isso devo-o aos recitais de poesia, às centenas e centenas de autores que interpretei, aos milhares de poemas que disse, e em que, de facto, não tive concorrência. É como recitador, portanto, que hoje me sinto realizado.» (entrevista concedida a José Manuel da Nóbrega, in jornal “Se7e”, 17.01.1991)
Um dos quatro poetas que Mário Viegas mais admirava era Cesário Verde (os outros três eram: Luís de Camões, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa). É pois do autor de “O Sentimento dum Ocidental”, a pretexto dos 130 anos da morte, que agora apresentamos um bom naco da sua obra, na voz do insigne recitador.
E o que fez a rádio pública portuguesa em homenagem a Mário Viegas? Nas Antenas 1 e 2 não dei por nada. Como explicar a vergonhosa omissão da direcção de programas encabeçada por Rui Pêgo? Pura e simples negligência ou propósito deliberado de apagar a memória de Mário Viegas? Absolutamente imperdoável!
