A NOSSA RÁDIO – «Cesário Verde dito por Mário Viegas/1» – por Álvaro José Ferrreira

José Saramago (in “Cadernos de Lanzarote: Diário – IV”, Lisboa: Editorial Caminho, 1997)

Naquele dia das mentiras de 1996, a notícia parecia falsa, mas veio a revelar-se verdadeira. Uma enorme e irremediável perda para o teatro e – não menos importante – para a poesia (na vertente recitada). O próprio Mário Viegas tinha a perfeita consciência de que era na recitação de poesia que residia o seu contributo mais significativo e duradouro para a cultura portuguesa, quando em 1991 analisou, retrospectivamente, o seu percurso artístico: «Se alguma coisa consegui profissionalmente nestes anos todos, isso devo-o aos recitais de poesia, às centenas e centenas de autores que interpretei, aos milhares de poemas que disse, e em que, de facto, não tive concorrência. É como recitador, portanto, que hoje me sinto realizado.» (entrevista concedida a José Manuel da Nóbrega, in jornal “Se7e”, 17.01.1991)
Um dos quatro poetas que Mário Viegas mais admirava era Cesário Verde (os outros três eram: Luís de Camões, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa). É pois do autor de “O Sentimento dum Ocidental”, a pretexto dos 130 anos da morte, que agora apresentamos um bom naco da sua obra, na voz do insigne recitador.
E o que fez a rádio pública portuguesa em homenagem a Mário Viegas? Nas Antenas 1 e 2 não dei por nada. Como explicar a vergonhosa omissão da direcção de programas encabeçada por Rui Pêgo? Pura e simples negligência ou propósito deliberado de apagar a memória de Mário Viegas? Absolutamente imperdoável!

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