EDITORIAL – NA MORTE DE QUERUBIM LAPA

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Na passada segunda-feira morreu o pintor e ceramista Querubim Lapa. Tinha 92 anos. Foi com outros artistas plásticos – Vespeira, Abel Manta, Pomar, Estrela Faria… – um pioneiro da modernidade, ajudando a arrombar a porta da recusa burguesa da arte moderna, obra que Almada,  Souza-Cardozo, entre outros, tinham iniciado décadas antes. Lapa conseguiu algo de muito difícil: que a sua arte fosse aceite sem que para tal tivesse de atraiçoar os seus princípios. Numerosas obras suas estão integradas em projectos de natureza oficial. Almada Negreiros foi um dos principais artistas plásticos presentes na Exposição do Mundo Português. E não era um homem afecto ao regime salazarista. Mas a sua arte era ali necessária…

No ensaio  «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), um humanista austríaco, diz: «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Com o advento do capitalismo, pela primeira vez na história das civilizações há uma classe dominante que não procura colocar a arte ao seu serviço. O artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade; esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. É uma liberdade que o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro e onde tudo é mercadoria. Lapa, tal como outros, venceram pelo talento e forçaram o inimigo a aceitar uma estética que não lhe agradava.

Diz Fischer: «O artista no capitalismo, encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a distrair.

É um avanço o  artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais. Querubim Lapa conseguiu, sem se trair, ser aceite ou pelo menos tolerado por quem lhe era hostil.  Entre artistas, críticos, galeristas, era reconhecido seu enorme valor.

2 Comments

  1. Que a Viagem nos mostre fotos de obras de Querubim Lapa. Principalmente aos que moram além-mar e nunca tiveram oportunidade de conhecê-las.
    E que o livro fecundante de Ernst Fischer jamais seja esquecido.
    abraço

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