«CANTAR DE AMIGO» – EM MEMÓRIA DE SÍLVIO CASTRO* – por Carlos Loures

Pois, caro sílvio, esta língua em que falamos

(disse-o bernardo com o acordo do fernando),

 é pátria onde cabe a primavera num sintagma,

e a fronteira que sonhamos estar por perto

e nos separa do território incerto onde por vezes

 a vegetação é frondosa, exuberante, e as águas

correm caudalosas, rios fecundos, transbordantes

 rios que são as veias ardentes de outros mundos.

.

A raia que do sonho nos divide, já está perto,

mas quando passamos a linha que nos separa,

dessa mágica nação, encontramos um deserto,

 uma folha em branco e a rara floresta verdejante:

é um baldio que o labor dos poetas canta e  lavra,

há por perto névoas que se diluem em poemas

e no magma dos vulcões que imaginamos,

em cálidos fonemas, nasce um diamante – a palavra.

 

Esta língua, a que falamos, nasceu em terras

de martin codax e de florbela. Como um riacho,

ganhou caudal e foi rio, veio por gil e por fernão até à foz

desaguou com luís vaz no oceano imenso,

aportou mundo adiante – aqui a temos feita voz-

povos distantes que falam e escrevem como nós

e negoceiam com moedas raras e bizarras

trocando tambores e adufes por guitarras.

 

Passa como nuvens por vogais abertas,

 jardins de consoantes,  poemas que são fontes

neblinas matinais que se dissolvem

em onomatopeias, sons vocálicos, gritos

que ressoam em vilas e aldeias, percorridas

por mercadores de moedas estranhas

que sonham com florestas exuberantes

e acordam em paisagens aberrantes.

 

Troca-se um cozido por uma feijoada ou por um samba,

o xaile de alfama está em paridade com a capulana,

uma muqueca vale uma morna ou uma muamba,

um batuko ou um kizomba podem ser trocados

por um fandango, uma chula ou por dois fados.

um alalá galego está hoje pelo valor de uma coladeira,

uma amendoeira custa três papaias ou duas mangas

 mantilhas e lenços estão pelo preço das missangas…

 

E, saudoso sílvio, estes versos (insanos) dão-te razão:

A literatura brasileira , a portuguesa ou a são-tomense,

nasceram na galiza vai para mil anos, todas de uma vez.

O amor de um pedro português por uma galega inês

posto em versos de luís vaz, vale pela bandeira

da ditosa pátria nossa amada – a língua em que rosa

só pode ser a flor que à rosa cheira e amor

só pode ser amor (mesmo que se não queira).

 


  • Nota- Em data que não consigo precisar (meados dos anos 90), com uma reunião de trabalho em Alcobaça, com o Doutor José Afonso Furtado, na altura director da Biblioteca do Mosteiro e tendo necessidade de reunir com os Professores e amigos Sílvio Castro e Manuel Simões para trocarmos impressões sobre a edição de uma História da Literatura Brasileira, combinámos que iríamos os três, almoçaríamos em Alcobaça, falaríamos sobre a obra e eu faria a minha reunião na biblioteca. Chegámos cedo e, num restaurante perto do mosteiro ficámos numa mesa junto de uma ampla janela de onde se via a fachada do monumento. Encomendámos um cozido à portuguesa, vinho da região, o dia estava bonito e fui tomando apontamentos preliminares – um esboço da estrutura da obra que prevíamos que ocupasse três volumes compactos. Mas logo surgiu uma primeira divergência – que data ou obra marca o início da literatura brasileira? Com o Manuel a manter alguma neutralidade, o Sílvio era peremptório – a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D, Manuel. Para mim, antes de haver Brasil, não havia literatura brasileira, mas colonos portugueses que escrevam em S, Salvador, como o podiam fazer em Lisboa ou Braga. Claro que a politica da editora era dar toda a liberdade ao autor ou director (a não ser que a sua opção prejudicasse a edição) e Sílvio Castro organizou a obra como melhor entendeu. Mas tornou-se uma discussão recorrente entre nós, com Sílvio a emitir as suas gargalhadas roladas, silenciosas, intermináveis, quando eu emitia provocatórias opiniões -«a literatura brasileira começou a ter existência em 7 de Setembro de 1822» Quando, meses antes de o Sílvio falecer, almoçámos ao três, mais a Anna Rosa e a Helena, na «Casa Pessoa», na Rua dos Douradores, fazia eu intenção de encerrar a polémica iniciada vinte anos antes em Alcobaça, mas não tive ocasião de o fazer – após a morte do nosso querido amigo, esbocei um longo poema -«Entre Alcobaça e a Rua do Desassossego». As oitavas não publicadas referem o trágico amor de Pedro e Inês. Um dia publicarei essa primeira parte.

 

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