GIRO DO HORIZONTE – DURÃO BARROSO – por Pedro de Pezarat Correia

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            “A Revista do Expresso” deste último fim-de-semana brinda-nos com uma longa entrevista com Durão Barroso, aliás seu tema de capa. Não há ali nada de novo, mas é importante porque o que está escrito foi dito na primeira pessoa. É isso que ressalta da conversa, uma conceção da política na primeira pessoa, centrada em si próprio, no seu protagonismo, no seu percurso, na sua carreira, na sua ascensão. Entra na política pelos setores mais radicais do MRPP (fase que é prudentemente omitida na entrevista, dispensando assim a referência às suas posições “delirantes”, termo que utiliza a despropósito numa breve alusão ao Bloco de Esquerda), manda às malvas os seus arroubos esquerdistas de juventude e transita para o PPD-PSD, partido que conferia boas perspetivas às suas visíveis ambições poder e, através dele, é secretário de estado, ministro, primeiro-ministro, cargo que abandona quando lhe surge a irrecusável oportunidade de promoção ao chorudamente remunerado cargo de presidente da Comissão Europeia, que por sua vez lhe escancara as portas para um risonho fim de vida ativo a transmitir a sua acumulada experiência e para beneficiar dos grandes negócios europeus. Confessa o entrevistado que, para si, a política é instrumental. Pois é, a política foi o eficaz e recompensador instrumento de uma venturosa carreira pessoal gerida com detalhe. Para este político profissional os princípios e os fins que nortearam a sua política chamam-se Durão Barroso.

            Os seus elogios vão todos para o PSD, Cavaco Silva, Passos Coelho e, agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Quanto ao governo de Passos Coelho, de quem afirma ter ficado com uma grande admiração, recorre ao estafado argumento de que as políticas foram boas, o que foram é mal explicadas, o povo não entendeu as suas virtudes e benefícios, o problema foi de comunicação. O governo não terá sido suficientemente hábil a enganar os portugueses. Quando a pergunta é incómoda sacode a água do capote: “pergunte a Portugal (?), às autoridades portuguesas, às autoridades reguladoras, a responsabilidade é do Banco Central Europeu”.

            O ponto mais importante e mais negativo da entrevista, em geral inócua, mas que ao contrário dos outros temas, não foi suficientemente confrontado pelo entrevistador, foi o da Cimeira das Lages, onde foi decidida a guerra de agressão ao Iraque, em Maio de 2003, pelo tandem Bush-Blair com o apoio da dupla de peões Aznar-Durão e a vergonhosa hospitalidade deste último que era primeiro ministro de Portugal. Estão a completar-se 13 anos sobre essa data negra da história do envolvimento do Ocidente no Médio Oriente.

Durão Barroso desculpa-se com documentos que lhe terão sido apresentados, os quais diziam que havia armas de destruição maciça (ADM) no Iraque. É a segunda mentira (já aqui no GDH tenho chamado a atenção para isto mas não me escuso de o repetir as vezes que for necessário), porque o que Durão Barroso afirmou, de regresso de Washington (aliás como dias depois repetiria o ministro da defesa Paulo Portas), não foi que lhe tinham dito que havia provas, foi que ele próprio tinha visto provas, eu repito, que tinha visto provas da existência de ADM no Iraque. Foi a primeira mentira aos portugueses nesta matéria, pois nunca poderia ter visto provas de uma coisa que não existia, mentira dolosa para legitimar o envolvimento de Portugal numa guerra de agressão sem cobertura das Nações Unidas e sem o aval da União Europeia. Mente agora pela segunda vez, afinal já não lhe tinham mostrado provas das ADM mas apenas entregue documentos que diziam que havia ADM, para se justificar pela fraude em que se envolveu. E tem o desplante de dizer que o fez porque na altura era do interesse nacional português! Do interesse português alinhar numa guerra de agressão ilegítima à luz do direito internacional? Do interesse português participar numa anunciada estratégia de construção de um novo mosaico político no Médio Oriente inevitavelmente votada ao fracasso? Do interesse português contribuir para o caos que viria a instalar-se e a radicalizar-se até aos extremos no Médio Oriente, aqui às portas da Europa, criando condições para o avanço da Al Qaeda, para a formação do Daesh? Qual o sentido que Durão Barroso tem do interesse nacional português?

Confessa que depois vieram a verificar que as coisas não correram bem. É uma análise carregada de equívocos. O problema não reside em as coisas terem corrido bem ou mal. O problema é que as coisas nunca poderiam ter corrido bem, porque foi uma decisão baseada em fatores de decisão viciados, em preconceitos subjetivos, em informações inventadas, manipuladas, falsificadas e visando objetivos escondidos. E, porque as coisas não correram bem, afirma que «Honestamente, tenho de dizer que, se fosse hoje, não teria tomado a mesma decisão.» Eu diria que esta não é apenas uma afirmação desonesta, é uma declaração patética. Uma decisão nunca é tomada com base no que veio a acontecer depois e se desconhecia quando se decidiu, porque nenhum decisor tem o dom da adivinhação. E, afinal, não diz Durão que era do interesse nacional português? Então se o era, porque haveria de decidir doutra maneira? O que ele tem de reconhecer é que sabia que não o era e que, portanto, decidiu conscientemente contra o interesse nacional.

Por fim mete os pés pelas mãos, procurando envolver o presidente da República Jorge Sampaio na decisão, o que este já desmentiu mas que nem era necessário pois foi o próprio Barroso que, na altura, afirmou que a decisão coubera exclusivamente ao governo e ainda nos lembramos dos melindres que na altura este incidente gerou entre os dois órgãos de soberania. A verdade é que quanto mais Barroso e Portas mechem neste problema, do qual se esquivam sempre que podem, mais se atolam no lamaçal.

Quando se refere, na entrevista, ao atual drama dos refugiados que demandam a Europa, foge à questão essencial das suas causas profundas, exatamente a forma desastrada como o Ocidente, os Estados Unidos e a União Europeia a cuja Comissão viria a presidir, têm interferido no Iraque, na Síria, na Líbia, na Palestina. Durão Barroso ficará na história ao lado, se bem que em retrato menor, de George W. Bush e de Tony Blair. Não lhe invejo a companhia.

            Numa coisa Durão foi certeiro. A apontar o dedo a Chirac, presidente francês e a Schröder, chanceler alemão, que depois de terem liderado dignamente a oposição da União Europeia à funesta aventura no Iraque, vieram paradoxalmente a apoiá-lo (a “pedir-lhe”, enfatiza Barroso) para presidir à Comissão Europeia.

            São as contradições de uma União Europeia que tarda em saber o que é e qual o seu papel no mundo que se pretende globalizado.

9 maio 2016

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