CONTOS &CRÓNICAS – «No plaino abandonado um poeta cercado – a memória da guerra colonial na poesia de Fernando Assis Pacheco»(1)Margarida Calafate Ribeiro*

 *King’s College – Londres – Praxis XXI-

Fernando Assis Pacheco nasceu em 1937, em Coimbra, onde apaixonadamente viveu, estudou, fez teatro e publicou os seus primeiros poemas1 e morreu em 1995, em Lisboa, numa livraria cumprindo o seu hábito de procurar pelos livros as palavras com que nos ia oferecendo o seu mundo. Teve como “profissão dominante” o jornalismo e foi poeta e ficcionista nas horas que pediu emprestadas ao jornalista. A sua poesia, tecida numa grande atenção ao quotidiano e marcadamente autobiográfica2, revela-nos o percurso de um homem sensível ao longo de uma vida cheia de episódios marcantes que encontraram na palavra poética o seu lugar legítimo de registo. Um deles, talvez o mais marcante e a que o poeta sempre volta nos trinta anos de trabalho poético, foi o da vivência da guerra colonial em África (Angola), onde esteve de 1963 a 1965. Foi dos primeiros poetas a escrever sobre a guerra colonial – “Perdi ao sprint para o António Salvado, que publicou um poema no Diário de Notícias3 – dizia por piada, mas quem sabe com alguma mágoa, e teve como companheiros de arte, ideias e sentimento José Bação Leal e Manuel Alegre entre alguns outros poetas que trouxeram até à então metrópole o grito contra uma guerra sem sentido4. Viveu sempre “ao lado” no sentido positivo da marginalidade. Em Coimbra, na guerra, na poesia, na maneira como editava os seus livros, no próprio jornalismo, apesar de ter sido seguramente um dos mais brilhantes da sua geração, foi, como a sua “Musa”: “irregular”, ou seja, e de acordo com o saber catalogado nos dicionários, não obedeceu a regras5. Esta era, como disse na sua auto-entrevista ao Jornal de Letras, a sua “estratégia de sobrevivência”6.

Cuidar dos Vivos, publicado em 1963 como livro de estreia do autor na colecção “Cancioneiro Vértice”, revela uma poesia marcada pelo gosto pela vida e a vivência da paixão e do amor, com que se filtra os dissabores e se ilumina as sombras da vida, preenchendo assim o lado solar da realidade.

“Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo da escuridão do mundo.”7

Mas há um lado lunar da existência que vai invadindo a juventude e o amor que neste livro se celebra, e que se revela nos poemas como uma “sombra” que pairava sobre a vida destes jovens, ligada a uma atmosfera de bloqueamento triste e de violência associada à inevitabilidade da experiência da guerra que invadirá o amor, a vida e o próprio tecido textual. A finalizar Cuidar dos Vivos temos uma secção intitulada “Versos que o Autor Mandou de Nambuangongo ao Editor”, inicialmente parte da correspondência que Assis Pacheco mantinha com o seu pai, e intitulada na primeira versão de Cuidar dos Vivos como “Nambuangongo, Junho de 63”8. Nela encontramos “o poeta cercado” nos terrenos da guerra em Angola, de onde envia cartas-poemas-notícias do bloqueio, contendo “um silêncio aflito”, “um pavor colado à garganta”, falando de “tiros junto à noite”, de “um rio que não corre” e de um veneno “que me envenena”. De lá em “linhas de angústia e solidão” lança “o fraco apelo” de um “coração posto de rastos”9, anunciando deste modo a expansão das coordenadas de um cerco que começara em Portugal, na velha e vigiada Coimbra, e que se alargava e ganhava contornos até então desconhecidos em Angola10.

Próximos no tom intimista e na expressão temática estão os poemas de 1972, Viagens na Minha Guerra, numerosos poemas de “Lote de Salvados”11 e principalmente de Câu Kiên: Um Resumo, conjunto de poemas onde a nomenclatura vietmanita disfarçava habilmente os matos angolanos em que a guerra se desenrolava12. Esta analogia, desvendada em 1976 com a publicação de Catalabanza, Quilolo e Volta em que os topónimos e vocabulário vietnamita de Câu Kiên: Um Resumo são substituídos pelos originais angolanos, constituirá também o pano de fundo da noveleta Walt ou o frio e o quente (1978), desenvolvimento de um texto em prosa, intitulado “Uns Gajos Parados à Beira Rio”, escrito após o regresso da guerra, mas nunca publicado13. Se é sem dúvida em Assis Pacheco que encontramos a mais profícua e eficente aproximação dos dois conflitos, esta era uma forma geracional, como o poeta fazia questão de sublinhar, de falar de Angola falando do Vietname ou de Hiroxima14. Disto são exemplo as colectâneas Hiroxima e Vietname, organizadas por Carlos Loures e Manuel Simões e publicadas respectivamente em 1967 e 1970, Vietname: Em Nome da Liberdade, de Casimiro de Brito, publicado em 1967, a tradução para português de várias obras sobre o Vietname e vários artigos da imprensa da época, onde jornalistas e intelectuais portugueses depunham sobre o conflito15. Nestes, como noutros textos, alguns escritores falavam, como Assis Pacheco, dos americanos e dos vietnamitas e nas entrelinhas, de nós e dos africanos no mato e na guerra e ao fazê-lo, numa primeira mão por motivos ligados à censura, colocavam simultânea e subtilmente a guerra colonial portuguesa numa situação universal ao aproximá-la do conflito americano no Vietname.

(Continua)

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