
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Abidjan, Ankara : os atentados em rede
Michel Lhomme, politólogo, Abidjan, Ankara: les attentats en boucle
Revista Metamag, 14 de Março de 2016
Não fazer reflectir as pessoas!

Os atentados terroristas são terríveis mas pior, talvez, é a manipulação mediática que eles levam a desencadear imediatamente e que, de resto, é mais ou menos planificada pelos seus comanditários. O que é terrível na criação em rede dos atentados terroristas, é o que encontramos no dia seguinte ou no mesmo dia até na opinião comum, quero dizer, a das entrevistas de rua e dos media .
Digamo-lo de imediato, não há aqui nada a ver entre os atentados de Ancara e os de Abidjan, como os de Allah Akbar de AQMI não são comparáveis às psalmodias sangrentas de Daesh. O horror é universal, mas não a sua explicação. Ora, o que se exige como deontologia mínima de qualquer leitor dos acontecimentos sejam eles atrozes atentados terroristas, é a decência não o estar a amalgamar tudo. Não há nada a ver entre a resistência curda face à ofensiva turca na Síria e a afirmação de certo pan-africanismo e costa-marfinense sob o olho secreto ou talvez aqui mal intencionado de Moscovo.
No momento do ataque de Costa de Marfim, o Museu nacional do Fato de Grand-Bassam, instalado no antigo palácio do governador, não distante do hotel Koral Beach, recebia uma delegação americana oficial acompanhada por um diplomata da embaixada dos Estados Unidos em Abidjan. A comitiva do diplomata americano pôde deixar a cidade pelas 17 horas locais sem estar a lamentar vítimas porque estava coberta por uma segurança máxima (forças especiais) que a acompanhava. Estava por conseguinte fora de alcance de um comando que vem pelo lado do mar mas era sem dúvida ela que era intencionalmente visada.
O ramo mediático de AQMI reivindicou no domingo à noite o ataque da praia de Grande Bassam e o grupo jihadista, antiga nebulosa argelina financiada pelo Catar, evocou apenas três assaltantes, enquanto que as autoridades costa-marfinenses falaram de seis terroristas. Com efeito, o ataque foi reivindicado por Al Mourabitoune, Al-Qaïda Jihad na África do Oeste, um grupo armado salafista do Sahel nascido em agosto de 2013 da fusão do MUJAO e dos Signatários pelo sangue cujo emir tinha aderido oficialmente à Al-Qaïda no Maghreb islâmico (AQMI) a 4 de Dezembro de 2015. Utilizaram o mesmo plano de ataque que em Sousse na Tunísia, os atacantes chegaram pelo lado do mar (ver o testemunho de príncipe Charles-Philippe Orléans[1]) e dispararam aleatoriamente sobre a multidão, uma multidão mediaticamente escolhida dado que composta de expatriados em fim de semana na praia neste período de canícula.
O acontecimento agita a África porque a Costa de Marfim ainda não tinha sido atingida pela violência islamita enquanto, contudo, era considerada há muito tempo como um alvo pelos grupos jihadistas. Estava de resto em estado de alerta reforçado desde o ataque de Ouagadougou no Burkina Faso em Janeiro, que tina feito trinta mortes.
Para analisar o acontecimento, seria necessário sem dúvida voltar a analisar as rivalidades dos gangues mafiosos que reinam na zona, a concorrência Daesh com a marca Al Qaida mas também – é o mínimo recomendado – reconsiderar, parece-nos, a evicção e o aprisionamento de Gbagbo em 2011, “o Plano de transição” de Guillaume Soro com base no regresso de Gbagbo e Blé Goudé, a proposta de reconciliação nacional que finalmente levou ao compromisso do regime Ouattara e à sua reeleição brilhante a 25 de Outubro de 2015.
Estávamos a entrar pouco a pouco num processo de reconciliação nacional, processo sempre muito difícil na África. O governo acaba de resto de anunciar a libertação de 70 prisioneiros pro Gbabo à maneira de apaziguamento nacional. Alguns, obviamente, não desejam talvez esta reconciliação? Quem é que tem por conseguinte interesse em desestabilizar a Costa de Marfim? Tenhamos presente que o ano 2016 é um ano teste para a África, um ano eleitoral particularmente denso com por exemplo as eleições presidenciais da Chade em Abril e que cada um, ou seja, os Estados Unidos, a Rússia, a França, a China, a Turquia procuram pôr os seus peões sendo que às vezes é difícil, como no Médio Oriente, ver perfeitamente claro sobre um fundo de resto de uma nova estrada da cocaína mundial. Não caiamos contudo na hipótese, uma vez mais, de um atentado islamita primário.
Eleições em África

O símbolo azul significa eleições regionais, o vermelho representa eleições presidenciais e o verde representa eleições legislativas.
Horror em Ancara
Em Ancara, “o balanço provisório do atentado de automóvel armadilhado ocorrido domingo numa paragem de autocarro agravou-se para atingir agora 34 mortes e 125 feridos”, declarou o ministro turco da Saúde, Mehmet Müezzinoglu. Ainda uma vez, que seja Jerusalém, Abidjan, Ancara ou Paris, as imagens de atentados serão sempre as mesmas: autocarros calcinados, feridos por terra a agonizarem, corpos em sacos de plástico, salvadores em dificuldade a verem-se por todo o lado.
Este novo drama turco verifica-se mais de três semanas depois de um atentado suicida com automóvel armadilhado reivindicado por um grupo dissidente do Partido dos trabalhadores do Curdistão (PKK, separatistas curdos) que teriam visado, no centro de Ancara autocarros que transportavam pessoal militar e que fez 29 mortes. Este último ataque tinha sido reivindicado pelos Falcões da liberdade do Curdistão (TAK) mas o que ocultavam os meios de comunicação social fazendo sistematicamente da Turquia uma vítima, é que este atentado respondia verdadeiramente a uma escalada turca na batalha de Alepo que tínhamos já analisado. O TAK então tinha anunciado novos ataques próximos, nomeadamente contra os sítios turísticos turcos.
Este atentado é ele um exemplo? Digamo-lo claramente, a Turquia está em fase “de expansão rampante” para além da sua fronteira. Está em fase de expansão na Síria certamente mas também no Iraque, na Europa e na África. A Turquia, pedindo ao mesmo tempo que as posições dos Curdos não se reforcem na Síria, vem assim clamar o seu direito soberano de criar espécies “de zonas de segurança” sobre o território sírio como reclamará já tais posições pelo menos económicas numa Europa vacilante e esmagada.
Ora desde Fevereiro, a artilharia turca bombardeia com meios pesados as posições dos YPG que são os verdadeiros combatentes contra o Daesh, na Síria. A Turquia é membro da NATO, apoia o Daesh na Síria e controla os fluxos migratórios europeus. Um atentado é sempre cruel mas primeiro e sobretudo um atentado é um ato de guerra ou de resistência, de ofensiva ou de contra-ofensiva. Não apela à emoção do medo mas a uma análise fria e detalhada do acontecimento, ao esclarecimento dos partidos interessados quando estes estão muito frequentemente confusos, neste início de terceira guerra mundial onde todos os mapas geopolíticos são chamados a serem redesenhados: grande califado ou grande Médio Oriente, África russo-chinesa, panafricana ou americana, Europa muçulmana, ou em todo o caso multicultural e mestiçada ou Europa das Nações e dos povos.
Michel Lhomme, politólogo, Revista Metamag, Abidjan, Ankara : les attentats en boucle, texto disponível em:
http://metamag.fr/2016/03/14/abidjan-ankara-les-attentats-en-boucle/
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