BISCATES – OS MALEFÍCIOS DO TABACO – por Carlos de Matos Gomes

biscates

As imagens chocantes nos maços de tabaco são a nova moda contra os malefícios do tabaco. Na realidade, os pulmões negros, os rostos cadavéricos, os esgares moribundos deviam alertar-nos para o sistema, esse sim chocante que produz aquelas imagens. Aquelas são as imagens da lei do lucro que rege a sociedade que as estampa nos maços do tabaco. Em vez de pulmões a desfazerem-se como esfregões, de cadáveres adiados, o sistema devia, mas não pode, claro, publicar fotografias de Wall Street, da City, dos arranha-céus de Pequim. Isto porque todas as grandes tabaqueiras oficiais estão cotadas nas grandes bolsas e todas as que promovem o tabaco contrafeito e de contrabando estão associadas a grandes fortunas na China, por exemplo.

As fotografias chocantes fazem parte da luta pela hegemonia entre o império instalado, os Estados Unidos e satélites europeus, e os impérios emergentes dos BRICS. As fotografias chocantes são parte do processo de globalização, que é um heterónimo para referir a fase atual do capitalismo.

É evidente que o tabaco é causa de elevado número de mortes, muitas vezes acompanhadas de sofrimento atroz, mas nunca o sistema, isto é, os impérios, estiveram preocupados com as mortes que as suas acções provocavam, quando estava em causa o domínio de uma região, ou o lucro das empresas. Os impérios ibéricos nunca se preocuparam com as mortes que as suas doenças provocaram nas populações índias da América do Sul, o sarampo, entre outros, que dizimaram povos inteiros, nunca estiveram preocupados com os sofrimentos da escravatura. O império britânico até desencadeou uma guerra para impor o consumo do ópio na China. O império americano nunca se preocupou com as mortes causadas pelo lançamento de desfolhantes sobre as florestas do Vietname.

As imagens chocantes que uma parte do mundo está a colocar nos maços de tabaco vendidos aos seus cidadãos não têm a ver com a moral. Têm a ver com a recomposição de “áreas de negócio” nos países economicamente desenvolvidos do Ocidente. Na Rússia, China, ou na Índia, na América Latina ou em África as populações podem continuar a fumar à vontade sem imagens chocantes a perturbá-los. Ainda não atingiram a fase em que os “malefícios do tabaco”, um magnífico monólogo de Tchekhov, impõem a transferência do seu comércio para outros ramos do negócio. A sua morte ainda não interfere com a economia dos seus países.

As imagens chocantes querem dizer que, no Ocidente, a morte pelo tabaco deixou de ser lucrativa, que perdeu (em economês) competitividade e atratividade, relativamente a outros sectores. A aliança dos governos e dos sectores privados que deu origem a esta campanha de choque surge porque a morte pelo tabaco se tornou demasiado cara quer para as companhias privadas de seguros de saúde quer para os sistemas públicos. Os doentes de cancro causado pelo tabaco são dos mais caros e como o cancro do pulmão é hoje em dia praticamente incurável, não promove o lucro das farmacêuticas. Só prejuízo! Estamos perante o mesmo problema que a massificação do uso do automóvel causou, com as mortes e os feridos a diminuírem os lucros das companhias de seguros, e que conduziram à obrigatoriedade do cinto de segurança, dos airbags e de outros sistemas de segurança passiva nos automóveis, com os quais os fabricantes jamais se haviam preocupado. Estamos perante o mesmo problema do HIV até ser encontrado o sistema de equilíbrio de divisão do lucro entre farmacêuticas, seguradores e sistemas públicos de segurança social.

As imagens chocantes foram, para já, a resposta encontrada para os problemas de ainda não ter sido viabilizado um tratamento para as doenças causadas pelo tabaco que satisfaça simultaneamente os interesses das farmacêuticas e dos seguros. Um sistema que faça repicar os sinos das grandes Bolsas. Logo que seja encontrada a mezinha que dê lucro às tabaqueiras e às seguradoras as imagens chocantes desaparecerão, como desapareceram as imagens dos doentes com SIDA.

Como antigo grande fumador, entendo que todas as campanhas valem a pena, mesmo que libertem uma só pessoa, mas não acredito que esta consiga êxitos significativos. Já agora, podiam construir maços de tabaco com sistema de segredo e segurança, ou de abertura retardada… mas era mais cara que imprimir umas fotos, claro. Penso que a limitação dos locais de fumo, as restrições à sua venda, a carga fiscal, a censura social, o controlo dos capitais provenientes do tráfico de tabaco e outras drogas são medidas paliativas mais eficazes que as fotos a que nos habituaremos rapidamente, como nos habitámos e já esquecemos do menino morto numa praia da Grécia, ou o outro a arder com napalm no Vietname.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

2 comments

  1. ViriatoaPedrada

    Tudo se resume ao lucro, mesmo que faça muito mal a humanidade. Ja em tempos que la vão era o maior rendimento da Coroa Portuguesa. Acontece o mesmo com os carros a combustão que são preferidos em relação aos carros eletricos.

    Gostar

  2. Pingback: Os malefícios do tabaco

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: