O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 18. OS CAPACETES BRANCOS DA SÍRIA: GUERRA POR MEIO DE MENTIRAS – PARTE I – I

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Os Capacetes Brancos da Síria: Guerra por meio de mentiras – Parte I

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Vanessa Beeley, Syria’s White Helmets: War by Way of Deception – Part I

21st Century Wire, 23 de Outubro de 2015

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“A burguesia da liga de honra que se senta no comando do complexo industrial não lucrativo será, um dia, simplesmente conhecida como os carismáticos arquitetos da morte. Financiadas pela oligarquia da classe dirigente, o papel que desempenham para os seus financiadores não difere muito do desempenhado pelos meios de comunicação. Todavia, parece que a sociedade está paralizada numa hipnose coletiva – rejeitando interesses sociais universais, por conseguinte rejeitando a razão, e em vez disso alinhar com a posição da poderosa minoria que tomou o controlo, uma minoria que, sistematicamente, favorece os interesses das empresas.” ~ Cory Morningstar

Em discurso recente, o líder do Hezbollah, Sayyed Nasrallah, aludiu a uma “guerra branda” com várias fases, que assenta no complexo dos meios de comunicação de massas para disseminar propaganda e preconceitos, impelindo o Médio Oriente para, antes de mais, uma crise sectária, antes mesmo de ir mais longe para o regionalismo e, finalmente, um devastador individualismo.

Cory Morningstar’s body of work O corpo do trabalho de Cory Morningstar faz mais do que qualquer outro para expôr o esqueleto da indústria de propaganda sem fins lucrativos que governa  industry that governs simultaneamente as nossas reações e inações, através de uma rede de campanhas de manipulação dos meios de comunicação a vários níveis e multifacetadas, das quais o resultado final é o controlo de opinião das massas. Ela explica:

“O fenómeno das ONG do século XXI está a tornar-se, mais e mais, um instrumento chave ao serviço da missão imperialista de domínio global e exploração. A sociedade global foi, e continua a ser, manipulada para crer que as ONGs são representativas da “sociedade civil” (um conceito promovido em primeiro lugar pelas grandes empresas). Esta confiança equivocada permitiu ao “complexo industrial humanitário” ascender à mais alta posição: os missionários da divindade – a divindade do império.”

Num texto intitulado, “Ajuda Externa e Mudança de Regime: Um papel para o propósito dos doadores”escrito precisamente antes da intervenção da NATO na Líbia, o Prof. Sarah Blodgett Bormeo descreve o processo de “democratização” para as nações alvo. Involuntariamente ou não, Bormeo descreve perfeitamente o papel desempenhado pelas ONGs no processo. Bormeo vai mesmo até ao ponto identificar a generalizada falta de imparcialidade das ONGs grandes e pequenas, a maioria das quais, recebe os seus financiamentos diretamente dos governos ocidentais e de grandes empresas – todos os quais têm  interesses declarados no resultado das atividades das suas ONGs e intervenção numa particular localização. Bormeo enfatiza a importância de “escolher vencedores” neste cenário, o oposto do respeito e apoio da vontade popular de qualquer nação soberana.

Deste modo, é possível que os doadores, num esforço para evitar o aprofundamento de um regime “autoritário” [meu comentário: este estatuto é decidido pelo doador] e talvez aumentar a probabilidade de democratização, canalizem fundos através de ONGs e organizações da sociedade civil em estados autoritários.”

Neste curto video abaixo, ficamos a conhecer a relação militar simbiótica dos EUA com ONGs em países [neste caso, o Iraque] onde a política seguida é Induzir Pacificação e Avanço das Ideologias Ocidentais. As ONGs são usadas cinicamente para “suavizar” culturas e tornar comunidades inteiras dependentes da ajuda externa com o fim de facilitar a “Democratização”.

Neste papel, e dependentes do apoio dos seus doadores, as ONGs deixam de ser aquelas organizações ‘humanitárias’ neutrais e imparciais que publicamente pretendem ser e, em vez disso, tornam-se verdadeiros instrumentos dissimulados para intervenção estrangeira e alteração de regime.  Por omissão, são equiparadas ao modus vivendi Ocidental de “empreender guerra por meio de mentiras” e o seu objetivo é alterar a percepção pública de um conflito através de uma multitude de meios de comunicação e de canais de “marketing”.

Seguindo esta formulação, examinemos novamente o papel do Syria Civil Defence, também conhecida como Os Capacetes Brancos, operando atualmente na Síria, e olhar mais de perto as suas fontes de financiamento e os principais parceiros dos meios de comunicação com vista a melhor determinar se eles são, na verdade, “neutrais”, tal como os magnatas dos meios de comunicação proclamam que estes “humanitários” são.

Capacetes Brancos: Seguir o Dinheiro

Os Capacetes Brancos foram criados em Março de 2013, em Istambul, na Turquia, e são dirigidos por James Le Mesurier, um especialista de “segurança” britânico e ‘ex’ agente secreto militar britânico com um impressionante historial em alguns dos mais dúbios teatros de intervenção da NATO, incluindo a Bósnia e o Kosovo, bem como o Iraque, o Líbano e a Palestina. Le Mesurier é um produto da elite britânica da Academia Militar Real em Sandhurst, e foi também colocado numa série de missões de alto nível nas Nações Unidas, na União europeia e no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido.

A origem dos 300.000 dólares do financiamento inicial dos Capacetes Brancos é um pouco nebulosa, os relatos são contraditórios mas informação subequente leva-nos a concluir que o Reino unido, os EUA e a ‘Oposição Síria’ [ou o Conselho Nacional Sírio (CNS), governo paralelo suportado e financiado pelos EUA, Reino Unido e aliados] estão relacionados. O apoio logístico foi fornecido e dado pela equipa de elite turca de reação a catástrofes naturais, AKUT.

Uns adicionais 13 milhões de dólares foram vertidos nos cofres dos Capacetes Brancos no decorrer de 2013 e é aqui que as coisas se tornam interessantes. Uns primeiros relatórios sugerem que estas “doações” vieram dos EUA, do Reino Unido e do CNS com ligações prévias a George Soros nos EUA.

Contudo, investigações subsequentes revelaram que USAID tem sido um dos principais acionistas na organização dos Capacetes Brancos.

A página web da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) reivindica que “o nosso trabalho presta apoio ao crescimento económico de longo prazo e equitativo e adianta os objetivos da política externa dos EUA apoiando: crescimento económico, agricultura e comércio; saúde global; e democracia, prevenção de conflitos e assistência humanitária.”

Num relatório da USAID de Julho de 2015 é claramente afirmado que forneceram mais de 16 milhões de dólares em assistência aos Capacetes Brancos.

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O historial da USAID  como um facilitador de alterações de regime primordial do governo dos EUA/CIA está amplamente documentado. Desde a América do Sul até à Ucrânia e ao Médio Oriente, a USAID cumpre um papel malévolo e, por fim, destrutivo no desmantelamento de nações soberanas e sua redução a estados vassalos da hegemonia Ocidental, como sempre em nome da liberdade e da democracia.

“Aos Estados Unidos não lhe faltam instituições que continuam a conspirar, e é por isso que utilizo este encontro para anunciar que decidimos expulsar a USAID da Bolívia”  ~ Presidente da Bolívia, Evo Morales

“USAID e NED estão no negócio da “Promoção da Democracia” que utilizam dinheiro público (dos contribuintes dos EUA) para operações secretas com a intenção de apoiar governos pró-EUA com a ajuda de movimentos políticos e sociais no estrangeiro. O objetivo é a mudança de regime.” ~ Timothy Alexander Guzman

Com os recentes desenvolvimentos na Síria e como consequência do pedido do governo [sírio] de uma intervenção russa, assistimos a uma confusão para justificar a estrambólica política externa dos EUA e as suas operações de terror clandestinas na Síria.  Verificámos anteriormente as ligações dos Capacetes Brancos a esta operação de mudança de regime comandada pelos EUA e a sua incontestável integração exclusiva no Al Nusra e no Exército Livre Sírio [Irmandade Muçulmana] e até nas redes e bastiões do ISIS.

VER TAMBÉM: Humanitarian’ Propaganda War Against Syria: Avaaz and The White Helmets

Depois da RT e da Soft net, entre outros terem exposto os grandes buracos da propaganda dos Capacetes Brancos em que o grupo reciclava fotografias antigas no Twitter num esforço para culpar a Rússia por ‘mortes de civis’ – mesmo antes do alegado bombardeamento russo ter ocorrido. Desde então, a propaganda “de guerra” apenas se intensificou. O envolvimento russo na Síria, não só traiu o embuste militar dos EUA, como também trouxe alguns dos seus próprios gigantes peso-pesados dos meios de comunicação à luta que montou quanto à desconstrução feita pelos meios de comunicação ocidentais e a doutrinação das ONGs, que, durante tanto tempo, tinha sido amplamente incontestada.

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FOTO: Mercenário do  ISIS fotografado no exterior de um entreposto dos Capacetes Brancos, em zona controlada pelo ISIS, a sul do Campo de Yarmouk.

Chegados a este ponto o London Telegraph entrou em modo de contenção de danos.  Publicou um artigo divulgando o papel humanitário dos Capacetes Brancos na Síria, mas admitindo que o governo do Reino Unido era responsável pela “maioria” do financiamento e que os Capacetes Brancos estavam estreitamente envolvidos com o ISIS (“em pelo menos uma das áreas controladas pelo ISIS”), afirmações que tinham sido anteriormente veementemente negadas mas tornadas incontestáveis após a descoberta da foto que mostra um mercenário do ISIS posando diretamente em frente de um entreposto dos Capacetes Brancos localizado bem dentro do território controlado pelo ISIS  a sul de Yarmouk.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros é actualmente a maior fonte individual de financiamento. É uma ironia que se a Grã-Bretanha se torna efectivamente em aliada de Assad, e começa a efetuar ataques contra o ISIS na Síria, estará a bombardear do ar e a pagar pelos corpos que há que desenterrar no terreno. Os Capacetes Brancos estão a operar também em pelo menos uma das áreas controladas pelo ISIS.”

Curiosamente, o Telegraph afirma claramente que o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido é “a maior fonte individual de financiamento” dos Capacetes Brancos, o que poderá ser entendido como uma tentativa de afastar o foco para longe do financiamento da USAID, que ainda supera os valores dados a conhecer pelo governo britânico – 3,5 milhões de libras “oferecidas” em equipamento para “equipas de defesa civil” na Síria [Relatório do Foreign Office de 3 de Março de 2015]. Todavia, o governo britânico comprometeu-se também com um adicional de 10 milhões de libras para “aumentar a coordenação entre o governo interino sírio e as equipas de defesa civil” a ser financiado através do Fundo para Conflitos, Segurança e Estabilidade (CSSF) do governo britânico.

Se uma organização é financiada por governos estrangeiros que estão diretamente envolvidos na tentativa de derrube do governo da Síria, como podem essas organizações serem justamente apelidadas de ‘organização independente de assistência’?

Aqui deve também ser referido que embora os gritos de ‘mudança de regime!’ vindos de Washington e de Londres se tenham silenciado desde que a Rússia entrou no conflito da Síria, quer Washington quer Londres têm vindo a suportar em paralelo o seu próprio ‘governo interino’, escolhido a dedo, para a Síria pelo menos desde 2012.

Por conseguinte, com milhões em dinheiro vivo e equipamentos a serem investidos nos Capacetes Brancos por doadores dos EUA e do Reino Unido, que têm um objetivo muito claro de mudança de regime na Síria, torna-se cada vez mais difícil entender o seu papel senão como comerciantes de propaganda tendenciosa e a extensão ‘humanitária’ de uma operação de terror clandestina aliada dos representantes armados da NATO na região.

(continua)

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Ver o original em:

Syria’s White Helmets: War by Way of Deception – Part I

http://21stcenturywire.com/ (*),

23 de Outubro de 2015

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