A NOSSA RÁDIO – Cesário Verde (4) – por Álvaro José Ferreira

a nossa rádio

 

(1855 - 1886)
(1855 – 1886)

 DESASTRE


Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: «Homem não desfaleça!»
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: «Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!» Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
«Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!»

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada a duas prostitutas:
«Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!»
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.

Gastara o seu salário — oito vinténs ou menos —,
Ao longe o mar, que abismo! e o sol, que labareda!
«Os vultos, lá em baixo, oh! como são pequenos!»
E estremeceu, rolou nas atracções da queda.

O mísero a doença, as privações cruéis
Soubera repelir — ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: «Aonde irás, ministro!
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?»

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
— Conservador, que esmaga o povo com impostos —,
Mandava arremessar — que gozo! estar solteiro! —
Os filhos naturais à roda dos expostos…

Mas não, não pode ser… Deite-se um grande véu…
De resto, a dignidade e a corrupção… que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O Inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
«Morreu! Pois não caísse! Alguma bebedeira!»

30 de Outubro de 1875

CARTA A ANTÓNIO DE MACEDO PAPANÇA (CONDE DE MONSARAZ) (1877)

António

Fiquei hoje em casa, um pouco adoentado, com suposições de doenças, de futuros quebrados, confusamente baço, sem lucidez de cérebro nem de ponto de vista. Enquanto o sol, numa grande esteira clara, me entrou pelo quarto, estive bem contente, exuberante, cheio; a luz doirada e tépida sorria no estuque das paredes, nas cercaduras de flores pintadas, no mogno polido das cadeiras, no verniz de ferro do meu leito modesto de solteiro, na colcha muito lavada, com um bom cheiro de barreia e de alfazema, e na minha imaginação de rapaz saudável.
Mais tarde abri todas as três janelas para receber mais claridade; invadiu-me a sombra triste, a melancolia do crepúsculo, a friagem antipática da humidade. Quando pus a testa sobre os vidros para espairecer os olhos pelo jardim que vegeta debaixo, lembrei-me de imensas coisas que passaram, dos meus tempos de criança, do colégio de que voltava às quatro horas a um toque de sineta, de minha irmã que morreu e que iluminava todas as casas com a sua beleza alta e sossegada, dos meus temas de francês, dum caixeiro que foi para o Brasil e que me agarrava ao colo balançando-me com ameaças e sustos de me arremessar lá ao fundo do pátio que já não existe também.
Agora há aqui uma padaria em que se está erguendo uma chaminé enorme de forno, para deitar o fumo muito acima. Os pedreiros, porque era quase Ave-Marias, demoravam o trabalho devagarinho, poupavam o resto do aviamento, da cal; e tudo, a natureza, os arvoredos dos quintais próximos, a linha dos prédios na Praça da Alegria aonde mora o Oliveira, o rumor longínquo dos trens, e até um homem que passava descalço, com um regador verde numa das mãos, pelas sinuosidades das áleas no jardim; tudo, tudo me parecia lento, tristonho, com silêncios de preguiça iluminada.
Mandei acender o candeeiro e passou-me a doença imediatamente; e não sei por que corrente de pensamentos. Ah! já sei: No domingo encomendei um fiambre numa salsicharia francesa que há na Rua Nova do Carmo e que tem na montra um pequenino viveiro de peixinhos de água doce, num rio em miniatura.
Ora, ou eu me engano bastante ou a casa de madame é a única daquele género que se encontra em Lisboa. Pois bem, lembrei-me de lhe fazer concorrência, de me estabelecer com luxo, espavento, réclame e fregueses da alta vida que se dissipa em molhos apetitosos, em carnes frias que vêm do estrangeiro, em temperos esquisitos.
Eu queria ver o salame, o porco, as frutas em pirâmides, as conservas com grandes rótulos, o chouriço de sangue, as hortaliças em grande toilette, todos os peixes variegados do Oceano a reluzirem; eu queria ver tudo preparado, a ganhar dinheiro, a fazer escândalo honesto, a dar-me celebridade prática, satisfação, gordura recomendável.
E que me dizes?
No entanto, os desejos imensos de te enviar um bouquet de saudades.

Cesário

Lisboa, 1877

 

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