
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos

V – A prática do FMI é enganar-se e continuar tudo na mesma
Mas um leitor atento poderá interrogar-se se estes enganos não são apenas conjunturais, imputáveis a alguns homens que estão no comando das Instituições, e não estruturais, isto é, resultantes de comportamentos endógenos e constantes das próprias Instituições ou da forma como estas estão concebidas, arquitectadas. A estes leitores, uma vez que defendo, que estes comportamentos são estruturais, são a própria natureza do modelo, recoloco aqui um texto que há anos publicámos no blog A viagem dos Argonautas que passamos a reproduzir.
Nota introdutória ao texto de Fabien Lindner
Temos vindo a falar dos erros dos erros de previsão do FMI, temos vindo a falar do reino das mentiras que os nossos dirigentes nos vão criando. Hoje, apresento-vos mais um texto sobre a mesma matéria.
Os peritos do FMI enganaram-se e não foi pouco. Na base desse engano, milhões de pessoas por esta Europa fora foram elas atiradas para a situação de miséria. Quem assume a responsabilidade é a pergunta que Fabien Lindner nos deixa neste seu pequeno texto. Sabe-se que o mesmo tipo de erros foi cometido ao longo de múltiplos programas de austeridade impostos pelo FMI: Ninguém nos disse nada. Sabe-se igualmente que Olivier Blanchard em Outubro passado levantou a questão do forte engano quanto aos cálculos dos efeitos das políticas recessivas impostas na base dos estudos feitos pelo FMI. Que aconteceu? Nada, não aconteceu nada a ninguém. Estranha ironia, Blanchard volta de novo ao seu engano e com extrema lucidez, diga-se, lucidez que não esperávamos vinda de onde vem, ou seja, pela história que na matéria o FMI tem. Que aconteceu, a seguir? Um relatório emitido pelo mesmo FMI mas não do seu economista-chefe, um relatório a exigir políticas de austeridade ainda mais duras do que aquelas que têm estado a ser seguidas e que o texto do seu Director considera erradas. Um relatório sobre Portugal. Que aconteceu aos políticos que têm seguido as políticas anteriores e por Blanchard consideradas como erradas? Nada. Que irá acontecer aos políticos que se armam agora em defensores do mesmo documento do FMI agora editado sobre Portugal? Possivelmente nada. Mas mais simples ainda, que acontecerá aos redactores bem conhecidos do mesmo documento do FMI em flagrante contradição com o texto do seu economista-chefe Olivier Blanchard emitido um, no princípio de Janeiro e, um outro, em Outubro passado? Possivelmente, o mesmo que a todos os outros responsáveis pelo que se tem estado a passar, ou seja, NADA, absolutamente nada.
Bem-vindo, portanto, ao reino da mentira nada hilariante por demasiado trágica que ela é, bem‑vindo ao reino da mentira triunfante que os nossos políticos praticam e continuarão a praticar, até que os deixemos…
Júlio Marques Mota
Desde há muto tempo que o FMI sabia e melhor que toda a gente
Fabian Lindner
O entendimento de mea culpa do FMI sobre o seu erro de apreciação quanto aos efeitos da austeridade orçamental nos países da crise Europeia é uma situação para todos nós agradável. No entanto, será que o FMI teve realmente uma nova perspectiva das políticas de austeridade? Não, de modo nenhum. Na verdade, já há dez anos, em 2003, o Grupo Independente de Avaliação [Independent Evaluation Office (IEO)] publicou um estudo aprofundado sobre os efeitos das condições impostas pelo FMI aos diversos governos em termos das políticas orçamentais em 133 programas de ajustamento estrutural ocorridos entre 1993 e 2001, estudo este disponível em:
Neste estudo, o OIE considerou que os objectivos de consolidação orçamental foram principalmente errados:
Em média, apenas cerca de metade dos programas se concluíram pela melhoria esperada dos saldos orçamentais globais e primários. […] O sobre-optimismo quanto aos ajustamentos orçamentais é parcialmente devido ao sobre-optimismo quanto às projecções de crescimento consideradas. Os níveis absolutos de rendimento respondem ao crescimento, com quebras no crescimento, levando a correspondentes quebras nos rendimentos.”
Em suma, os multiplicadores orçamentais que medem o impacto da política orçamental sobre o crescimento foram sistematicamente mais elevados do que os valores previsto pelo FMI.
No entanto, o FMI fez pouco fez para ajustar estas suas projecções no que se refere à análise das hipóteses em que as projecções destas políticas orçamentais estavam assentes: […]
Os programadores estavam geralmente relutantes em projectar uma quebra no crescimento e muito raramente consideraram a hipótese de crescimento negativo. Por exemplo, a lentidão de crescimento entre o primeiro e segundo ano do programa ocorreu duas vezes mais do que as vezes em que foram projectadas. O crescimento negativo ao longo do segundo ano do programa foi projectado em apenas 1,3% dos casos, mas na realidade aconteceu durante 10 vezes da esta frequência.
Mas isto não nos parece familiar se acompanhamos os casos de Grécia, Portugal e da Irlanda face às suas políticas de austeridade? Assim, não é apenas do facto de que o FMI poderia ter sabido mais; ele realmente sabe muito mais. No entanto, será alguém por tudo isto responsabilizado? Quem é que vai perder o seu emprego de ânimo leve, por ter atirado milhões de pessoas para a situação de miséria? Será que “Desculpem-nos, oh povos, nós realmente sabíamos muito mais mas por uma ou outra razão esquecemo-nos do que sabíamos” é suficiente face à gravidade do que por isso mesmo aconteceu?
Fabian Lindner, The IMF Knew Better All Along, disponível em :
Fim da reprodução do texto publicado em A viagem dos Argonautas”
Pois bem são estes senhores que agora vêm dizer que praticamente não têm nada a ver com o que aconteceu na Grécia. Relembramos o que se transcreveu acima na entrevista de Lagarde enquanto ministra do governo francês. Mas da ministra de Sarkozy a Directora geral do FMI terá havido diferença? Curiosamente diz-nos um jornal financeiro alemão Handelsblatt, numa peça intitulada: Debt Deal; Europe May Buy IMF Out of Greek Bailout
“ Numa tentativa de acabar com uma disputa de longa data sobre a depreciação (perdão parcial) da dívida pública da Grécia, a União Europeia está a considerar uma proposta para comprar toda a dívida da Grécia contraída junto do Fundo Monetário Internacional no âmbito do programa de resgate. Isto iria reduzir significativamente a taxa de juro e a dívida de longo prazo da Grécia.
Um número de altos funcionários da União Europeia estão dispostos a aceitar a redução do papel exercido pelo Fundo Monetário Internacional no programa de resgate da Grécia, em vez de estarem a fazerem concessões para garantir a participação desta Instituição no total programa de apoio à Grécia.
Klaus Regling, chefe do fundo de resgate permanente do bloco, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, foi lançada uma proposta na qual a União Europeia a comprar Essencialmente, o FMI fora do programa de resgate da Grécia.
Klaus Regling, Director do fundo de resgate permanente do bloco de instituições, o mecanismo europeu de estabilidade, emitiu uma proposta segundo a qual a União Europeia essencialmente iria comprar a dívida da Grécia contraída junto do FMI no quadro do programa de resgate colocando assim o FMI fora deste programa.
O MEE aplicaria os fundos que não utilizou no resgate do sistema bancário da Grécia, que foi de € 20 mil milhões a menos do que o previsto para reembolsar os empréstimos junto do FMI
No MEE há muito dinheiro à espera de que alguém precise dele,” disse um alto funcionário da União Europeia ao WirstchaftsWoche, uma publicação irmã do Handelsblatt, sob condição de anonimato.
“Reembolsando os empréstimos também limitaria o FMI a um papel consultivo no programa de resgate da Grécia, de acordo com fontes do WirtschaftsWoche em Bruxelas.».
Trocando os empréstimos ao FMI por empréstimos ao MEE (um swap) a Grécia iria beneficiar de taxas de juros muito mais baixas. O FMI faz-se pagar a taxas de 5 por cento, enquanto as taxas do MEE são de 0,8 por cento.
Os especialistas no MEE calcularam que o reembolso dos empréstimos ao IMF reduziria a dívida da Grécia em dois pontos percentuais, colocando-a em 91,8% do seu produto interno bruto em 2040 ”.
Fim de citação do jornal Handelsblatt.
Há aqui uma diferença para pior. As taxas no mercado eram de 1,5 na altura, agora são perto de zero e a taxa aplicada por Christine Lagarde mantém-se em 5%, ou seja, clamando quanto ao desastre financeiro que ocorre actualmente na Grécia e que é o resultado das suas políticas, o FMI às escondidas é um dos seus beneficiários. A usura sobre a Grécia é ainda bem maior neste momento no que quando Lagarde era ministra de Sarkozy. Nada mais a dizer, portanto.
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Maria â â
No dia 19 de junho de 2016 Ã s 13:00, A Viagem dos Argonautas escreveu:
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