A PROPÓSITO DE MAIS UMA ESTREIA DE TEATRO, AGORA DO TEATRO DOS ALOÉS – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

Será que Warren Buffett leu Lénine? - por António Gomes Marques

Uma pequena interrupção nas crónicas sobre o teatro de Amadores para falar do mais recente espectáculo do Teatro dos Aloés, que aconteceu no passado dia 15, nos Recreios da Amadora, como habitualmente.

Não me é fácil falar do Teatro dos Aloés, companhia que resultou da união de uns tantos profissionais de teatro –Elsa Valentim, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Alberto, Mário Jacques (já falecido), Rui Mendes, Rui Rebelo, Sofia de Portugal, Teresa Gonçalves e Victor Santos- que haviam participado em projectos comuns ao longo das suas carreiras, tendo este novo grupo de teatro sido constituído após a destruição de um inovador projecto cultural, suportado por 4 Câmaras Municipais –Amadora, Loures, Sobral de Monte Agraço e Vila Franca-de-Xira-, no Teatro da Malaposta, um sonho que Severiano Falcão concretizou e que eu, apesar de nunca ter militado no PCP, nunca deixei de apoiar. Essa destruição iniciou-se logo após o PS ter ganho as eleições em três daqueles Municípios, nomeando para a Administração pessoas que nem capacidade para gerir um galinheiro teriam.

Na altura, integrava o projecto, com funções a tempo parcial no Centro de Documentação, e, passado pouco tempo e logo que me apercebi de qual era a intenção da nova Administração, pedi a demissão. Não foi um abandono do barco, mas a razão principal foi a de não poder abstrair-me do facto de ser militante do PS e de ter consciência de que estava de corpo inteiro solidário com os responsáveis da companhia de teatro que estavam a ser escorraçados do Teatro da Malaposta, com a utilização de todo o tipo de intrigas que, nestas situações à portuguesa, sempre surgem.

A história deste projecto far-se-á um dia e, então, muitos terão oportunidade de dizer o que pensam sobre o mesmo e outros também não deixarão de ser citados, como o saudoso Mário Jacques e a carta que, na devida altura, escreveu. Estarei sempre presente no apoio a este grupo de artistas, com a certeza de que continuarão fiéis aos valores que levaram à sua criação.

Voltemos ao Teatro dos Aloés, sob a direcção de José Peixoto, Elsa Valentim e Jorge Silva, lembrando algumas das suas afirmações como, por exemplo:

«Fazer teatro para nós significa contribuir para um esclarecido exercício da cidadania, a elevação moral e espiritual e o desenvolvimento cultural das populações para que trabalhamos.»

e ainda:

«Não temos a arrogância de propor soluções ou orientações. Não pensamos ser essa a função do teatro, nem ser no teatro que os problemas individuais ou sociais se resolvem. Pensamos apenas ser o teatro um lugar indicado para a reflexão colectiva, o lugar onde é possível aos actores oferecer a sua própria reflexão a um grupo de pessoas interessadas e representativas do todo social.»

princípios estes a que o Teatro dos Aloés tem sido fiel.

O espectáculo estreado no passado dia 15 de Junho é constituído por textos selecionados e encenados por Rui Mendes, a partir das peças «George», de Antony West e de «It’s Called the Sugar Plum», de Israel Horovitz, a que o encenador deu o título de «América, Suitamérica», cabendo a interpretação a dois jovens actores, Ana Bento e João de Brito, que mostram claramente que não é por falta de talentos que o teatro português não perdurará, e de dois ainda jovens mas já com larga experiência e qualidade demonstrada, Sofia Portugal e Jorge Silva.

Rui Mendes foi, assim, buscar a autores americanos dos anos sessenta do século passado, época em que o teatro americano conheceu uma vitalidade com o aparecimento de um grupo de autores, encenadores e actores em busca de novos caminhos, uma crítica contundente aos costumes não apenas americanos da chamada civilização ocidental, onde «A solidão, as frustrações, o egoísmo, a alienação e a dependência de falsos paraísos, descaracterizavam o que se costumava chamar de “american way of life” ou “american condition”, e envenenavam as relações entre as pessoas», como o próprio encenador refere no programa e que hoje todos nós sentimos de igual modo. São apenas dois retratos do mundo em que vivemos, mas claramente exemplificativos e que nos devem fazer reflectir sobre o que queremos para o nosso presente e para o futuro dos nossos descendentes e também de algum modo ainda nosso.

Teatro dos Aloés - I
Os quatro intérpretes fotografados no cenário do espectáculo

A referência que fazemos ao teatro americano carece de uma pequena explicação. A Broadway dominava com grandiosas produções que bisavam apenas o sucesso comercial e o divertimento frívolo. Os teatros da Broadway estavam, e estão, nas mãos de homens de negócios, onde os jovens autores não tinham possibilidades de apresentar as suas peças, algumas das quais tratavam dos problemas políticos e sociais, não apenas da sociedade americana mas claramente universais, noutras os seus autores procuravam, no teatro, um meio de libertação colectiva ou individual, surgindo assim o chamado movimento «off-Broadway», o qual, como é próprio da sociedade capitalista, sobretudo naquela época, logo foi absorvido, passando a distinguir-se apenas pelas salas em que apresentavam os seus espectáculos, com um número de lugares entre os 100 e os menos de 500, e por terem produções menos dispendiosas. No início, surgiram produções que não visavam o lucro, ousando mesmo apresentar peças que, à partida, se sabia virem a ser comercialmente um fracasso, mas, no conjunto, não deixavam de ter a preocupação de, no final da época, apresentarem contas saudáveis, o que obrigava estas companhias a apresentarem espectáculos que, no cômputo geral, acabassem por atrair espectadores que sustentassem e superassem mesmo as despesas, o que chamou a atenção das grandes produtoras comerciais, que ali encontraram um nicho de negócio lucrativo, acabando mesmo por alguns dos espectáculos de maior êxito virem a ter a possibilidade de se apresentarem nos teatros da Broadway, como foi o caso do musical «Godspell».

Centenas de artistas e muitos novos autores continuaram assim arredados de poderem produzir um teatro independente dos circuitos comerciais e independente nos seus conteúdos, interessados que continuavam em reflectir com o público os problemas de ordem social e política, num exercício comum de cidadania. Ora, em 1958, no Café Cino, com um palco de pequenas dimensões (cerca de 3,5 m x 3,5 m), alguns ousados e talentosos actores e autores, deram início a um novo movimento que viria a ser conhecido como «off-off Broadway», cujo êxito atraiu outros autores e actores. Hoje, fazendo jus a que nos EUA tudo é em grande, existe ali uma comunidade com 500 companhias de teatro, que produzem mais de 2.000 espectáculos, envolvendo mais de 40.000 artistas e atingindo mais de 1,5 milhões de espectadores em cada ano, atraindo também artistas independentes de todo o Mundo, com quem debatem permanentemente o seu trabalho.

Teatro dos Aloés - II

O Café Cino, berço do movimento «Off-off Broadway», em West Village, Nova Iorque (fotografia de Doric Wilson)

 

Um dos autores com mais êxito, ainda hoje, nos teatros de «off-off Broadway» é, precisamente, Israel Horovitz.

O espectáculo do Teatro dos Aloés estará em cena no teatro Recreios da Amadora até 26 de Junho e, depois, de 29 de Junho a 3 de Julho, no Cineteatro D. João V, na Damaia.

Portela (de Sacavém), 2016-06-20

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