CARTA DE VENEZA – CAMINHAR SOBRE ÁGUAS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Muito se tem falado nas últimas semanas do “milagre” de Christo, o artista americano de origem búlgara, conhecido pelas instalações vanguardistas em cidades como Paris, Roma, Berlim ou Nova Iorque. A mais recente instalação é o passadiço flutuante The Floating Piers (http://www.thefloatingpiers.com/home#introduction),

inaugurado a 18 de junho e acessível até 3 de julho; a obra já foi alvo de comentários impiedosos por parte de críticos de arte italianos de elevada visibilidade mediática, como Vittorio Sgarbi ou Philippe Daverio.

Quanto ao público, a instalação registou um sucesso muito acima do esperado, tanto que o desgaste precoce dos materiais poderá vir a impor restrições no acesso. São uma média de 75.000 por dia os visitantes que não querem perder a oportunidade de andar sobre as águas do Lago d’Iseo, percorrendo cerca de 3 quilómetros e deslocando-se entre Sulzano, Monte Isola e a ilha de San Paolo.

Sobre a experiência de The Floating Piers, nas redes sociais têm aparecido muitas reações tanto polémicas como simplesmente irónicas. Por exemplo, há quem tenha lançado a ideia de usar a mesma técnica para unir as costas italianas ao norte de África, de modo a permitir a travessia de migrantes, sem estes terem de pôr as suas vidas em risco recorrendo a meios de transporte fortuitos e inseguros.

Já a nível local, observou-se o despertar do profundo orgulho veneziano quanto à relação privilegiada com a água. E assim circulam imagens dos passadiços venezianos (pintados de amarelo como na instalação) que atravessam as áreas críticas da cidade nos dias de acqua alta, com a legenda “Nós em Veneza, Christo todos os dias”; ou da multidão que se desloca pela ponte temporária sobre o Canal da Giudecca no fim de semana em que se celebra o Redentor, com o comentário “Sem nada tirar a Christo, em Veneza é desde julho de 1577 que pela festa do Redentor se caminha sobre as águas”.

Como a ironia mal disfarça, o orgulho veneziano ficou sensível à preferência que o artista deu ao Lago d’Iseo, pois a instalação de Christo teria feito todo o sentido (e talvez mais sentido) em Veneza, onde a necessidade de transpor espaços aquáticos é especialmente premente e faz parte da própria identidade lagunar.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Pingback: CARTA DE VENEZA – CAMINHAR SOBRE ÁGUAS – por Vanessa Castagna — A Viagem dos Argonautas | Tudo Para Minha Cuba

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: