A GALIZA COMO TAREFA – países imaginários – Ernesto V. Souza

Um pouco de sonhos e imaginações são precisos para mandar pela gorja abaixo as decepções e as tristuras que se encravam e fazem, por vezes, chorar os olhos. O tempo vai correndo, a vida vai passando entre reparações necessárias, peripécias e anúncios do inverno. O presente tão agitado na sua imediatez cega mais que o sol castelhano e não deixa enxergar pelo futuro.

O triunfo dos conservadores nas eleições da Espanha com as suas políticas de recorte social, económico e de liberdades, coloca a ideia de mudança imediata a uma distância impossível, como de sonho ou fantasia.

As mudanças, é verdade, assustam. E, nestas eleições, o grande triunfador foi o medo. O pánico das classes acomodadas a perder os seus privilégios, o terror das classes médias à incertidão e, especialmente, o medo hesitante dos que querendo tirar do meio os partidos rotativistas, não ousaram largar-se ao futuro por conhecer. E visto está que assustam mais as imagens icónicas de supermercados desabastecidos e as fantasias apocalípticas, que a privação de liberdades ou a corrupção. Incertezas não são doadas de assimilar para muitas pessoas.

O pessoal absteve-se, na esquerda, por falta de programa com que se identificar (tanto querer contentar todos e ganhar mais votos à direita… não contentou a malta), mas acho que esse não foi o grosso de votantes que se absteve.

O que se absteve, (ou passou a votar Cidadãos ou voltou a PSOE) é pela direita, o que concordando em castigar a PP-PSOE nas anteriores teve medo nas últimas de apoiar um sucesso real de uma Fronte de esquerda. O “voto de protesta” não ousou a dar o passo a “voto de proposta”. O medo às fantasias de um governo “revolucionário” que vendeu a propaganda e os mass média, funcionou, com o agravante de que efeito imediato da abstenção foi a surpresa, a decepção desmotivadora e a possibilidade crescente da desmobilização.

A situação pessoal não ajuda, os ordenados são baixos, o mercado laboral insuficiente; e a política, estamos a ver desajuda ou desconcerta. O Brexit e o triunfo dos conservadores na Espanha com as suas políticas de recorte social, económico e de liberdades, a distância impossível a que se coloca a grande mudança sonhada.

A República, a nena Federal e inquieta que se anuncia uma e outra vez nas praças e nos cafés onde ao hispánico modo ainda se faz tertúlia, como no dizer de Valle-Inclán, fica noite e noite a dormir pelas aforas.

E, na Galiza alargando-se a sombra do PP cara as vindouras eleições do Governo autónomo, os relacionamentos com Portugal e a cultura, colocados em segundo ou terceiro plano, não presagiam que os velhos projetos do galeguismo e do republicanismo histórico saiam da sua ladainha de saudades.

Tendrá que ver
cómo mi padre lo decía:
la República.

En el tranvía amarillo:
la República, era,
lleno el pecho, como
decir la suave,
amplia, sagrada
mujer que le dio hijos.

En el café morado:
la República, luego
de cierta pausa, como
quien pone su bastón
de granadillo, su alma,
su ofrendada justicia,
sobre la mesa fría.
Como si fuese una materia,
el alma, la camisa,
las dos manos,
una parte cualquiera
de su vida.

Yo, que no sé
decirlo: la República.

Eliseo Diego

 

Mas e afinal que? que surpreende e paralisa a gente? se é apenas um final de temporada muito no estilo de George R. R. Martin. Fica muita história por diante e a Galiza continua sendo uma tarefa.

 

Leave a Reply