DÉFICES ESTRUTURAIS E ESTABILIZADORES AUTOMÁTICOS – A GRANDE VIGARICE – por BILL MITCHELL – III

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Selecção, tradução, adaptação e notas adicionais por Júlio Marques Mota

Défices estruturais e estabilizadores automáticos- a grande vigarice

Bill Mitchell, Structural deficits – the great con job!

Billy Blog, 15 de Maio de 2009

(conclusão)

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Retomemos o texto de Bill Mitchell:

O gráfico a seguir mostra os resultados operacionais actuais (Total de receitas menos despesa Total) desde 1974 e os resultados estruturais (calculados como acima se explica). A diferença entre o saldo orçamental estrutural e o real reflecte o facto de que, ao longo deste período, a economia nunca terá operado com uma taxa de desemprego de 2 por cento. A diferença entre esta estimativa do saldo estrutural e a estimativa apresentada pelo Tesouro está no facto de que pelo Tesouro se está a considerar a capacidade total com uma taxa de desemprego na economia da Austrália muito mais alta.

Assim as estimativas do Tesouro sobre o saldo estrutural é estabelecida na hipótese de que o governo nunca conseguirá, nem sequer remotamente, alcançar o pleno emprego durante o período a que se refere o gráfico. Antes que o gráfico cruze a linha ao nível zero ainda ( durante vários anos) a economia estará com uma taxa NAIRU na ordem dos 5 por cento de desemprego. Isso não é admitido em nenhum documento público, nem pelos jornalistas.

O editor de economia da Austrália, Michael Stutchbury utilizou este mesmo gráfico do tesouro no início desta semana no seu artigo Swan’s surplus of silence e não falou aos seus leitores dos enviesamentos dos cálculos. Ele deveria tê-lo feito porque isso teria influenciado a forma como os seus leitores interpretaram e julgaram o seu artigo. Eles teriam imaginado uma má peça de jornalismo se conhecessem a base da discussão.

grande vigarice - II

Se examinarmos o meu gráfico pode-se ver que o saldo actual (linha azul) está bem abaixo do saldo estrutural estimado (linha vermelha). O Governo Federal tem praticado posições orçamentais de contracção (estruturalmente) desde 1976. Deste modo, os défices ao longo do período (1974-2008) são inteiramente cíclicos e reflectem o facto de que o aumento do desemprego levou a que os estabilizadores automáticos sejam suficientemente fortes contra o enviesamento de contracção da actividade do orçamento e gerar os défices.

Também se pode ver que os excedentes orçamentais nos anos recentes foram estruturais. Estes não foram determinados somente pelos preços das commodities como o Tesouro nos quer fazer crer. O anterior regime federal estava a assumir posições extremamente restritivas, de contracção da actividade económica, ao longo desse período e contava com a expansão desmesurada do crédito privado para gerar o crescimento. Isto foi uma estratégia de crescimento insustentável e de uma elevada irresponsabilidade orçamental. Estamos agora a sofrer as consequências de tudo disso.

Também deve ser aparente que a mudança da despesa líquida (a partir dos excedentes estruturais) para um défice estrutural (que será necessário para de forma sustentada financiar a poupança privada líquida) será enorme. Ou seja, se nós considerarmos seriamente a capacidade total que é necessária para que cada um possa ter trabalho!

O que isso nos diz é que o défice orçamental actual é uma via estreita em percentagem do PIB. O orçamento estrutural que o governo tem praticado tem sido muito de forte contracção da actividade.

Enquanto este exercício é simplificado (para caber de modo rápido num blog) as complexidades adicionais que poderíamos ter introduzido na estimativa do saldo estrutural do orçamento não mudariam realmente muito os resultados obtidos. A diferença entre as minhas estimativas e as mentiras do Tesouraria (e do FMI e da OECD) está na minha hipótese de que a capacidade total = pleno emprego = cada tem que queira trabalhar aos salários em vigor encontra emprego.

Tentam-nos enganar considerando a posição da capacidade total na base da taxa NAIRU (calculada actualmente – leia-se “composta” – pelo Tesouro para se situar levemente acima dos 5 por cento). Os comentadores começarão então de modo delirante a considerar que o orçamento é demasiado expansionista quando de facto ele ainda será provavelmente muito limitativo.

Divulgue este texto!

De toda a maneira, teremos os nossos défices.

Perguntaram-me ontem à noite, durante uma conferência que dei em Newcastle sobre a crise financeira se os excedentes anteriores se teriam verificado caso o sector das famílias não se tivesse endividado tanto. A resposta clara é que Costello pode ter obtido um ou dois períodos de excedente, mas eventualmente o arrastamento fiscal teria sido tão grande que os estabilizadores automáticos teriam enviado o orçamento para a situação de défice com aumento do desemprego e com a queda do crescimento do produto.

Randy Wray relacionou esta questão com o que se passou na história dos Estados Unidos, uma vez que cada vez que o orçamento federal ficou excedentário, verificou-se imediatamente a seguir uma grande crise económica e o crescimento sustentável só foi retomado depois do orçamento ter voltado à situação de défice.

Considere este gráfico. Este mostra a história recente do Orçamento federal (na Austrália) como uma percentagem do PIB [défices (–); excessos (+) ] e a taxa de desemprego oficial. Se queremos uma imagem desta relação, ei-la, portanto. Cada vez que nós entramos em situação de excedente durante este período, o desemprego aumenta a seguir . Os excedentes recentes duraram um pouco mais tempo porque por momentos o hiato da despesa foi parcialmente satisfeito pelo disparar do endividamento privado. Este não foi portanto uma boa estratégia sustentável do crescimento e mostrou-se agora bem à evidencia a não deixar nenhuma dúvida quanto à estratégia errada que foi seguida .

grande vigarice - III

A questão: teremos sempre défices por onde quer que se vá. É de longe muito melhor ter deficits estruturais e apoiar fortemente o crescimento do emprego e ter baixo nível de desemprego do que para tentar alcançar excedentes orçamentais e assim criar as circunstâncias onde as mudanças cíclicas (os estabilizadores automáticos) nos arrastem de novo para a situação de défice mas neste caso com alto desemprego e com a queda do crescimento do emprego. Esta é uma terrível asneira que o governo e a maioria dos seus defensores (políticos e comentadores) não pareçam compreender.

Bill Mitchell, Structural deficits – the great con job!, Texto disponível em:

http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=2326.

Publicação autorizada pelo autor.

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Para ler a Parte I deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

DÉFICES ESTRUTURAIS E ESTABILIZADORES AUTOMÁTICOS – A GRANDE VIGARICE – por BILL MITCHELL – I

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Para ler a Parte II deste trabalho de Bill Mitchell (nota de Júlio Marques Mota), publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

DÉFICES ESTRUTURAIS E ESTABILIZADORES AUTOMÁTICOS – A GRANDE VIGARICE – por BILL MITCHELL – (uma nota de JÚLIO MARQUES MOTA) II

(ESTE TEXTO JÁ TINHA SIDO PUBLICADO EM A VIAGEM DOS ARGONAUTAS, EM JANEIRO DE 2015).

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