A COR DOS HOMENS/4 -ROMANCE DE FERNANDO CORREIA DA SILVA

  1. 2. A Casa Grande

 

Subo ao planalto. Percorro os cantos da Casa Grande, este é o meu território natal. Aqui é a grande sala térrea onde os meus pais deram tantas festas. Eu, nem por isso, nunca fui muito dado a festas. Aqui, na torrinha, era o gabinete do Pai. Depois passou a ser o local onde o meu cunhado remoía as suas solidões. Logo saio e bato a porta, fedor a catinga, algum preto andou a dormir aqui, eles estão sempre a aproveitar-se do lilás. Esta foi a casa de bonecas da minha irmã, ainda estão todas aqui, rostos redondos de porcelana corada, vestidinhos engomados. Este foi o meu quarto, onde tantas vezes fiquei trancado contra o mundo. E este foi o quarto dos meus filhos, mas onde César, onde Marco? Percorro os altos e os baixos da Casa Grande, aqui hei-de encontrar os meus rapazes, estou sempre a procurá-los. Chamo pelo mais velho:

— César, César, dói muito. Onde te escondes, porque te ocultas? Onde está o teu irmão? O que foi que aconteceu?

Finalmente a aparição, tardava tanto. Creio reconhecê-lo, apesar das suas feições lilases. Aperto-o contra o peito. Deixa-se abraçar mas logo põe em causa a minha esperança:

— Tio, eu sou o Aurélio, não sou o César.

Bem vejo que fica penalizado, sabe que me desilude. Terá pena de ser quem é. Pousa a mão sobre o meu ombro, afeição, é um bom rapaz. É pois Aurélio, o segundo filho de Frigia, a minha irmã. É muito parecido com o primo. Mas se ele já tem a idade que César tinha, então eu devo ter agora uns sessenta anos e a minha irmã uns cinquenta e sete. E onde estão os meus filhos, onde César, onde Marco? Não os encontro na Casa Grande e lá por cima roda a bruma, carrossel, volta sempre tudo ao mesmo ponto. Sara, a nossa cozinheira, a preta, ex-preta, bem me avisou que dois rapazes tinham acabado de chegar a Palmira.

Não fui a tempo de reconhecê-los, não fui a tempo de salvá-los. Fiz o que pude mas nada pude. O responsável, o grande culpado, foi Biarni, o meu cunhado. Justamente aquele que está agora a atravessar o corredor, lá no fundo. Passa o tempo e parece que está cada vez mais novo, refluxos. Grito:

— Alfonso! Alfonso Biarni, preciso falar contigo!

Pára. Por um instante fica-se a olhar para mim. Resmunga qualquer coisa, não percebo, logo desanda. Fico atordoado. César, ou Aurélio por César, outra vez pousa a mão no meu ombro, outra vez corrige:

— Tio, não ligue, ele é assim mesmo… Mas olhe que aquele não é Alfonso. É Flávio, o meu irmão.

São pois os filhos de Frigia, são pois os meus sobrinhos. E onde estão os meus filhos, porque tardam tanto?

Alguém abre a porta que dá para a cozinha e surge Sara. Não como ela será hoje, pois sei que tem mais ou menos a minha idade. Mas a Sara como foi antes, quando tinha dezoito anos. Apesar de preta, era muito esbelta. E apesar do lilás é ainda muito esbelta. Pergunto a César, afinal Aurélio, qual o nome daquela Sara nova e ele informa que a serviçal é Rovana, a neta da Sara antiga. Bem me lembro quando a avó a segurava ao colo, apontando-lhe os nossos cavalos que então eram todos brancos. Passei tempo demais no fundo do pântano, foram-se uns, vieram outros, mas cá me vou orientando.

Um dia, quando Sara, a verdadeira, tinha a idade que hoje tem a sua neta, de surpresa derrubei-a num campo de milho, quis forçá-la. Não resistiu, sabia que não valia a pena. Defendeu-se apenas com palavras:

— Sinhô Eurico, iô gradeço peró num mereço. Mecê vai sujá su brancura na mi carne tam escura.

Até durante a agonia inventava rimas, gostava muito de cantar. É esperta, aquela negra. Apenas com uma frase apagou-me o fogo.

O que diria o meu Pai se soubesse o que tinha, ou não tinha, acontecido naquele campo de milho?

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