NO CORAÇÃO DAS TREVAS, AS GRANDES INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS, E NÓS À PROCURA DA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL COMO SAÍDA PARA A CRISE? IMPOSSÍVEL – A introdução de JÚLIO MARQUES MOTA, com dedicatória a JOÃO CRAVINHO

júlio marques motaUma série sobre o caminho da agonia do capitalismo

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Dedico o trabalho deste série a um amigo de longa data, João Cravinho. E se a amizade passa por um certo reconhecimento diremos que se trata de uma amizade que vem dos bancos da Escola, da faculdade, quando deu Economia Industrial com o João Martins Pereira, já falecido. Vem a esta dedicatória a propósito de uma conversa telefónica em que o meu amigo acreditava que com o texto de Olivier Blanchard e Daniel Leigh, Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers, as coisas iriam mudar. Manifestei-lhe o meu desacordo e respondeu-me que pelo menos ao nível das ideias as coisas mudariam. Mas nem ai concordei. Dei-lhe um exemplo, um texto fabuloso sobre a crise da zona euro, assinado por homens do FMI, um Working Paper, External Imbalances in the Euro Area, assinado por Ruo Chen, Gian-Maria Milesi-Ferretti, e Thierry Tressel. A explicação da crise aí estava, do melhor que já li, equivalente por exemplo, ao livro Focos de Tensão de George Friedman. Desse trabalho, desse Working Paper, das ideias aí expostas, nada, nem uma linha nos jornais, nem um debate na televisão. No então, o que lá estava era o oposto do que o FMI andava a fazer. Porque há-de ser agora diferente com o texto de Blanchard, o homem de Viva a Austeridade, dito num país destruído por ela, a Letónia! Vergonha,  nenhuma, diria eu.

Quando conversei com o João Cravinho já tinha lido o Mea culpa de Blanchard e para mim era um texto assinado por um leopardo, por um grande Leopardo que quer que tudo mude para tudo poder ficar na mesma. Para mim, aquele texto escrito por um homem que em nome do seu prestígio pessoal e das suas chorudas remunerações tinha ajudado a levar todo um continente para uma pauperização brutal e depois, depois, vem proferir o Mea Culpa declarando ao mundo,  quanto aos multiplicadores tão baixos que tornavam válidas as políticas de austeridade porque o sacrifício valia a pena, que se tinha fortemente enganado mas mesmo assim tem a coragem,  depois disso, de insinuar que  tudo poderia continuar na mesma. A austeridade assim justificada. Depois o Mea culpa do texto citado, mas não passavam de palavras de um Leopardo, porque o final do texto do FMI referido não impunha nenhuma revisão total da política seguida. Nem pensar nisso. Tudo podia ficar na mesma, portanto. E ficou!

Com tudo que tinha lido, que tinha visto, depois de tudo o que de sofrimento já ouvi pela crise sofrida no sangue e na alma de muita gente que conheço, tinha certeza de que Blanchard  fazia parte das elites  que pensam com a carteira ou, lamento ainda, com patas de verdadeiras cavalgaduras. Lembro-me de um antigo Presidente do MEDEF, Denis Kessler, que numa entrevista que cito de memória ao Le Monde de há muito tempo dizia que não ser de esquerda aos 20 anos é não ter coração, ser de esquerda aos 50 é não ter carteira. Mas este raciocínio pode ser estendido a muita gente que preside às Instituições, seja Christine Lagarde, seja Mario Draghi ou outros. Bem sei, meu amigo,  que não utilizará esta linguagem, mas meu caro, desse ponto de vista tem de me desculpar. Venho do mato deste país, aonde as letras dificilmente chegavam e mesmo que chegassem não havia saber ou nem tempo para as ler, e isto para quem dispunha do privilégio de as saber ler. Venho de um mundo de 75 anos de distância onde com o sentimento e o sofrimento da precariedade também, cada um de nós, os meninos da pobreza de então, crescíamos. E esse sentimento estava na razão inversa da polidez e esta por lá não se aprendia. Como é que uma criança com 8-9 anos ia cortar mato de estevas antes de ir para escola e para a sua mãe o ir buscar à cabeça, fizesse frio ou fizesse vento, podia aprender a polidez para com os que Visconti poderia aqui ter chamado de Os Malditos? É esta rudeza de expressão que esta minha nota explicativa sobre a dedicatória contém que marca a origem de classe de quem estas linhas está  a escrever.

Com o texto de Blanchard e Leigh nada mudou. Podíamos pensar que poderia mudar ao nível das mentalidades, sobretudo ao nível do ensino, das Universidades, da juventude que aí é (des) ensinada. Mas salvo raras excepções e que eu saiba contam-se pelos dedos de muito poucas mãos, uns escassas dezenas, nada de especial também por aí se passou. Com excepção daqueles que se movimentaram explicita ou implicitamente contra a não reestruturação da dívida, o silêncio sobre a crise é de ouro, o respeito pelas Instituições é de platina.

Deste o rebentar da crise da dívida soberana, foi assim classificada por muita gente, muita água correu sobre as pontes, muita mistificação foi pelas Instituições produzida, pelos jornais, pela televisão e também pelas Universidades difundida, 6 anos estão a passar e que vemos nós agora diversos remakes do texto de Blanchard e de Leigh. Por tudo isto me lembrei de si, meu amigo. É o FMI a produzir um texto que diria no mínimo espantoso, O neoliberalismo, terá ele sido sobre-valorizado? de Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, and Davide Furceri, é a OCDE no seu mais recente Outlook e pela mão do seu economista-chefe a escrever o editorial intitulado – Policymakers: Act now to break out of the low-growth trap and deliver on our promises, é Mário  Draghi a rondar o patético numa conferência em Bruxelas que embora diferente, pode ser encarado no mesmo sentido: a rejeição do que tem sido feito. Será que agora sim, que agora se pode pensar que algo vai definitivamente mudar?

O meu sentimento é que irá tudo continuar na mesma enquanto o que se estiver a fazer depender exclusivamente das elites que nos dirigem, digam elas o que disserem. Lembremo-nos de Kessler, mesmo que a carteira aqui tenha um sentido mais amplo. A menos que algo descarrile dolorosamente nalgum ponto de Europa e aí será o caos, a menos que sejam os povos nas ruas a exigir a mudança e isso pode acontecer com um qualquer resultado eleitoral estranho para os cânones de Bruxelas, a menos que assim seja, tudo irá continuar na mesma.

Porque assim penso decidi montar esta série de artigos, com três linhas de análise. A primeira será então uma ida ao centro das trevas, à crise grega, e ver como é que os demónios das Instituições aí actuaram, as tais cavalgaduras a que acima aludi. Aqui se explica com dois artigos de onde é que veio o dinheiro para os sucessivos resgates gregos e para onde é que ele foi ou ainda por onde é que ele não ficou. Perceber “ que, contrariamente à opinião difundida, menos de € 10 mil milhões ou uma fracção de menos de 5% do programa global foi para o orçamento público grego. Em contraste, a grande maioria do dinheiro foi para os credores existentes sob a forma de reembolsos da dívida e do pagamento de juros. Daqui a transferência de risco verificada em que o risco foi transferido do sector privado para o sector público e a subsequente transferência de risco de dentro do sector público das Organizações Internacionais tais como o BCE e o FMI para os mecanismos de resgate Europeu como é o MEE ainda constitui o desafio mais importante para o objectivo de alcançar uma situação orçamental sustentável na Grécia” e é pois uma realidade difícil de engolir. A dimensão da tragédia aqui está e como devemos então tratar os homens que a levaram a cabo?

Mas ao mesmo tempo que tocam as trombetas a darem-nos a ilusão de sinais de mudança é feita a primeira Avaliação do III Resgate à Grécia. É alcançado um acordo, mais um, à espera de ser refeito na próxima revisão, claro está. Sobre este tema editaremos dois textos, um de Daniel Gros com o título sugestivo FMI, Rua! E um outro artigo escrito por Yiannis Mouzakis com o título O acordo do Eurogrupo que pode ser bem difícil de engolir, a dar bem a ideia de que tudo continua na mesma linha, na mesma direcção.

A partir destes textos publicaremos o texto do FMI Será que o capitalismo tem estado sobreavaliado em que o que é dito pelos altos quadros do FMI nunca por esta Instituição foi dito, como por exemplo:

“A prova dos danos económicos criados pela desigualdade sugere que aqueles que decidem das políticas económicas a serem praticadas deveriam estar mais abertos à redistribuição do rendimento do que têm estado até agora. Claro, além da redistribuição, as políticas poderiam ser projectadas para atenuarem alguns dos efeitos negativos gerados a montante como, por exemplo, através do aumento das despesas na educação e de formação que, por sua vez, aumentam a igualdade de oportunidades antecipadamente pelos seus próprios impactos (a isto chamam-se condições de pré-distribuição). Enquanto isso, a consolidação orçamental, quando é necessária, poderia ser projectada para minimizar o impacto negativo sobre os rendimentos mais baixos. Por outro lado, em certos casos, os efeitos adversos da desigualdade devem ser corrigidos logo que apareçam usando os impostos e as despesas públicas para redistribuir a riqueza. Por sorte, o medo de que tais políticas possam em si-mesmas prejudicar o crescimento é sem fundamento (Ostry, 2014).”

A terminar esta série publicaremos dois artigos, um de Aditya Chakrabortty intitulado O que estamos a testemunhar é a morte do neoliberalismo, por dentro, e um segundo texto de Bill Mitchell onde é mais ou menos posta a mesma posição em que o meu amigo João Cravinho se posicionou. E a resposta de  Bill Mitchell não é também ela diferente da minha.

No texto de Aditya Chakrabortty é traçado um paralelo ao que está a acontecer com a morte do socialismo dito real. Um texto notável de que podemos discordar onde é referido um romance, Red Plenty:

“Em Red Plenty, o magnífico romance histórico de Francis Spufford mostra como é que o sonho comunista da construção de uma sociedade melhor, mais justa, se desfez.

Mesmo quando eles censuravam os pensamentos dos seus próprios cidadãos, os comunistas sonhavam em grande. O herói de Spufford é Leonid Kantorovich, o único soviético a ganhar um prémio Nobel de Economia. Ao som do barulho do metro de Moscovo, o personagem fantasia sobre o que a abundância trará a estes seus pobres concidadãos da periferia de Moscovo: “As roupas das mulheres a transformarem em sedas forradas e acolchoadas, os uniformes militares a transformarem-se em fatos de alfaiate feitos sob medida de cor cinzento prateado : e rostos e rostos, por toda a carruagem, a ficarem relaxadas, descontraídas, a perderem quer as rugas das preocupações quer os olhares famintos quer ainda a ver transformarem-se os seus dentes até aí estragados e marcados pela necessidade ” (…)

Quando Red Plenty foi publicado em 2010, era claro que a ideologia subjacente ao capitalismo contemporâneo estava em plena queda mas não era claro que esta estava a morrer. Contudo, um processo similar como o descrito neste romance parece estar agora a acontecer, no nosso capitalismo atingido pela crise. E são os tecnocratas muito importantes que actualmente estão no comando do sistema que lentamente, relutantemente, admitem que isto é a falência total.”

Para mim que estudei Kantorovitch, um autor que foi durante anos para mim uma referência pela razão bem simples do seu trabalho espectacular na percepção da lei do valor e simultaneamente da sua leitura e transposição para uma economia onde o mercado no sentido tradicional estava excluído. Respondia desta forma à ideia de esquerda no Ocidente: deve a economia política transformar-se em política económica? De resto, esta é ainda uma pergunta que não levou nenhuma resposta cabal.

Que um homem como Kantorovitch  sonhava com a abundância para o seu povo, sinceramente comoveu-me nos dias de hoje, porque também a maioria de todos nós há 15 anos sonhávamos  com um capitalismo de abundância onde o problema maior a resolver seriam os tempos livres e o que temos, afinal,  é o capitalismo da miséria.  Com justa razão Aditya Chakrabortty transpõe para aqui o discurso de Khrushchev neste romance histórico:

“Red Plenty termina com Nikita Khrushchev a caminhar fora da sua Dacha, para onde se retirou depois de ter sido compulsivamente aposentado. “Paraíso “, exclama: ” é um sítio onde as pessoas querem acabar os seus dias, não um local de onde as pessoas querem fugir. Que tipo de socialismo é este ? Que tipo de merda de vida é esta que é necessário manter as pessoas presas por correntes ? Que tipo de ordem social? Que tipo de paraíso? ” Podemos fazer as mesmas perguntas relativamente ao capitalismo da abundância.

Mas neste texto está a explicação para o engano de João Cravinho quanto à possibilidade de mudança a partir da desculpa apresentada por Blanchard,  e vejamo-la então:

introdução - I

A Directora-Geral do FMI Christine Lagarde com George Osborne. ‘ A partir de 2008, criou-se um enorme fosso entre o que o FMI diz e o que o FMI faz.’ Photograph: Kimimasa Mayama/EPA”.

Simples, a razão do engano. Desde a crise o FMI quer ser Deus e o Diabo, tem um discurso para os intelectuais e um outro para os políticos, para os países em dificuldade. E isso nem ele nem eu sabíamos.

Por fim a terminar a série publicaremos o texto de Bill Mitchell intitulado A OCDE junta-se na corrida aos que defendem a expansão fiscal – por enquanto, pelo menos. Aqui cita o Outlook da OCDE onde se diz:

“A política orçamental deve ser implantada mais extensivamente e pode beneficiar do ambiente criado pela política monetária… A investigação promovida pela OCDE aponta para o tipo de projectos e de actividades que têm altos multiplicadores, incluindo tanto nas grandes infra-estruturas (tais como no digital, na energia e nos transportes) e nas infra-estruturas mais leves (incluindo inovação e educação pré-escolar). As escolhas certas irão catalisar o investimento das empresas, que, como o Outlook de há um ano atrás, argumentava, em última análise, é a chave para fazer saltar a economia da armadilha de baixo-crescimento para uma trajectória de elevado crescimento…

A necessidade é urgente. Quanto mais a economia global permanece na armadilha de baixo-crescimento, mais difícil será poder quebrar os efeitos de arrasto negativos, reavivar as forças de mercado e lançar as economias para uma trajectória de elevado crescimento. Como está a situação actual, um choque negativo pode lançar o mundo de regresso a uma outra recessão profunda. Até agora, as consequências da inacção política prejudicaram as perspectivas para os jovens de hoje com 15 por cento deles na OCDE a não terem nem educação, nem formação, nem emprego ( em inglês seria a sigla NEET ) : reduziram-se drasticamente os rendimentos das pessoas reformadas cujos rendimentos são provenientes dos fundos de pensão relativamente àqueles que se reformaram antes de 2000; deixam-nos sobre uma trajectória de carbono que nos deixará vulneráveis às perturbações climáticas.”

Tudo isto parece estar a anos luz, muito longe portanto, da sua posição anterior, acrescenta Bill Mitchell.

E a conclusão de Bill Mitchell é no fundo semelhante à da minha resposta dada ao meu amigo João Cravinho:

“Conclusão

O grande problema é que quando a unidade interna começa a quebrar dentro de grupos que anteriormente mantiveram uma forte coesão, é um sinal de que a disciplina do grupo de pensamento neoliberal está sob ameaça.

Como é que os grupos respondem a isso, esta é agora a questão.

Suspeita-se que os factos empíricos são de tal forma contrários às posições ideológicas defendidas agora por altos quadros das duas Organizações, OCDE e FMI, que se irá quebrar a continuidade das suas posições, [ as posições agora apresentadas]. Estas organizações são um pouco diferentes relativamente aos prejudiciais grupos de pressão que alimentam os mercados financeiros de Wall Street ou de tipos capitalistas como os irmãos Koch, por exemplo, para injectarem narrativas que servem apenas os seus próprios interesses pessoais.

É mais fácil para estas organizações continuarem a mentir. Para a OCDE e para o FMI é, pois, mais violento continuarem a parecer estúpidos.

 

E com isto desejo a todos boa leitura dos textos desta série.

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Nota de A Viagem dos Argonautas – Por lapso ontem publicámos o artigo nº 1 desta série, em vez desta introdução. Por esse facto, pedimos desculpa ao Professor Júlio Marques Mota e aos nossos leitores.

 

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