NO CORAÇÃO DAS TREVAS, AS GRANDES INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS, E NÓS À PROCURA DA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL COMO SAÍDA PARA A CRISE? IMPOSSÍVEL – 7. O QUE ESTAMOS A TESTEMUNHAR É A MORTE DO NEOLIBERALISMO, POR DENTRO, por ADITYA CHAKRABORTTY

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Uma série sobre o caminho da agonia do capitalismo

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O que estamos a testemunhar é a morte do neoliberalismo, por dentro.

Aditya Chakrabortty

Aditya Chakrabortty, You’re witnessing the death of neoliberalism – from within

The Guardian, 31 de Maio de 2016

Os economistas do FMI publicaram um notável texto admitindo que a ideologia está ao desbarato

Chakrabortty - I

” é o que pensamos ouvir quando o governador do Banco Central da Inglaterra , Mark Carney toca o alarme sobre ‘ baixo crescimento, baixa inflação e com o equilíbrio a baixa taxa de juro”. Foto: Dylan Martinez / AFP / Getty Images

 

O que faz com que isto se assemelhe a uma morte da ideologia? Tal como acontece com a maioria das coisas, a ficção pode ser o melhor guia. Em Red Plenty, o magnífico romance histórico de Francis Spufford mostra-se como é que o sonho comunista da construção de uma sociedade melhor, mais justa, se desfez.

Mesmo quando eles censuravam os pensamentos dos seus próprios cidadãos, os comunistas sonhavam em grande. O herói de Spufford é Leonid Kantorovich, o único soviético a ganhar um prémio Nobel de Economia. Ao som do barulho do metro de Moscovo, o personagem fantasia sobre o que a abundância trará a estes seus pobres concidadãos da periferia de Moscovo: “As roupas das mulheres a transformarem-se em sedas forradas e acolchoadas, os uniformes militares a transformarem-se em fatos de alfaiate feitos sob medida de cor cinzento prateado: e rostos e rostos, por toda a carruagem, a ficarem relaxados, descontraídos, a perderem quer as rugas das preocupações, quer os olhares famintos assim como todas as varias cicatrizes que são o sinal da pobreza”.

Mas a realidade desfaz rapidamente tais castelos de areia. Os números, os factos, são cada vez mais desobedientes, são cada vez mais o seu oposto. Os belos planos quinquenais só podem ser realizados através da manipulação dos seus resultados e os seus planificadores sabem-no melhor do que todos os dissidentes. Esta é uma das ideias essenciais de Spufford: que muito antes de qualquer protesto público, os especialistas do plano abriram o caminho,  comunicando em voz baixa a sua inquietação. Sussurro após sussurro, memorando após memorando, o regime está a ser minado firmemente por dentro. O seu final faz cair décadas de mentiras que mesmo para além do fim do romance, ainda podem ser referenciadas.

Quando Red Plenty foi publicado em 2010, era claro que a ideologia subjacente ao capitalismo contemporâneo estava em plena queda mas não era claro que estava a morrer. Contudo, um processo similar ao descrito neste romance parece estar agora a acontecer no nosso capitalismo atingido pela crise. E são os tecnocratas muito importantes que actualmente estão no comando do sistema que lentamente, relutantemente, admitem que isto é a falência total.

Ouve-se o governador do Banco de Inglaterra Mark Carney a disparar o sinal de alarme quanto a um “ baixo-crescimento, baixa-inflação, e a um equilíbrio com baixa taxa de juro”. Ou quando o Banco de Pagamentos Internacionais, o Banco Central dos Banco Centrais, adverte que “a economia global parece incapaz de retornar ao crescimento sustentável e equilibrado”. E vimo-lo mais claramente na quinta-feira passada com um texto do FMI.

O que torna a intervenção do FMI tão notável não é o que está a ser dito – mas quem é que o diz e a forma como o diz, sem rodeios. Na principal publicação do FMI, três dos seus economistas de topo escrevem um ensaio intitulado “Neoliberalism: Oversold?”[2].

O próprio título abala-nos um pouco e sobressalta-nos. Durante muito tempo os economistas e os decisores em política económica da corrente do pensamento económico dominante negaram a existência de um tal coisa como o neoliberalismo, considerando este termo como um insulto inventado pelos sem-dentes[1] descontentes que nunca entenderam o que é capitalismo nem o que é a economia. Agora, aparece o FMI a descrever como é que uma “agenda neoliberal” se difundiu por todo o mundo nos últimos 30 anos. O que eles nos dizem é que muitos, mesmo muitos, Estados transformaram as suas instituições sociais e políticas em cópias pálidas do mercado. Dois exemplos britânicos, é o que nos sugere Will Davies, – autor do livro Limits of neoliberalism – , seriam o SNS e as Universidades “, onde as salas de aula estão a ser transformadas em supermercados.” Desta forma, o sector público está a ser substituído por empresas privadas, e a democracia é suplantada pela pura competição.

Os resultados, os investigadores do FMI admitem-no, têm sido terríveis. O neoliberalismo não gerou crescimento económico – apenas fez que algumas pessoas ficassem muito melhor. O neoliberalismo provocou falhas épicas que deixam para trás, como excluídos, uma grande parte da humanidade como sendo lixo humano e muitos milhares de milhões em custos para corrigir isto, um resultado com que a maioria dos utilizadores dos bancos alimentares na Inglaterra concordarão em confirmar. E enquanto George Osborne poderia justificar a austeridade como ” estar a consertar o telhado, enquanto o sol está a brilhar,” o grupo de investigadores do FMI define a situação como ” estando a reduzir a dimensão do Estado … um outro aspecto da agenda neoliberal.” E, dizem-nos, os custos “poderão ser enormes – muito maiores do que os benefícios”.

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A Directora-Geral do FMI Christine Lagarde com George Osborne. ‘ A partir de 2008, criou-se um enorme fosso entre o que o FMI diz e o que o FMI faz.’ Photograph: Kimimasa Mayama/EPA

Aqui precisamos de ter  bem presentes duas coisas. Em primeiro lugar, este estudo vem da divisão de investigação do FMI – não é um texto escrito por aqueles que na qualidade de funcionários andam de país em país em falência a regatear os termos dos empréstimos com governos em dura dificuldade e a administrar-lhes a morte pela asfixia orçamental (fiscal waterboarding). Desde 2008, tem sido criado um grande fosso entre o que o FMI diz e pensa e o que o FMI faz. Em segundo lugar, enquanto que os investigadores vão muito mais longe do que os seus observadores independentes alguma vez poderiam acreditar que seria feito e dito, eles deixam uma escapatória para algumas cláusulas extremamente importantes. Os autores defendem a privatização, considerando mesmo que estas conduzem sempre a uma “prestação de serviços mais eficiente” e a menos despesas públicas- em que a única resposta a esta posição deve ser a de lhes oferecer uma viagem de comboio através de Hinkley Ponto C.

Chakrabortty - III

Mesmo assim, este documento publicado pelo FMI é uma violação extraordinária do consenso neoliberal. A desigualdade e a inutilidade de muita da finança moderna: esses temas têm-se transformado regularmente em brinquedos de mascar para economistas e políticos, que preferem tratá-los como aberrações relativamente à norma. Finalmente uma grande instituição está a querer atacar não apenas os sintomas mas a causa – e afirma que a causa é política. Não é de espantar que o principal autor do estudo diga que esta investigação não poderia ter sido publicada pelo FMI há cinco anos atrás.

Desde 1980 que a elite dos decisores das políticas económicas rejeitavam a ideia de que estavam a agir ideologicamente – mas sim apenas a fazer com “que as coisas funcionem”. Mas só se consegue ir longe com essa argumentação se o que se está a fazer estiver realmente a funcionar. Desde o crash de 2008, os governadores dos bancos centrais, os políticos e os jornalistas de televisão tem tentado tranquilizar o público de que este sufoco ou aqueles milhares de milhões irão fazer com que a situação de crise seja ultrapassada e ir-se-á pois colocar a economia novamente numa trajectória de crescimento. Eles têm percorrido todas as páginas de todos os manuais de economia e mesmo para além disso – resgates de bancos, cortes nas despesas, congelamento de salários, injecção de muitos milhares de milhões nos mercados financeiros – e o crescimento continua anémico.

E quanto mais longe se vai na crise mais as pessoas se sentem desorientadas e angustiadas com o facto de que não só estão perante um crescimento ainda mais fraco mas em que o comum dos trabalhadores recebem muito menos benefícios da Segurança Social que antes. No ano passado o grupo de reflexão e de pressão dos países ricos, a OCDE, fez uma concessão notável. Reconheceu que a parcela do crescimento económico do Reino Unido auferida pelos trabalhadores (a parte dos salários no PIB) está agora no seu valor mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. Mas mais notável ainda , afirmam que se passa o mesmo ou ainda pior no capitalismo ocidental.

Red Plenty termina com Nikita Khrushchev a caminhar fora da sua Dacha, para onde se retirou depois de ter sido compulsivamente aposentado. “Paraíso “, exclama: ” é um sítio onde as pessoas querem acabar os seus dias, não um local de onde as pessoas querem fugir. Que tipo de socialismo é este? Que tipo de merda de vida é esta em que é necessário manter as pessoas presas por correntes? Que tipo de ordem social? Que tipo de paraíso? “

Os economistas não falam como os romancistas, o que é uma pena, mas o que nós estamos a testemunhar no meio de tantos gráficos e de tanta linguagem técnica é o início da  longa morte de uma ideologia.

Aditya Chakrabortty, Jornal Guardian, You’re witnessing the death of neoliberalism – from within. T0065to disponível em:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/may/31/witnessing-death-neoliberalism-imf-economists

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[1] Nota do tradutor : Trata-se de uma alusão a François Hollande relativamente às classes de rendimentos mais baixos, a que na intimidade chamava os sem-dentes.

[2] – Poderá ler a tradução de “Neoliberalism: Oversold?”, por Júlio Marques Mota, publicada ontem aqui em A Viagem dos Argonautas, clicando em:

NO CORAÇÃO DAS TREVAS, AS GRANDES INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS, E NÓS À PROCURA DA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL COMO SAÍDA PARA A CRISE? IMPOSSÍVEL – 6. O NEOLIBERALISMO, TERÁ ELE SIDO SOBREVALORIZADO? – por JONATHAN D. OSTRY, PRAKASH LOUNGANI e DAVIDE FURCERI – II

1 Comment

  1. Pergunto: não será antes o fenómeno, aliás inevitável, da decadência civilizacional do chamado Ocidente? Já ensinava o velho Zamora que todas as civilizações até desaparecerem têm uma Antiguidade, uma Idade Média, uma Idade Moderna e, por fim, uma Idade Contemporânea. CLV

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