CRÓNICA DE DOMINGO – O CORAÇÃO DAS TREVAS – por João Machado

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Publicou A Viagem dos Argonautas uma série de textos sobre os desastres causados por agências internacionais como o FMI e a OCDE, sob o título geral No coração das trevas, as grandes instituições internacionais, e nós à procura da luz ao fundo do túnel como saída para a crise? Impossível. Os vários artigos incluídos mostram que, embora os responsáveis de aquelas instituições estejam cada vez mais conscientes dos graves erros que têm cometido com as políticas que têm imposto, mantém estas sem alteração, como aliás se pode observar com a questão das multas que pretendem impor ao nosso país, a primeira vez que acontece tal coisa na vida da UE, apesar de vários outros países já terem infringido os tratados em circunstâncias sobejamente conhecidas.

Não foi por acaso que o título da série se inspirou na obra de Joseph Conrad (1857-1924), um polaco naturalizado britânico (os pais chamaram-lhe  Jósef Teodor Konrad Korzeniowski) que se tornou marinheiro e viajou durante vinte anos por várias partes do mundo, incluindo o chamado Estado Livre do Congo, mais conhecido como o Congo belga, onde decorreu um dos mais bárbaros processos coloniais dos tempos modernos. O seu conto Heart of Darkness, publicado em 1902, mostra a brutalidade exercida sobre as populações, a pretexto da exploração do marfim e de outras actividades extractivas. De tal modo Conrad foi direito à essência da questão, que vários outros autores se inspiraram na sua obra, sendo o caso mais famoso o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, com argumento de John Milius, estreado em 1979, que transpõe para o Vietname a narrativa da  tragédia das gentes do Congo Belga. Heart of Darkness e o seu autor foram alvos de muitas críticas, de diferentes quadrantes, mas a obra lançou luz sobre a violência imperialista e colonial que decorria no fim do século XIX, sendo de referir que Cedric Watts, autor da introdução e notas à edição de 2002 de quatro contos de Joseph Conrad, da Oxford World’s Classics, sublinha que esta obra põe em evidência a existência de um discurso próprio do imperialismo que ao mesmo avaliza e esconde os excessos a que conduz a exploração económica.

Não é de modo nenhum exagerado alargar esta análise a outras situações, que à primeira vista seriam entendidas como de outra natureza. Referimo-nos ao caso da Turquia, cuja população está cada vez mais sujeita a uma tirania que, cada vez mais claramente, enquanto protesta que quer defender a democracia, procura impor uma nova forma de imperialismo otomano, que levará fatalmente a consequências trágicas para os turcos e para os povos vizinhos: curdos, sírios, e mesmo os gregos, búlgaros  e não só.

Entretanto, olhe-se para o que se passa no Reino Unido, onde os partidários da saída da UE obtiveram mais votos que os defensores da permanência, mas entretanto são os próprios líderes do Brexit, agora no governo, que parecem dispostos a protelar a aplicação da vontade popular o mais que possível, isto é, a levar à prática o Brexit. Enquanto que no partido trabalhista, a facção que se opõe ao secretário-geral Jeremy Corbyn parece disposta, sob pretexto da derrota no referendo, a impor a sua saída do cargo. A movimentação desencadeada atingiu foros tais, que um grupo de intelectuais de prestígio, incluindo Noam Chomski e John Pilger, lançou um abaixo-assinado denunciando a campanha selvagem que está a ser desenvolvida contra ele, com o apoio dos membros do parlamento e da comunicação social de direita. Vejam em:

http://www.theguardian.com/politics/2016/jul/08/labour-jeremy-corbyn-and-the-search-for-the-partys-henry-vii

É óbvio que temem que Corbyn consiga tirar o partido trabalhista do fosso em que caiu com Tony Blair. Ele foi eleito pelas bases do partido, e pretende afastar-se da chamada austeridade e relançar as políticas sociais. Daí as campanhas contra ele. Os seus adversários pretendem derrubá-los por querer virar à esquerda e não pelos defeitos de que o acusam. Já contaram com o apoio de David Cameron, o ex-primeiro ministro conservador, que, em plena sessão do parlamento, lhe sugeriu que se fosse embora. Pelo menos deixou claro quem é realmente oposição no Reino Unido. E quem procura continuar no reinado das trevas.

1 Comment

  1. No texto acima dá-se a entender que os políticos que presidem aos destinos da EU começam a ganhar consciência do erro que têm cometido com a austeridade que tem desde há 6 anos imposto a este espaço martirizado, e tanto ou mais martirizado quanto o espaço de Schengen. Ora, a União Europeia não dá nenhum sinal de abrandamento, nem sequer no discursos quanto à sua posição inflexível relativamente à austeridade e à violação sistemática dos direitos dos povos. A questão das sanções é uma clara ilustração disso mesmo. E duas a três razões para isso: falta-lhes capacidade intelectual como a que mostrou um Olivier Blanchard ou o editor do Outlook da OCDE ou ainda alguns quadros do FMI que assinaram o último documento do FMI sobre a sobre-avaliação do neoliberalismo. Falta-lhes honestidade como políticos, uma qualidade cada vez mais rara nos dirigentes de hoje, veja-se Durão Barroso e o Goldman Sachs, veja-se Sarkozy e o mesmo banco, veja-se Villepin e um fundo de investimento chinês, veja-se Timotny Geithner a trabalhar num fundo americano, veja-se Madeleine Albright a ser advogada do fundo abutre de Paul Singer, e assim sucessivamente. Nas outras Organizações internacionais há sinais de desconforto claro, até mesmo no BCE, mas não na EU. De resto, salvo este pequeno detalhe felicito o autor da crónica agora em análise pelo excelente texto com que nos brindou.

    Júlio Marques Mota

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