RAUL BRANDÃO, UM “RASTO VISÍVEL” NA LITERATURA PORTUGUESA DO SÉCULO XX – II – por Carlos Loures

Com sua esposa, Angelina Brandão (quadro de Columbano)
Com sua esposa, Angelina Brandão (quadro de Columbano)
(conclusão)

Falemos então deste escritor forjado não só pela sua grande sensibilidade como também pela sua experiência de vida – a escolar, a jornalística, a militar… A obra de todos os escritores é sempre, de uma ou de outra forma, o produto das suas respectivas vivências. Raul Brandão, porém, é um homem que baseia os seus livros em consistentes alicerces, construídos com a argamassa das recordações que foi acumulando, memórias de seres humanos com os quais se foi cruzando ao longo da sua existência. As suas personagens, a Candidinha, o Gabiru, o Gebo, a Joana, a Luísa, o Ziem, o Vaz, são arrancadas à vida real, sentimo-las palpitar, na sua carne de papel e tinta – convivem e interagem connosco.

Pelo princípio da derradeira década do século XIX, Raul fazia parte da imensa hoste de escritores seduzidos pelo Simbolismo vivendo um período dominado pelo nefelibastismo. Porém, a preocupação humanista pela sorte dos humilhados e ofendidos, a condenação da exploração do homem pelo homem, a denúncia das chagas sociais feita um pouco à maneira dos seus mestres russos, constitui a nota dominante da sua produção literária, surgindo sempre, sob as diversas camadas sedimentares que vai acumulando ao longo da sua evolução como escritor, como visão estruturante e unificadora da sua obra – «Por cada homem que amontoa ouro há cem criaturas morrendo de desespero», diz em Os Pobres.

São também bastante elucidativas as palavras com que termina o romance Húmus: «Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma arquitectura de ferro. […] É com palavras que são apenas sons que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.»

Quando, em 1890, ainda sob a influência das ideias filosóficas, políticas, sociológicas e religiosas de Sampaio Bruno bem como do estilo ironicamente acutilante de Fialho e da prosa requintada, mas ferina, de Eça (para não falar de uma técnica narrativa que algo terá bebido em Camilo Castelo Branco), publica o seu primeiro livro, Impressões e Paisagens, recorre a pedaços da sua experiência da infância vivida entre lavradores e gente do mar, para esboçar quadros da vida dos camponeses e dos pescadores. Em 1886, José Pereira de Sampaio Bruno publica o ensaio Geração Nova, no qual contesta o realismo-naturalismo e o positivismo de Auguste Comte e defende os valores do moderno romance russo, exaltando particularmente Fedor Dostoievski: «o novo romance é um mundo moderno, uma concorrência cognitiva, representa uma crise moral.», diz Sampaio Bruno no seu ensaio.

E esta parece ser a bússola por onde Brandão orienta as suas primeiras navegações.     Mas nem só das memórias da infância e da juventude e das influências de Bruno, Fialho e Eça, construiu o seu primeiro livro, pois numa carta a Alberto Allen Bramão, um dos seus companheiros das lides jornalísticas (que viria a ser deputado e secretário particular do penúltimo chefe de governo do regime monárquico, Ernesto Hintze Ribeiro), diz-lhe que foi também das discussões que em tempos tiveram sobre Arte que aqueles contos nasceram. Quando, sob o pseudónimo colectivo de Luís Borja subscreve o panfleto Os Nefelibatas, o seu decadentista arsenal literário e ideológico continua a ser sensivelmente o mesmo: «Anarquistas das Letras, petroleiros do Ideal, desfraldando ao vento sobre os uivos e os apupos dos sebastianismos retóricos o estandarte de seda branca da Arte Moderna.»5

Em 1896, ainda sob a influência bruniana atrás referida, misturando textos de ficção com outros de ideias que viera produzindo desde 1890, publica História Dum Palhaço. Em 1899 representa-se no Teatro de D. Maria II, a peça A Noite de Natal, que escreve de colaboração com Júlio Brandão Em 1901 sai um outro seu panfleto, O Padre. Em 1902, sobe à cena, desta vez no D. Amélia (actual São Luís) o drama de sua autoria O Maior Castigo. Em 1903 publica mais uma obra de ficção, A Farsa, que dedica «Ao Grande Poeta Guerra Junqueiro», romance de que nos fica a imorredoira personagem da Candidinha; em 1906, é a vez de Os Pobres (um dolorismo redentor), com um prefácio de Guerra Junqueiro, onde o poeta diz «Não vejo diante de mim um poema estéril, obra dos sentidos, da imaginação e da volúpia. Vejo um acto profundo, espontâneo de imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me.» Figuras como o Gebo e o Gabiru, surgem-nos neste conjunto de ficções em toda a grandeza da sua dimensão humana. Na sua edição de 1984, este livro contém um esclarecedor «estudo-introdutório» escrito por Vítor Viçoso (esclarecedor não só sobre este livro, mas sim sobre toda a obra de Raul Brandão). Todavia, será a partir de 1912 que irão surgir as suas obras de maior fôlego e significado. É neste ano que se publica a sua obra historiográfica El-Rei Junot, dedicado a sua mulher, em cuja introdução proclama: «A história é a dor, a verdadeira história é a dos gritos.»; em 1914, sairá, também de raiz histórica, 1817: A Conspiração de Gomes Freire 6, dedicado à memória de Maximiliano de Azevedo, escritor, jornalista e investigador, que foi director do Arquivo Histórico Militar. A propósito destas incursões de Brandão no campo da historiografia, Victor de Sá, no seu excelente prefácio à edição de 1988, salienta: «É certo que Raul Germano Brandão […] não foi propriamente um historiador, nem nunca se terá pretendido como tal. A sua obra literária, de intenso humanismo e entranhada interioridade, está aí para o demonstrar.» […] «No caso de Raul Brandão importa sobretudo considerar o estado em que se encontrava a historiografia portuguesa no início da República, cuja mudança de regime fugazmente lhe despertou a veia historicista.» A visão dolorosa da realidade nacional impôs-lhe a intervenção num terreno que, em princípio, nunca seria o seu.

Ainda em 1917, publicará aquele que é na opinião de muitos a sua mais bela obra – o romance Húmus. No dizer de José Régio, é um romance moderno na medida em que a sua escrita corresponde ao «espírito moderno» […] «assimilável ao espírito romântico – tomando os termos na sua mais ampla acepção.»7 Em 1919 publicar-se-á o primeiro volume das suas Memórias, com o segundo a ser editado em 1925 (ou 1926), e o terceiro (Vale de Josafat) a sair postumamente, em 1933. Esta obra, tão reveladora do permanente sentimento humanista do escritor, fala bastante mais dos outros do que de si mesmo. Na sua tertúlia de amigos, ouvia, registava na sua memória e na sua sensibilidade fotográficas os pormenores mais impressivos dessas conversas, tomava depois notas em jeito de diário e lega-nos, desse modo, uma das obras mais notavelmente elucidativas sobre o que foram, no campo social, moral, político e cultural, essas primeiras três agitadas décadas do século XX. Tempo de revoltas e de revoluções, de regicídios e de golpes militares; em suma, de convulsões profundas.

No ano de 1923 dará à estampa outra das suas mais belas obras, Os Pescadores, resultado quer do seu conhecimento da vida do mar, quer de uma viagem que faz aos Açores e de um percurso que realiza por praias e por aldeias de pescadores. No prefácio da edição de 1988, José Cardoso Pires salienta: «Um escritor que registou a paisagem com esta inquietação e com estas referências não cabe nas molduras que alguns leitores apressadamente ainda pretendem impor-lhe com veneração. A sua leitura do país vai mais longe, tem outro futuro – projecta-se na actualidade do nosso viver e da nossa escrita.»8

As Ilhas Desconhecidas, livro publicado em 1926, insere-se dentro da mesma linha de evocação de mitos locais e de descrição de quadros da faina piscatória. Neste mesmo ano de 1923 publica três peças de teatro – O Doido e a Morte, O Rei Imaginário e O Gebo e a Sombra.  Em 1929, será editada outra das suas obras mais destacadas – O Avejão. O Pobre de Pedir, na linha confessional e autobiográfica das Memórias, apenas será publicado postumamente em 1931. Na edição de 1984, além de uma apresentação expressamente escrita por Guilherme de Castilho (que viria a falecer em 1987), inclui-se ainda um valioso estudo introdutório de Vítor Viçoso. Um comovido texto de Maria Angelina Brandão, vindo da edição original, integra ainda este volume. Também com edição póstuma, sai em 1984, precedida de uma exaustiva introdução de Túlio Ramires Ferro, a sua obra Os Operários.     Constituiria uma grave omissão falar da obra de Raul Brandão sem referir a «Casa do Alto», situada na Nespereira (Guimarães), uma aldeia minhota enterrada entre pinheirais e serranias, para onde, já casado foi viver em 1903. Ela desempenhou um importante papel na sua vida de escritor, pois ali, na sua torre, produziu textos como El-rei Junot, A Conspiração de 1817, Húmus, A Farsa, os dois primeiros volumes das Memórias, Os Pescadores, As Ilhas Desconhecidas e o Portugal Pequenino, escrito em colaboração com Maria Angelina. Diz nas Memórias: «A certa altura da vida tive a impressão de que me despenhara num mundo de espectros. A face humana meteu-me medo pelo que nela descobria de repulsivo e de grotesco. Fugi para poder viver […] Fugimos para a aldeia… a nossa casa fica a meia encosta da colina. Por trás, o mar verde dos pinheiros, em frente, os montes solitários. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo.»

Quando em 1912 passou à situação de reforma (com 45 anos), todos os Invernos desciam, ele e Maria Angelina, até Lisboa em busca do clima mais ameno. Na capital recarregava também a sua bagagem de informação, convivendo intimamente com uma grande parte da elite intelectual do País. Na Casa do Alto trabalhava depois esse material registado pela sua sensibilidade fotográfica.     Diga-se ainda que à grande qualidade da sua obra não corresponde, como tantas vezes acontece, uma adesão do público e, consequentemente, dos editores. Guilherme de Castilho no seu prefácio à edição de 1984 de O Pobre de Pedir, chama a atenção para este desencontro, infelizmente tão frequente, entre escritor, editor e leitores: «Só aos quarenta e cinco anos, em 1912, com vinte e dois anos de carreira literária e depois de sete obras publicadas, cada uma de diferente paternidade editorial, é que Raul Brandão encontra o primeiro editor que vai publicar com alguma continuidade obras suas: A Renascença Portuguesa. Aqui permanecerá até 1923, ano em que pela mão de Aquilino, passa a ser editado pela Bertrand. A Seara Nova, em 1926, será a chancela editorial com que serão lançados os livros da última fase da sua vida.»9

«Silhueta de pirata nostálgico, tesourando o chão a passadas sonâmbulas», com estas palavras se autodefiniu Raul Brandão. Sobre o seu aspecto físico, ficaram-nos fotografias suas, retratos executados por António Carneiro e por Columbano. Ficaram-nos também muitos testemunhos dos que o conheceram. E, sobretudo, as suas Memórias. Feita esta descrição sucinta da sua biobliografia pouco mais há talvez a dizer num registo de baixa frequência sobre este grande vulto da literatura portuguesa (o que significa que quase tudo fica por dizer). E aqui voltamos a dar a palavra ao diplomata e escritor presencista Guilherme de Castilho, autor de um dos mais inteligentes estudos biográficos sobre Brandão (Raul Brandão – Vida e Obra, Lisboa, 1979): «A história da vida de Raul Brandão […] é, pode dizer-se, a história da sua obra. A alguém que lhe pediu a sua biografia, respondeu: ‘Podia dizer-lhe quando nasci, quando comecei a escrever, etc. Considero tudo isso inútil. O importante seria dizer-lhe quando o fantasma se intrometeu na minha vida. Nem sei ao certo… […] Da minha vida não posso avançar mais nada, além do que aí está em farrapos nalguns dos meus volumes…’»     Terminamos com as palavras com que, em Janeiro de 1918, ele dá início às suas Memórias: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.»10

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5 – Panfleto Os Nefelibatas (Lisboa, s/data – fim de 1891 ou princípio de 1892) – Citado em Dicionário da Literatura Portuguesa, dirigido por Álvaro José Machado (Lisboa, 1996).

6 – Ao longo das suas diversas edições, a obra foi tendo títulos diferentes; referimos aqui o que Raul Brandão decidiu para a 3ª, da Renascença Portuguesa, saída em 1917. Na mais recente edição de 1988, a da Editorial Comunicação, foi seguido o critério adoptado pelo escritor Manuel Mendes ao preparar uma edição das Obras Completas em fascículos para o «Jornal do Foro», atribuindo-se o título que o autor escreveu pelo seu punho sobre um exemplar de trabalho da 3ª edição – Vida e morte de Gomes Freire.

7 – José Régio – Artigo publicado no nº 23 da Presença (Coimbra).

8 – José Cardoso Pires – prefácio a Os Pescadores (Editorial Comunicação, Lisboa, 1986)

9 – Guilherme de Castilho in apresentação a O Pobre de Pedir (Editorial Comunicação, Lisboa, 1984).

10 – Raul Brandão – op. cit.

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Este texto de Carlos Loures sobre Raul Brandão foi publicado no Estrolabio em 29 de Dezembro de 2010. Ver em:
http://estrolabio.blogs.sapo.pt/385360.html

 

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