REQUIEM PARA UMA UNIÃO EUROPEIA JÁ MORIBUNDA – REFLEXÕES EM TORNO DO BREXIT, DA UE E DA GLOBALIZAÇÃO – 2. OS PERDEDORES DA GLOBALIZAÇÃO ESTÃO REVOLTADOS E BREXIT É APENAS O COMEÇO – por MATT O’ BRIEN – III

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política

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Os perdedores da globalização estão revoltados e Brexit é apenas o começo

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Matt O’Brien, The world’s losers are revolting, and Brexit is only the beginning

Washington Post, Wonkblog, 27 de Junho de 2016

(CONCLUSÃO)

Brexit, é certo, tem mais a ver com a Europa do que com a Grã-Bretanha.

Isto pode ser o começo do fim do euro, da União Europeia e da própria ordem internacional liberal. Tal como como a Revolução Francesa, embora penso que seja demasiado cedo para o dizer. A Grã-Bretanha pode ainda estar longe da situação de rutura. E a Europa pode ainda enfrentar as falhas da sua moeda e a incapacidade da sua burocracia para se contrapor a uma qualquer outra surpresa nacionalista que aí venha. Nada disto é provável, mas nós não podemos exclui-lo tal como não podemos excluir o contrário, Brexit pode na verdade representar o fim da UE se a França e a Itália seguirem o mesmo caminho que a Grã-Bretanha batendo com a porta à UE; pode igualmente ser o fim do Reino Unido se a Escócia e a Irlanda do Norte decidem fazer parte da UE (ou do que dela restar); e pode mesmo ser o fim da nossa era da integração econômica se esta situação ajudar os populistas a ganharem o poder e estes afirmam-se politicamente reafirmando que a sua grande preocupação é a de colocarem sempre as suas populações “em primeiro lugar.”

A UE pode certamente parecer merecer este destino. Tem deixado a Europa do Sul economicamente a arder há já quase oito anos e a sua única resposta tem sido a de espalhar gasolina por cima e parece pensar que fez o seu trabalho agora que aquela está muito em baixo e envolta numa densa fumaça. Agora, o seu primeiro erro foi ignorar os sucessivos avisos dos economistas que bem advertiram que criar uma união monetária com moeda única sem uma união fiscal em paralelo seria caminhar para um mau fim, o que de facto está a acontecer. O seu segundo erro foi ignorar as provas de que as coisas estavam a correr mal, apenas como se tinha previsto, e em vez de ganhar consciência disto mesmo esteve a acusar os governos de irresponsáveis. E seu fim, o seu último erro foi total forçando os governos a cortarem nos seus orçamentos e com a ideia errada que estes poderiam assim e de novo recolocar as suas economias em crise numa trajetória de crescimento. Logicamente, não foi nada assim, a crise agravou-se ainda mais. A aplicação desta doutrina (emagrecer para crescer, empobrecer para enriquecer) é o equivalente económico de lançar a uma pessoa que se está a afogar uma âncora em vez de uma bóia de salvamento, porque se considera que a pessoa que se está a afogar precisa é de ficar mais forte (resistindo na água) e não de ser tirada da água. O que fez da União Europeia a besta negra da Europa.

A ironia triste de tudo isto é que a UE foi criada para impedir o reaparecimento do fervor nacionalista mas a sua má gestão da crise económica e a dureza das políticas de austeridade aplicadas é o que estão agora a gerar. Talvez o seu tempo de vida tenha chegado. O caixote de lixo da história existe por alguma razão.

No entanto, no entanto, é fácil para uma geração que tenha conhecido apenas a paz e a prosperidade relativa esquecer que o arco do universo político é longo, e que tende sempre para o que nós iremos ter, para onde fazemos por isso. Se este tende para o nacionalismo e para o isolacionismo, bem, é isso que iremos ter. Os países de Europa terminarão pois a realizar os seus muros metafóricos para proteger as suas economias, e eventualmente a cercar as suas fronteiras. O governo nacionalista de Hungria está já bem a caminho neste processo com as suas redes de arame farpado bem cortante.

matt - VIII

Este é um período perigoso para a Europa. Tem havido muros antes. Não os devemos voltar a querer outra vez. A única coisa, então, que pode pior que a União Europeia, então, são as pessoas que se querem desfazer dela. O mesmo pode ser dito da globalização. Pôde ter gerado um crescimento menos inclusivo e menos sustentável do que antes — pelo menos nos países ricos — mas é duro dizer que a alternativa seria melhor. Nós ficaríamos um pouco mais pobres, e os países mais pobres poderiam ficariam com menos possibilidades de crescerem.

A ordem internacional liberal não está a funcionar para muita gente, mas, no fim de contas, a maioria de economistas vão dizendo que ainda vale a pena lutar por melhorá-la. Apesar de tudo, as alternativas são muito piores. Se nós queremos evitar aprender esta realidade em primeira mão, então, teremos necessidade de construir uma grande rede de segurança social para os vencidos da globalização, e, no caso da UE, tornar os eleitores mais conscientes, mais sensíveis . Se não o fizermos, podemos ter que aprender a mais dura de todas as lições.

A história nem sempre caminha para a frente.

 Matt O’Brien, Washington Post, The world’s losers are revolting, and Brexit is only the beginning. Texto disponível em:

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/06/27/the-losers-have-revolted-and-brexit-is-only-the-beginning/

 

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Os britânicos reagem ao corte dos laços com a UE

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Many celebrated the referendum results, and British Prime Minister David Cameron announced that he will resign after Britons went to the polls the day before.

 

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