
E depois do Brexit caiu o pano e ninguém estava em cena, David Cameron, Boris Johnson, Nick Farage, Jeremy Corbyn tinham desaparecido – Uma série de textos tendo como pano de fundo a União Europeia e a sua classe política

Depois do Brexit, a caminho ainda de mais integração ?
Vamo-nos estampar contra a parede mas há quem queira ainda acelerar !

Jean-Luc Gréau– economista francês. Antigo perito do MEDEF
Après le Brexit, vers encore plus d’intégration? On va dans le mur, mais certains voudront accélérer!
Revista Causeur.fr, 24 de Junho de 2016

Os Ingleses, representantes da mais velha democracia do mundo, acabam de colocar as cartas políticas da Europa sobre a mesa e de abrir o campo do possíveis até agora limitado pelas agendas e programas da burocracia dirigente.
Compreende-se que, nestas circunstâncias, cada um procure puxar as cartas que lhe convêm. Os soberanistas apelam a um referendo em cada um dos Estados membros, os Europeístas militantes mas sobretudo os dirigentes no poder no seio da União, falam de refundar a Europa. Como é excluído submeterem-se à queixa dos soberanistas, é necessário interrogar-se sobre o que é que o termo refundação poderia significar. Uma coisa e o seu contrário igualmente.
Em primeiro lugar, poder-se-ia pensar que se vai fazer o que estava ao alcance do presidente francês eleito em 2007, apoiar-se sobre a rejeição do tratado constitucional a 29 de Maio de 2005, para pedir uma reformulação do sistema. O espaço Schengen era já uma peneira sem rede, a doutrina da concorrência defendida em Bruxelas punha os núcleos duros das nossas economias sem defesas perante as agressões externas, o euro criado para homogeneizar o espaço económico europeu tinha facilitado a divergência das economias que constituem a zona euro e a política industrial era coisa proibida num espaço mundial super-agressivo em termos de concorrência. Acrescentemos a este quadro uma diretiva que autoriza o emprego de pessoal a baixos custos procedente das regiões menos caras como a Roménia ou a Bulgária (um quarto do pessoal do BTP na França provem da Europa central e oriental).
Com a cegueira e a presunção intelectual que o caracterizam, Nicolas Sarkozy passou por cima da votação de 29 de Maio de 2005 para restabelecer o tratado rejeitado nas urnas e prosseguir sobre os erros de um sistema que deliberadamente esquece os interesses das populações e dos Estados históricos. Pior, ele organizou o resgate particularmente dispendioso do euro e sobretudo entregou, nesta altura, o poder decisivo a Berlim cuja chanceler nos dita, desde então, as suas vontades. O tratado de estabilidade orçamental e a lei El Khomri são as últimas manifestações do imperium berlinense imposto pela via de Bruxelas. Nesta sexta-feira, o mesmo Sarkozy propõe… um governo económico da zona euro com um presidente europeu (ele?)!
A lógica da situação quereria que o atual presidente francês efetuasse uma viragem de direção para desconstruir e reconstruir por um lado, e, por outro lado, para dar oxigénio às economias, afrouxando os constrangimentos orçamentais, incluindo o financiamento monetário das despesas públicas produtivas. Esta mesma lógica exigiria que os seus grandes oponentes republicanos se mobilizassem ao seu lado. Mas pode-se acreditar nisto quando os partidários de Hollande se puseram a si próprios uma corda ao pescoço com a lei de reforma do trabalho e quando os programas dos candidatos às primárias nos Republicanos colocam em perspetiva a liquidação do Estado?
Será que se vão transferir os ministérios das Finanças para Bruxelas?
A outra lógica da situação consistiria em aproveitar a saída do Reino Unido para acelerar o processo de integração. Hoje, são os Países Baixos, os países escandinavos, a Hungria que se mostram mais rebeldes à integração: acabam de perder com a saída da Inglaterra um aliado de peso. Pode-se por conseguinte excluir uma operação oportunista de reforço da integração, feita a toque de caixa, antes das eleições francesas e alemães de 2017. O instrumento principal seria a transferência dos ministérios das Finanças para Bruxelas. Não se trata aqui de nenhum fantasma. O projeto estava já na agenda, fortemente apoiada por personalidades como o governador de Banque de France, Villeroy de Galhau. A hipótese é ainda tanto mais plausível quanto o voto inglês incita a tornar o processo irreversível com grande prejuízo para as populações que nunca entendem nada sobre os benefícios da construção europeia.
Tudo isto não faria contudo mais do que incitar as forças soberanistas do Velho Continente. Os Franceses, para falar apenas deles, poderiam eles aceitar de coração alegre o desaparecimento do seu Estado instalado desde há oito séculos por Philippe Auguste? Toda a propaganda da nomenklatura não será nunca suficiente para os convencer. E poder-se-ia então imaginar a vitória, hoje inverosímil, da candidata soberanista francesa em 2017.
Finalmente, incapazes de dizer se o Brexit é uma possibilidade para a França, formamos a esperança que poderá sê-lo para a democracia francesa centrando o debate sobre o fundo enquanto que hoje este está polarizado intencionalmente sobre as pessoas que encarnam a nossa burocracia política.
Jean-Luc Gréau, Revista Causeur, Après le Brexit, vers encore plus d’intégration? On va dans le mur, mais certains voudront accélérer!. Texto disponível em:
http://www.causeur.fr/brexit-royaume-uni-union-europeenne-38903.html
