O MAPA (A Saga do anadel) – Capitulo III – por Carlos loures

Lisboa, fim da tarde de sexta-feira, 25 de Agosto de 1485.

 

Cidade prodigiosa, Lisboa é como uma jovem mulher – de carne aureolada por uma claridade azul, branca ou rósea, consoante a admiramos pela manhã, pela tarde ou pelo crepúsculo – mirando-se, galante e indolente, reclinada, sobre o brilhante espelho do rio. É, na minha opinião, mais sedutora e bela se, observada desde a Banda d’Além, a vemos ao meio-dia, iluminada por uma incandescente luz branca, gravada a talhe-doce e tecida em alvo cetim, de contornos bordados a linha de ouro e prata. Contudo, sendo uma donzela, a cidade é também em termos heráldicos, como sabemos, uma nave ladeada por dois corvos – um pousado à ré e outro alapado à proa. Nave cuja tripulação é feita pelas gentes que percorrem as ruas, becos, pátios, largos, travessas, medinas e aljamas.

É precisamente nesta cidade e perto da aljama ou judiaria, junto da Porta do Mar, a S.João, que a nossa narrativa tem o seu começo.Porém já não é meio-dia, o tal mágico momento em que a urbe fica resplandecente de tão branca. Estamos num fim de tarde do Verão do ano de 1485 e a sombra rósea do úsculo vai descendo sobre a cidade com uma subtil asa de veludo. O debuxante de portulanos e cartas de marear Lopo de Mateus está na sua oficina no beco do Mancelos debruçado sobre a mesa de trabalho. Nicolau, o jovem e aplicado aprendiz, que saiu há mais de uma hora, logo a seguir ao toque das Trindades, deixou-lhe os vasos de barro já com as cores preparadas, depois de ter esmagado os pigmentos no almofariz e os haver misturado na habitual emulsão de água, claras e gemas de ovo, servindo de cola. Pusera-lhe também um pouco de cobalto, para que a secagem se venha a fazer sem problemas. Cuidadosamente, cobriu os vasos com panos, para que a pureza das tintas não seja contaminada e alterado o seu brilho.

O mapa encomendado por um piloto está quase pronto. Falta só o elemento final: já desenhou a compasso o círculo da rosa-dos-ventos, marcando-lhe as 32 divisões da circunferência do horizonte, e colorindo-a com as tintas que Nicolau lhe deixou preparadas. Agora falta apenas colocar um pouco de ouro sobre a flor-de-lis que colocou por de trás da rosa náutica que ilustra o canto inferior direito da carta, dando-lhe orientação e permanente sentido, transformando-a num valioso instrumento de navegação. São horas de cear, Matilde vai ralhar-lhe pela certa, mas não pode deixar o mapa por acabar, pois o cliente vem buscá-lo no dia seguinte, logo pela manhã. Na verdade, gastou muito, mas não demasiado tempo conversando com o seu grupo de amigos. Pensa que gastou e não que perdeu.

O grupo de amigos e as suas discussões, deixam-no cada dia, senão mais sábio, menos ignorante, pensa também enquanto corta a folha de ouro, à medida do desenho, decalcando-a sobre o pergaminho. É um privilégio ter amigos tão doutos como o médico hebreu José Vizinho, também dado às ciências geográficas, e mestre Rodrigo, outro físico e cosmógrafo judeu, além do jovem sábio Martin Behaim, mais conhecido entre nós pelo nome de Martinho da Boémia, comerciante, astrónomo e cosmógrafo, homem, de muito saber, e que está a redigir um tratado, Da prima Inventione Guinee, baseado no relato do marinheiro Diogo Gomes. Como sempre, o debate foi apaixonante, pois estiveram a apreciar um exemplar de um livro impresso na Alemanha poucos meses antes e que Martinho adquirira para a sua valiosa livraria. Em Portugal ainda não começara verdadeiramente o prodígio da imprimissão e, por isso, ver, ter nas mãos um livro impresso, era algo de mágico. Os quatro amigos haviam partilhado, com emoção, essa magia. Porém, o convívio com a sapiência vai custar-lhe um ralho de Matilde das tranças de ouro, como continua a chamar-lhe apesar de agora a prata ter substituído o ouro de há vinte anos. Afinal, a casa fica a dois passos, ao cimo da Rua Direita de São João, a ceia será de novo aquecida e tudo quedará dentro da normalidade. Ela acaba sempre por lhe desculpar os atrasos, os esquecimentos. Lopo de Mateus acende uma vela, pois dentro da oficina a luz começa a escassear. Ouve três pancadas fortes e secas na porta. Vai abrir.

Expressão de surpresa:

– Ah, és tu?

 

 

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